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Mundo próprio

O Artur (nome fictício) parece viver numa bolha, dizia a educadora quando o entregava aos pais. A Clara (nome fictício) parece estar desligada do mundo e voltada para dentro de si, diz habitualmente a sua mãe quando desabafa. Estas e outras frases são comuns de serem ouvidas ao longo da vida, e principalmente nas pessoas autistas. E não é de estranhar porque a palavra autismo, palavra com origem na palavra grega autos, significa por si mesmo. E do conjunto de comportamentos observados na pessoa autista são vistos como as pessoas estando centralizadas em si mesmas, voltadas para si própria.


Mas as outras pessoas não têm o seu mundo próprio?, pergunta Afonso (nome fictício). Como é que as pessoas se diferenciam umas das outras se não têm um mundo próprio, só seu?, questiona a Joana (nome fictício). As pessoas não têm por hábito pensar com elas mesmas?, pergunta Álvaro (nome fictício). Tinha ideia de isso ser uma característica humana, continua. E as crianças, não têm um mundo próprio, só seu, onde vivem a sua fantasia e os seus sonhos?, pergunta Ângela (nome fictício).


Ainda que a designação viver no seu próprio mundo aplicado às pessoas autistas possa fazer algum sentido, se pensarmos em algumas situações. O certo é que a designação em si tem um impacto muito negativo. Seja na forma como isso faz perpetuar o estigma face ao autismo. Mas também o cristalizar de uma crença das pessoas autistas viverem as suas vidas voltadas para si próprias. Um pouco como a designação crianças especiais ou anjos azuis. Se pensarmos, também estas designações têm sido utilizadas como forma de manter uma infantilização da pessoa autista ao longo da vida.


Uma boa parte das vezes eu viro-me para dentro de mim para me proteger das agressões sentidas do exterior, diz Álvaro. Não vejo que isso seja tão diferente daquilo que acontece com tantas outras pessoas, continua. O meu irmão que é neurotipico também se fecha um pouco mais quando a vida não lhe corre bem, conclui. Sempre que sinto que estou mais cansada e até mesmo exausta de estar à conversa com as minhas colegas preciso de me refugiar!, diz Ângela. As outras pessoas não fazem isso?, pergunta. Não vejo porque vêm dizer que nós autistas somos voltados para nós próprios, conclui. Se há coisa que eu não tenho é um mundo só meu, diz Artur a rir. A quantidade de mundos que tenho na minha cabeça e muitos deles em simultâneo leva-me a discordar com essa ideia, conclui. O meu mundo é o teu mundo. O meu mundo é o nosso mundo, diz Joana. Aquele que todos nós estamos a construir no dia a dia, conclui. O meu mundo é um reflexo deste mundo. A minha dor e tristeza um reflexo da forma como certa parte deste mundo de todos me trata, diz Clara. A minha ansiedade é uma consequência da forma como eu penso que no dia a seguir irão lidar comigo no trabalho, continua. Os meus pesadelos são resultado da minha vida angustiante, conclui. As pessoas não autistas já se perguntaram em que mundo é que elas próprias vivem?, pergunta Joana. As pessoas não autistas já se questionaram porque é que dizem que nós autistas vivemos no nosso mundo próprio?, continua. Não será porque elas próprias não sabem ou não querem sair do seu próprio mundo e vir até ao meu?, conclui.


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