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Let's get straight

Vamos lá a ver se nos entendemos. A sexualidade é importante para a maioria das pessoas. Faz parte do seu autoconceito e é um aspecto importante do seu desenvolvimento saudável. E a sexualidade é parte integrante de todos nós, sejamos neurotipicos ou neurodivergentes. Mas ainda continuamos a verificar que o tema da sexualidade no Espectro do Autismo continua a ser abordado de uma forma bastante tímida. Seja por alguns investigadores e clínicos, mas também por alguns pais com filhos autistas, já para não falar da Sociedade em geral. Tradicionalmente, presume-se que as pessoas autistas não são capazes de formar relacionamentos românticos de longo prazo ou casar. E a nossa cultura é ainda marcadamente heteronormativa e neurotípico-normativa, o que significa que aqueles que são heterossexuais e neurotípicos têm privilégios distintos e sistemáticos. E como tal, as pessoas autistas e pertencentes às minorias sexuais enfrentam com maior frequência situações de estigma, marginalização e discriminação. O que afecta a sua saúde mental, formação de identidade e qualidade de vida.


No entanto, muitas pessoas com um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo nível 1 desejam entrar em relacionamentos românticos. Para além desta questão é preciso destacar que no espectro do autismo há uma maior probabilidade do que nos neurotipicos, de serem gays, lésbicas, bissexuais, assexuados e outras orientações sexuais. Para além de ser fundamental chamar a atenção para o facto das pessoas autistas e as minorias sexuais representarem ambos populações de alto risco para o desenvolvimento de depressão, ansiedade e suicídio. E no caso de ter um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo e ser bissexual, por exemplo, leva a um aumento ainda maior em termos desta probabilidade.


É fundamental perceber que a sexualidade acompanha a pessoa ao longo da vida. E que não é apenas algo que ocorre apenas a partir da adolescência. As próprias crianças, na descoberta do seu próprio corpo e do corpo do outro estão a construir a sua identidade. Por exemplo, o João (nome fictício) e a sua amiga Ema (nome fictício) têm ambos 5 anos. O João tem um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo. Estão ambos a brincar aos médicos. Contudo, João não quer fazer de paciente. Eu não estou doente, diz João. Ema explica-lhe que não importa. Faz como se fosses, diz-lhe. João não faz o que ela lhe pede. E Ema repete, uma e outra vez. Às tantas Ema levanta um pouco mais a voz e repete outra vez. O João ficou de tal forma stressado que fugiu.


E o que dizer do Miguel (nome fictício), que com 12 anos brinca regularmente com o Ricardo (nome fictício) com 7 anos. Miguel tem um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo. Um destes dias a sua mãe ficou um pouco preocupada quando viu que o seu filho e o Ricardo estava a brincar no quintal a verem quem fazia xixi para mais longe. E além disso também tentaram comprar o seu pénis.


O Mário (nome fictício), de 16 anos, tem um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo, e quer sair com uma rapariga, mas a situação está a deixa-lo muito nervoso. Ele tem procurado na internet, mas como não encontrou uma informação única ficou baralhado e foi perguntar ao pai. Podes explicar-me como me vou sentir ao beijar? Quanto tempo tenho de fazer isso? E o que é esperado fazer depois?, pergunta-lhe.


As situações são muito diversas, tanto quanto as pessoas e as suas experiências de vida o são. Além que as próprias situações e dúvidas colocadas em relação à sexualidade vão sendo diferentes ao longo do desenvolvimento. E se algumas das questões as pessoas, sejam autistas ou não, vão encontrando respostas, seja nas relações com os outros ou através de alguma ajuda profissional. Isso nem sempre ocorre. E principalmente em grupos que acabam por estar mais marginalizados, a própria procura de ajuda e informação acaba por demorar.


Tenho repulsa por sexo. Tudo o que está relacionado com práticas sexuais é nojento, diz Cláudia (nome fictício), que se identifica como assexual. No meu caso estou um pouco enojada com a ideia de sexo. E penso que isso pode estar relacionado com a minha depressão. Mas também estou a considerar se pode ser apenas ser uma questão relacionada com a minha sexualidade, diz Joana (nome fictício), que no presente momento se questiona sobre ser bissexual ou assexual.


Acho que os órgãos genitais são de uma maneira geral nojentos, refere João (nome fictício), assexuado e esteticamente atraído por mulheres. Eu tenho um desejo sexual intenso e masturbo-me com frequência. É um pouco contraditório e isso faz com que as coisas fiquem confusas. Estou completamente desinteressado em fazer sexo com alguém. Mas acabo por ter pensamentos em que a minha pessoa está em situações sexuais, e eu participo nelas. Por isso penso que o sexo é um conceito abstracto para mim, ao invés de algo que as pessoas fazem. Não acho que essas fantasias pudessem continuar fora da minha cabeça. Nem eu sei como reagiria fisicamente. Nem que fosse uma mulher lindíssima a fazer-se a mim, isso não faria a diferença. Tenho uma forte impressão de que seria uma experiência estranha e desconfortável. E penso que a base de tudo isso está assente na minha hipersensibilidade, concluiu.


Já tenho que gastar tanta energia todos os dias a tentar entender o mundo, por que desperdiçaria esse tempo em discordar internamente sobre algo sobre mim que é imutável?, questiona Mafalda (nome fictício), lésbica. Para mim, estar no espectro e ser lésbica não é diferente de ter olhos castanhos. É algo com que nasci e é apenas parte de quem eu sou, refere. Vale mais a pena aprender a abraçá-lo e tirar proveito das minhas diferenças únicas do que procurar lutar contra elas. Todos nós temos as nossas diferenças, e ser lésbica e autistas são as minhas. Eles contribuem para quem eu sou como pessoa, e eu acredito que são as nossas diferenças inerentes como pessoas que tornam a vida especial e digna de ser vivida, concluiu.


