Máscaras comunitárias reutilizáveis: E quando a máscara sai?

Se há tópico que tem sido discutido ultimamente são as máscaras. E não estou a falar dos famosos cabeçudos de Torres Vedras e de outras andanças carnavalescas. Já há mais tempo que se tem falado da camuflagem social, enquanto capacidade que as pessoas, em maior número as mulheres no Espectro do Autismo têm de aprender comportamentos sociais e de os porem em prática. Mas também do impacto que esta mesma camuflagem tem nas próprias. Também já falamos do que os neurotipicos pensam e sentem sobre as pessoas no Espectro do Autismo que usam esta camuflagem. E como será que as mães, mulheres com diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo pensam acerca das suas filhas com igual diagnóstico? Se em muitos casos as mães não autistas sentem dificuldade em conseguir compreender os comportamentos das suas filhas com Perturbação do Espectro do Autismo. Será que as mães com PEA e com algumas dificuldades em conseguir ler certas pistas sociais conseguem descortinar estas semelhanças nas suas filhas?

As mulheres autistas actualmente continuam a ser sub-identificadas e reconhecidos na população em geral e são frequentemente diagnosticadas tardiamente. Os instrumentos actuais de avaliação e diagnóstico de PEA foram desenvolvidos usando populações predominantemente masculinas e pode não ter sensibilidade em relação às raparigas e mulheres com características especificas do espectro do autismo. Isto não é o mesmo que dizer que os instrumentos utilizados para fazer a avaliação e o diagnóstico de Perturbação d Espectro do Autismo não servem para as raparigas e mulheres. O que significa é que o profissional de saúde que está a avaliar as raparigas e mulheres e a usar estes instrumentos deve estar mais consciente destas características apresentadas no fenótipo comportamental das raparigas e mulheres no espectro do autismo. Mas ainda assim é assumido que as raparigas e mulheres com PEA são muitas vezes esquecidas por não corresponderem aos critérios de diagnóstico que constam nos manuais de diagnóstico, mantendo o viés de género visível nos estudos científicos no autismo.


De facto, as investigações que procuram compreender as diferenças de género reportam variações subtis na apresentação da PEA entre homens e mulheres. As mulheres autistas são socialmente mais motivadas para ter amigos, estar com um grupo de colegas e têm interesses mais alinhados com seus pares do que homens, mostrando menos problemas comportamentais e menor comportamentos ritualizados e com melhores estratégias de coping do que os homens. Contudo, estas fortes competências sociais percebidas podem ser devidas à camuflagem social e podem mascarar as dificuldades vivenciadas no seu quotidiano.

Uma questão importante que acompanha o diagnóstico posterior de PEA nas mulheres é uma experiência bem documentada de uma variedade de problemas de saúde mental, sendo as perturbações da conduta alimentar (e.g., anorexia, bulimia) as mais comuns). Verifica-se nas mulheres um aumento destas perturbações e de comportamentos internalizados o que pode contribui para as dificuldades no diagnóstico de PEA nas mulheres. Muitas vezes, as mulheres com PEA descrevem que os sintomas relacionados à PEA não estão a ser notados e, em vez disso, recebem tratamento para problemas de saúde mental outros que não a PEA. Isso pode contribuir para continuar com o problema, já que as mulheres reportam frequentemente que os professores e profissionais de saúde parecem não ter conhecimento de como a PEA se apresenta nas mulheres.


A investigação realizada com mulheres com PEA ser limitada também pode resultar dos pais atribuirem as dificuldades das suas filhas às competências parentais, em vez de entender o comportamento destas como estando vinculado à Perturbação do Espectro do Autismo.


Por exemplo, quando falamos com as mães que têm filhas com PEA é comum estas não reportarem como uma explicação dos comportamentos de suas filhas as características existentes na PEA, o que pode destacar uma falta de reconhecimento da apresentação feminina do autismo. As mães também descrevem a falta de informações sobre as mulheres, com a maioria das informações disponíveis baseadas em meninos e os sintomas típicos que se apresentam nos homens. O facto destas mães poderem estar ligadas e a participarem em grupos de apoio na comunidade parece ser uma fonte importante e útil de informação sobre a PEA e a PEA no feminino, para além de permitir que estas mães se conectem a outros pais e que fornecem apoio enquanto também aumentam a sua compreensão sobre as características do autismo no feminino.


As mães têm consciência das suas filhas usarem a camuflagem social e de terem dificuldades sociais e como tal usam estes comportamentos para poder mascarar as dificuldades. É possível poder observar um aumento da consciência social das mães das dificuldades das suas filhas em torno pares e o desenvolvimento de estratégias compensatórias para superar as dificuldades sociais, incluindo a observação e imitação o comportamento dos colegas, assistindo a vídeos on-line ou a ler livros.

As expectativas sociais de género e as normas culturais de que as meninas devem ser femininas, caladas e mais passivas do que os meninos pode fazer com que meninas com PEA internalizem os seus comportamentos e desenvolvam estratégias para manter comportamentos sociais típicos.


Um outro aspecto e de que há muitas mães a reportar dificuldades de saúde mental, com algumas a usar estratégias de coping não adaptativas para gerir o comportamento das filhas o que vem a acrescentar dificuldades no cuidar de uma filha com autismo. As mães de crianças com PEA reportam um aumento do stress e que os seus recursos pessoais e sociais parecem ser insuficientes.


Apesar de muitas mães reconhecerem os comportamentos das suas filhas, a leitura e enquadramento que fazem dos mesmos é um pouco diferentes. E ainda mais quando estamos a falar de mães com características do espectro do autismo e com as suas filhas com características iguais. A compreensão inicial que é dada parece muito atribuída às características próprias das raparigas. O que releva a importância da avaliação e do diagnóstico. Um factor importante é de que o diagnóstico dá a sensação de legitimidade, uma vez que parece estar a absolver as mães de se sentirem maus pais face ao seus filhos.

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