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Máscaras de e para todos

Com o começo do novo ano lectivo há muitas coisas a acontecer de novo e algumas pela primeira vez na vida das pessoas. Seja o mudar de escola ou ir para a Universidade, mudar de cidade ou pais, ter um novo emprego ou equipa de trabalho. Seja como for, o certo é que estas situações novas trazem incertezas, e algumas destas levam a desencadear ansiedade. E com esta ansiedade, as pessoas procuram de alguma forma mitiga-la. Mas também procuram fazer um conjunto de coisas para que as situações possam ser ou virem a ser favoráveis. E algumas vezes alguns desses conjuntos de coisas que fazemos nem sempre fazem parte da nossa forma de ser. E não, não estamos a ser falsos ou hipócritas. Estamos a procurar pertencer, encaixar, ser escolhidos, preteridos, valorizados, etc.


Ultimamente muito tem sido falado de camuflagem ou mascaramento social no autismo. Quase como se a ideia fosse que este comportamento surgiu com as pessoas autistas. Ou que apenas as pessoas autistas é que usam a camuflagem social para se integrar. E por que é que isto é importante, saber quem é que usa ou não a camuflagem social para se integrar? A conceptualização de um constructo, neste caso o de camuflagem social, é importante para a forma de o observar e avaliar. E se pensarmos que é um comportamento apenas usada pelas pessoas autistas estaremos a procurar fragilizar um grupo em termos das suas competências sociais.


A camuflagem ou mascaramento social consiste em esconder ou dissimular as características de uma pessoa durante as interacções sociais. A investigação sugere que a camuflagem é particularmente comum nas pessoas autistas, embora muitas pessoas não autistas também escondam aspectos da sua identidade.


A camuflagem social ocorrem em qualquer contexto e na pessoa adulta o local de trabalho é um contexto onde habitualmente acontece. Os locais de trabalho, as pessoas, actividades, exigências, etc., são várias as coisas que estão em quase constante mutação. A relação entre os colegas de trabalho e a percepção que as pessoas têm de que os colegas os podem avaliar ou julgar e com isso prejudicar, pode levar a ter comportamentos de camuflagem.


Mas é importante poder enquadrar algumas coisas neste tema, e diz respeito aos níveis de empregabilidade das pessoas autistas. Se por um lado se estima que cerca de 52% das pessoas com deficiência com idades compreendidas entre os 16 e os 64 tenham um emprego remunerado, em comparação com os cerca de 83% das pessoas sem deficiência. No caso das pessoas autistas adultas verifica-se que a taxa de pessoas empregadas e com remuneração é de cerca de 25%. O que se traduz na taxa mais baixa de empregabilidade (remunerada) dentro do grupo das pessoas com deficiência. E é sabido que o emprego tem um conjunto de benefícios demonstráveis para o bem-estar dos adultos autistas, incluindo um melhor sentido de objectivo, qualidade de vida e saúde física. E dada a prevalência de problemas de saúde mental na população autista, devem ser tentados maiores esforços para colmatar esta lacuna no emprego. E apesar de tanto os empregadores como os empregados autistas reconhecerem as qualidades desejáveis que muitos pessoas autistas oferecem no local de trabalho, tais como fiabilidade, criatividade e integridade, os adultos autistas continuam a enfrentar uma infinidade de barreiras na procura de emprego remunerado. Uma dessas barreiras identificada em investigações recentes prende-se com o estigma associado ao autismo.


Para os adultos autistas que conseguem emprego, a investigação que vai sendo realizada sugere que o estigma associado ao facto de ser autista persiste enquanto empregado. Como resultado, uma vez empregados, os trabalhadores autistas são confrontados com a complexa decisão de revelar ou não o seu diagnóstico aos empregadores e colegas. De facto, muitos trabalhadores autistas são dissuadidos de revelar que são autistas por medo de serem estigmatizados pelos empregadores e colegas. A investigação indica que este receio não é infundado: mais de metade dos trabalhadores autistas afirmam ter sido alvo de discriminação ou assédio moral no local de trabalho devido ao facto de serem autistas.


Embora a revelação do estatuto de autista tenha sido associada a resultados negativos relacionados com o estigma, a investigação fora do domínio do emprego indica que este rótulo pode não ser o único responsável pela estigmatização das pessoas autistas. Especificamente, os estudos identificaram os comportamentos de comunicação social das pessoas autistas durante as interacções sociais como uma fonte chave de estigma. Por exemplo, as primeiras impressões dos adultos autistas, quando avaliadas por observadores que desconheciam o seu estado de diagnóstico, eram menos favoráveis do que as dos adultos não autistas, com os observadores a considerarem os adultos autistas menos acessíveis e mais desajeitados do que os adultos não autistas. Enquanto as primeiras impressões das pessoas não autistas foram menos negativas em condições em que o diagnóstico de autismo dos adultos autistas foi revelado, as avaliações sociais negativas dos adultos autistas parecem ter implicações adversas para as intenções futuras, com os observadores não autistas a relatarem que seriam menos propensos a iniciar uma conversa ou a procurar uma amizade com um adulto autista. Os relatos dos empregados autistas sobre a sua experiência no local de trabalho reflectem este sentimento, referindo que as diferenças nos estilos de comunicação podem constituir uma barreira para fazer amigos no trabalho. Este aspecto da comunicação e especificamente orientada para o mercado de trabalho precisa de ser trabalhada com as pessoas autistas. Mas confesso que não é nada de inovador e que não tenha de ser feito, tal como já o é, para qualquer outro trabalhador não autista em determinados sectores.


