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Monólogos de mulheres autistas



"Tenha eu a dimensão e a forma informe

Da sombra e no meu próprio ser sem forma

Eu me disperse e suma!"


Fernando Pessoa in Monólogos à noite



Por vezes perguntam se não me aborreço de me ouvir, diz Adelaide (nome fictício). Fico sempre perplexa com a pergunta, continua. Não sabia que as pessoas se ouviam, refere. Pensava que quando falava o outro estaria a tomar atenção, não é assim? pergunta. Eu conto que o outro esteja a tomar atenção ao que estou a dizer. Até porque às vezes não me lembro do que estava a falar e espero que o outro me ajude, conclui.


Quando chego a casa a primeira coisa que faço é falar, diz Rute (nome fictício). Sei quem ligue a televisão ou a rádio, diz. Não tenho paciência. São equipamentos que fazem demasiado ruído, seja no som mas também nos temas que nos procuram enfiar pela cabeça a dentro, continua. Eu gosto de pensar os meus próprios pensamentos. Normalmente, os pensamentos dos outros aborrecem-me facilmente. Por isso a primeira coisa que faço quando chego a casa é falar. Não sei se falo comigo própria. Por vezes penso que falo para mim, como se fosse alguém que ali estivesse comigo. Talvez sinta falta disso, ou apenas de ouvir um outro pensamento a conversar comigo, conclui.


Às vezes farto-me das minhas próprias conversas, diz Anabela (nome fictício). Não me suporto, não me aturo, continua. Apenas queria que os meus pensamentos parassem. Mas eles não param e por isso tenho de sair de mim mesma, diz. Sempre pensei que falamos demais. Seja sozinhos ou com outros, falamos demasiado. Temos uma urgência para colocar uma palavra associada a algo ou a alguém. O que é que isso quer dizer? perguntam. O que é que achaste do outro? voltam a perguntar. Falam da poluição no planeta e até mesmo no espaço. Deviam pensar na poluição verbal, conclui.


Podiam ser monólogos de mulheres autistas. Pelo menos enquanto os escrevi foram um monólogo na minha cabeça. Um monólogo, uma longa fala. Um discurso pronunciado por mim. Monos e logos, um palavra, um ideia. Assim extravaso de maneira mais ou menos razoável e ordenada os meus pensamentos e emoções. E deixo sair as pessoas que me habitam, os seus monólogos.


Mas os monólogos de que gostaria de vos chamar a atenção são estes - Monólogos de mulheres autistas. Os monólogos da Joanna Grace, Sara Rocha, Rita Serra, Lia Wolf e Carol Souza. Não vou escrever, dizer ou pensar mais nada. Não quero que esse ruído ocupe o espaço dos seus monólogos.




"Por enquanto há diálogo contigo. Depois será monólogo. Depois o silêncio. Sei que haverá uma ordem."


Clarice Lispector


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