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Masterclass

Bem vindos a mais uma masterclass! Hoje temos as chefs PEA e PHDA! Estou certo que as conhecem. Já as viram a actuar sozinhas, mas alguns de vocês também as viram em conjunto. Quando cozinhamos de acordo com as receitas ficamos frequentemente com a ideia de os resultados serem sempre aqueles e iguais aos anteriores, certo? Mas depois na prática verificamos que mesmo seguindo as receitas isso parece não acontecer. Pois bem, é isso mesmo que acontece quando as chefs PEA e PHDA se juntam. E como tal precisamos todos de ficar mais e mais atentos a quando ambas se juntam para cozinhar para podermos aprender o que acontece em relação aos seus resultados.


A Perturbação de Hiperactividade e Défice de Atenção (PHDA) e a Perturbação do Espectro do Autismo (PEA) são perturbações do neurodesenvolvimento comuns que surgem na infância e que persistem geralmente na idade adulta. Os desafios para estas pessoas são duplos: enfrentam os efeitos relacionados com a idade sentidos pela população em geral, como os novos desafios sociais e a transição biológica e emocional para a idade adulta, juntamente com os efeitos específicos das perturbações.


Se tivermos em conta que já foi demonstrado que entre 30% a 50% das pessoas autistas manifestam sintomas de PHDA e que cerca de ⅔ as pessoas com diagnóstico de PHDA apresentam características de PEA. Podemos ter uma pequena noção da tempestade perfeita que estas pessoas encaram no seu quotidiano.


Os fenótipos das perturbações do neurodesenvolvimento são heterogéneos e a sua complexidade é agravada pelas elevadas taxas de comorbilidade com várias doenças (i.e., perturbações gastrointestinais, anomalias congénitas e perturbações imunológicas). Em estudos anteriores, a PHDA e a PEA foram associadas a doenças psiquiátricas e neurológicas coexistentes, tais como Perturbação de Oposição, Perturbação de Tiques, Epilepsia, Depressão, Ansiedade e perturbações relacionadas com o consumo de substâncias. Além disso, verificou-se que ambas as perturbações estão associadas a deficits funcionais e psicossociais e a uma série de resultados adversos nos próprios e nas suas famílias. As crianças e os adultos com diagnóstico de PHDA ou PEA têm frequentemente dificuldades emocionais e sociais, que também têm um impacto negativo na sua qualidade de vida.


Mas é fundamental ter em mente que separadamente cada uma destas condições é suficientemente heterogénea. E que quando em coocorrência, essa heterogeneidade torna-se ainda maior e mais complexa. E como tal, podemos observar pessoas autistas com características de PHDA e que apresentam maior propensão para o consumo de substâncias psicoactivas e álcool. Algo que há uns anos não era tão frequentemente pensado quando observávamos uma pessoa autista. Assim como também vamos poder observar numa pessoa com diagnóstico de PHDA uma maior propensão para uma menor iniciativa social nas interacções sociais, quando isso era mais expectável numa pessoa autista.


Apesar do crescente número de estudos que apontam para o impacto da PHDA e da PEA na saúde e na qualidade de vida, pouco se sabe sobre a sua coocorrência, que pode estar associada a uma maior incapacidade do que uma condição isolada e pode ser menos sensível aos tratamentos padrão para qualquer uma das perturbações, em especial, à sua coocorrência no início da idade adulta.


As pessoas com diagnóstico de PHDA reportam ter queixas somáticas (i.e., dores de estômago e nas articulações) com maior regularidade, menor actividade física e pior qualidade de sono quando comparados com grupos de controlo. As pessoas com diagnóstico de PEA referem ter tido uma doença grave nos últimos dois anos, menor actividade física e maior probabilidade de ter excesso de peso/obesidade. Além de mencionarem uma maior exposição a ecrãs (mais de 4 horas/dia) quando comparados com grupos de controlo. As pessoas com diagnóstico de PHDA e PEA apresentam mais probabilidades de ter uma doença grave e doenças auto-imunes, tendem a ter peso a menos ou peso a mais/obeso e relatava pior qualidade de sono do que os grupos de controlo.


A observação feita na clinica quando se avalia e acompanha pessoas com ambos os diagnósticos sugere que o nível socioeconómico, qualidade da saúde, confiança no futuro, controlo sobre a sua vida e apoio social estão significativamente comprometidos nos indivíduos com qualquer uma destas condições. É frequente observarmos que as pessoas nestas condições apresentam sentimentos de depressão e ansiedade e uma pior qualidade de sono. E se pensarmos que uma percentagem próxima de 80% dos adultos com PHDA têm pelo menos uma perturbação psiquiátrica coexistente, incluindo depressão e ansiedade, perturbação bipolar e perturbação por uso de substâncias. Além de verificarmos que a intervenção farmacológica nestes casos parece frequentemente obedecer a um conjunto de cuidados maior. Seja porque a reactividade a determinada medicação parece estar aumentada ou o seu contrário. Conseguimos compreender o impacto que estes factores têm na vida da pessoa e na sua qualidade de vida. Nomeadamente, são pessoas que apresentam uma maior probabilidade de serem vitimas de bullying e que enquanto adultos são pessoas mais propensas a uma situação de divórcio, menos satisfeitos com a sua vida pessoal, social e profissional, e também relações sociais menos frequentes e satisfatórias.


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