Para evitar as avaliações sociais negativas que resultam do estigma relacionado com o autismo, muitos adultos autistas relatam empregar estratégias árduas de mascaramento. O mascaramento ou camuflagem, pode ser definido como a supressão consciente ou inconsciente de respostas naturais, acompanhada pela adoção de respostas alternativas, em domínios como a interação social, a experiência sensorial, a cognição, o movimento e o comportamento. No entanto, o mascaramento não é uma estratégia empregue exclusivamente por pessoas autistas. As tentativas das pessoas de se apresentarem de forma aceitável para os outros, mesmo em detrimento do seu próprio bem-estar, têm sido reconhecidas na sociologia desde, pelo menos, os primeiros anos do pós-guerra. A investigação sociológica também relacionou frequentemente estas estratégias com as profundas injustiças estruturais que afectam a vida de uma série de grupos demográficos. Por exemplo, tem-se prestado atenção à prática da passagem na população afro-americana, especialmente durante o período anterior aos direitos civis, em que os indivíduos procuravam intencionalmente convencer os outros de que tinham uma identidade racial diferente, a fim de adoptar papéis ou identidades específicos que, de outro modo, lhes seriam vedados pelas normas sociais vigentes.

Tal como no caso da injustiça racial, a literatura existente sugere que o mascaramento das pessoas autistas é fortemente motivado pelo desejo de evitar ou compensar o estigma relacionado com o autismo. Assim, um estudo que envolveu 223 adultos autistas descobriu que os comportamentos de mascaramento auto-relatados eram positivamente previstos pelo grau em que os participantes percebiam a sua identidade autista como estigmatizada, por exemplo. Os comportamentos das pessoas autistas também foram associados à utilização de estratégias individualistas (i.e., dissociação de outras pessoas autistas) e colectivas (i.e., redefinição positiva das pessoas autistas em comparação com as pessoas não autistas) para contornar o estigma associado ao facto de ser autista. Por este motivo, para evitar o estigma associado à identidade autista, as pessoas esforçam-se por pertencer a um grupo de estatuto superior, adoptando os comportamentos e os traços desse grupo. No caso do mascaramento autista, para serem aceites nos grupos sociais neurotípicos, as pessoas autistas adoptam comportamentos associados a uma identidade neurotípica e escondem os comportamentos associados à sua identidade autista. No entanto, as pessoas autistas podem também adotar estratégias colectivas, como aderir a movimentos de defesa dos direitos dos autistas, para reconceptualizar positivamente a percepção das pessoas autistas em comparação com a população neurotípica. Embora estas mudanças de identidade possam permitir que as pessoas autistas se integrem e aumentem o contacto social, o mascaramento tem muitas vezes efeitos negativos no seu bem-estar. Por conseguinte, os adultos autistas que se mascaram regularmente correm um risco acrescido de apresentarem sintomas de depressão, ansiedade e suicídio ao longo da vida.


Aquilo que vai sendo observado, seja do ponto de vista clínico, mas também na investigação, é de que as estratégias de mascaramento são amplamente utilizadas no local de trabalho, tanto por trabalhadores neurodivergentes como neurotípicos. Facto que vem desafiar a crença de que estes comportamentos se empregam exclusivamente nas pessoas autistas. Por exemplo, podemos observar que em ambas as pessoas neurotipicas e neurodivergentes se observa que no local de trabalho há uma percepção das vantagens e desvantagens da camuflagem neste contexto. Um outro exemplo, as pessoas autistas e não autistas referem ser motivados por muitos dos mesmos objectivos. E que o mascaramento é um meio de compensar a falta de conhecimento e consciência que os outros possuem sobre ser autista, mas também sobre ser neurodivergente de forma mais ampla. Além disso, falarem sobre o mascaramento em si, as pessoas autistas e não autistas referem desafios únicos ao tentar suprimir comportamentos estimulantes e sensibilidades sensoriais durante o trabalho.


A importância dos objectivos sociais, como a integração e o estabelecimento de relações sociais com os colegas, continua a ser um factor fundamental. É importante notar que o uso de estratégias de mascaramento pelas pessoas autistas para formar e manter relações com os seus colegas também desafia os pressupostos convencionais de que as pessoas autistas não desejam relações sociais. De facto, tanto as pessoas autistas como os não autistas vão expressando que uma compreensão insuficiente da neurodiversidade no local de trabalho aumenta ainda mais a pressão sentida para se mascararem neste contexto.


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