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Música ambiente

Hoje vamos aprender a nos conhecer, disse-lhe. Ficou a olhar para mim com um ar algo incrédulo. Não demorou muito até sair a pergunta - Como assim?, perguntou. Aprender a me conhecer?, continuou. Mas eu sei quem eu sou!, rematou. Sou o António (nome fictício), lembra-se? António não estava a compreender onde é que eu o estava a procurar levar. E é compreensível, visto que ele nunca pensou em si mesmo como um corpo. Ainda que saiba que tem um. E até sabe enumerar onde é que estão alguns dos seus principais órgãos. Mas nunca pensou em se conhecer a partir do seu corpo. António, hoje vamos começar por contar com precisão os batimentos cardíacos!, disse-lhe. António ficou um pouco aflito. Até porque em algumas situações fica mais ansioso e hipervigilante com os seus batimentos cardíacos. E isso acaba por lhe fazer aumentar a activação e por conseguinte a ansiedade. Disse-lhe que não tinha a ver com isso. E que íamos apenas aprender a escutar o coração e a contar de forma precisa o número de batimentos cardíacos.


Muito se fala sobre a sexualidade ou sobre sexo. Mas nem sempre sobre como cuidar da nossa saúde sexual. E apesar de muitos de nós já o fazermos. Também é verdade que nem sempre temos ideia do que a constitui. Isto porque, saúde sexual não trata apenas de controlo de natalidade, saber como colocar o tampão ou o preservativo numa banana, etc. Por exemplo, conhecer e aprender a conhecer o nosso corpo é uma delas. Até porque dessa forma saberemos melhor como é que ele funciona, seja de uma maneira geral mas também em certas condições ou em resposta a determinados estímulos. Certamente muitos já ouviram e reproduziam a frase - "Aprende a ouvir o teu corpo!" ou "Aprende a seguir aquilo que o teu corpo te diz!". E esta aprendizagem deve ser continuada ao longo do tempo, até porque o nosso corpo vai sofrendo ele próprio transformações importantes. Algumas delas são inclusive abordadas nos módulos de formação sobre a saúde sexual. Mas muitas destas transformações e a forma como cada um de nós as vai sentido, até porque é um processo muito individual e subjectivo, nem sempre são abordadas.


E se no Espectro do Autismo ainda continua a haver muita dificuldade, pudor e resistência em falar sobre a sexualidade, relações sexuais e saúde sexual. Não é menos verdade que o falar sobre o corpo e a relação com este seja igualmente negligenciada. Muitas vezes os pais, principalmente estes, trazem-nos questões ligadas à higiene, ou mais precisamente à falta desta. Ele não lava os dentes ou recusa-se a lavar! Para tomar banho é um verdadeiro sacrifício e neste momento ele é capaz de estar quatro ou cinco dias sem o fazer! A minha filha é capaz de usar as mesmas calças de ganga durante um mês inteiro! Estas e outras frases são sobejamente conhecidas dos pais com crianças e jovens autistas. Seja pelas questões relacionadas com as suas sensibilidades sensoriais, mas também pela sua maior rigidez. O certo é que há que poder pensar na importância da relação da pessoa autista com o seu corpo, independentemente destas e de outras características. Contudo, é importante pensar que a interocepção é um domínio que pode apresentar determinado compromisso e que necessita de ser ajudado a pessoa a melhor compreender. Ou seja, a interocepção é a capacidade de detectar e atender a sensações corporais internas. E esta tem sido pensada como responsável por moderar a experiência da propriedade corporal, sendo que esta competência é sabida como tendo uma função importante na função social. E apesar de se saber que a interocepção pode estar diminuída nas pessoas autistas. Não deixa de ser curioso que se tem encontrado que a mesma parece estar aumentada em duas condições encontradas com grande frequência no autismo - a ansiedade e a depressão, sugerindo que a consciência interoceptiva pode tornar-se desadaptativa se a atenção excessiva à entrada interoceptiva estiver associada a um efeito negativo.


E tal como pensamos que podemos tirar o máximo partido de um dispositivo aprendendo tudo o que podemos sobre ele, como funciona e como mantê-lo. Também podemos fazer o mesmo em relação ao nosso corpo. Aprender sobre o nosso corpo aumenta a consciência e aceitação dele, nomeadamente para que possamos vir a ter mais prazer com ele, assim como o do nosso parceiro, no caso de escolhermos seguir esse caminho. Ou seja, é importante poder aprender sobre o quão bom é para o próprio aprender sobre si e o seu corpo através do toque e da masturbação. Assim como compreender as suas necessidades e desejos. Dando a si mesmo o tempo necessário para descobrir a sua orientação sexual, por quem se sente atraído e como expressa isso. Ou compreender como as mensagens e as experiências culturais negativas podem ter um impacto na sua saúde sexual.


Tipicamente, sentimos cada uma das emoções de forma diferente no nosso corpo. Por exemplo, antes de falar em público, o seu corpo pode sentir-se de uma certa forma: o coração bater de forma acelerada, os músculos podem sentir-se tensos, a respiração pode tornar-se superficial, e o estômago pode sentir-se agitado. Estas sensações dizem-nos que estamos um pouco nervosos. Sem sentir claramente estas sensações, é difícil identificar emoções com um alto grau de clareza. E dessa forma não conseguimos ter uma resposta mais adequada na situação. Assim como se vai tornar mais difícil de poder vir a melhor a nossa prestação nesta área no futuro.


Quando o nosso sistema interoceptivo está a funcionar correctamente, as sensações alertam-nos para o facto de o nosso equilíbrio interno estar desequilibrado e motiva-nos a tomar medidas, a fazer algo que restaure o equilíbrio e nos ajude a sentir mais confortáveis. E este estar confortável é assim para os vários domínios da nossa vida, independentemente da nossa condição.


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