Quando trabalhamos com adultos autistas, sejam aqueles que receberam o seu diagnóstico na infância ou adolescência, mas também aqueles que o tiveram já na vida adulta, é comum ouvirmos falar da sua vida como um processo de auto-aceitação. Por norma é um caminho longo e contínuo, geralmente envolvendo várias etapas de auto-exploração, aceitação de si próprio, procura da aprovação dos outros e, em última análise, de abraçar a sua própria identidade, independentemente das pessoas em seu redor aceitarem-nos de forma amorosa ou não.


Estou muito confortável com minha identidade no momento, mas tem sido uma longa jornada para chegar a este ponto, diz Joana (nome fictício). A minha identidade é uma coisa fluída e flexível que pode evoluir no momento em que percebo algo sobre eu mesma. E sempre foi assim comigo, concluiu.


Com os adultos autistas é comum observarmos que a descoberta de que eram autistas e a identificação de sua orientação sexual são etapas distintas, seja para a compreensão mas também para a aceitação das suas próprias identidades. Além de constatarmos que além dos processos acontecerem em momentos separados, também é habitual perceber que se podem sentir mais confortável com um do que que com outro.


Não estou 100% confortável ainda, diz Rafael (nome fictício), identificando-se como assexuado homoromântico. Estou a começar a aceitar ser um adulto autista, o que é bom. Estou 100% confortável em sentir-me atraído para rapazes, mas não confiante em me identificar abertamente como assexuado, concluiu


Eu estive muito confuso durante muito tempo sobre os meus sentimentos, diz Flávia (nome fictício), não binária, pansexual e Alexitimica). Principalmente aqueles que eu estava a ter em relação a outras pessoas, e ainda mais sem ter qualquer tipo de suporte profissional para conversar ou explorar isso. Senti nojo em relação a mim mesma. Uma ameaça para os outros e para os seus sentimentos, concluiu. Seja o autismo, mas também a minha orientação sexual deixaram-me muito envergonhada, diz Catarina (nome fictício), transgénero, pansexual. Eu não estou confortável com esta questão ao ponto de não me querer rotular, diz Beatriz (nome fictício), referindo sentir-se atraída por mulheres. Os meus pais também não me estão aceitar e como tal sinto uma imensa vergonha e lido diariamente com uma homofobia interna, concluiu.


Eu vivo todos os dias com medo, diz Fernanda (nome fictício), pansexual, panromântica semissexual. Se a minha família descobrisse a minha identidade sexual penso que me batiam. E nem quero pensar em saber o que me diriam se soubessem que eu estou no espectro do autismo, acrescenta. O meu pai esteve em negação por muito, muito tempo, e ainda agora, quando ele aparentemente aceitou que sou autista, ele não me aceita por aquilo que eu sou, diz Carla (nome fictício), com dúvidas sobre ser bissexual ou assexual. Eu não tenho problemas com o facto de ser autista ou da minha orientação sexual. Mas tenho alguns problemas com o o meu pai e as suas atitudes e o efeito que estas têm tido na minha vida. Fico muito triste ser tratada dessa forma, refere.


Saber é muito melhor do que não saber, diz Júlia (nome fictício), transgénero, pansexual. Eu ficava muito desconfortável comigo mesma. Ficava obsessiva a ruminar sobre a minha identidade. E isso começou muito cedo. E piorou ainda mais na puberdade, e não parou até que eu aceitei o autismo e a disforia de género, concluiu. Aprendi que não devo criar ou adoptar identidades na procura da aceitação dos outros, ou para tornar mais fácil aceitar-me, diz Júlio (nome fictício), assexuado.


Eu acho que o meu autismo aumentou significativamente a minha confusão inicial, diz Tomás (nome fictício), pansexual. Eu também penso que ser autista pode ser parte do motivo porque demorei a perceber que era homossexual, refere António (nome fictício). Sempre foi desafiante identificar os meus próprios sentimentos. E isso também foi tornando difícil reconhecer os sentimentos dos outros e as atrações sexuais, completa. Por exemplo, ser autista complica as coisas no que diz respeito à identidade. A um nível lógico, eu sei que nunca me senti atraída por homens, mas uma vez que é difícil identificar sentimentos sexuais e românticos em mim mesma, posso nunca ter a certeza de qual seria a minha identidade sexual e de género, diz Cláudia (nome fictício), lésbica.


A minha enorme dificuldade em me relacionar com os outros, formar relacionamentos com outras pessoas, tem sido uma grande barreira para a compreensão da minha sexualidade, diz Carlos (nome fictício), pansexual. É difícil avaliar as minhas próprias preferências se passamos a maior parte da nossa vida como um espectador, a ver os relacionamentos românticos de fora, concluiu.


Eu não posso colocar um rótulo em mim porque nunca namorei com ninguém, diz Joana (nome fictício), questionando-se sobre ser bissexual ou homossexual. Apesar de nunca ter estado perto de nenhum parceiro, acho que a sua orientação sexual é irrelevante, diz.


É difícil imaginar coisas que você nunca experimentou, diz Andreia (nome fictício) trans, assexual, romanticamente atraída por mulheres. O meu autismo fez-me questionar as coisas e levou-me a empurrar para a assexualidade, diz Catarina (nome fictício), não binária, assexual. Ainda hoje luto contra esse pensamento. Uma vez que a sociedade ao meu redor é altamente sexual, eu não consigo entender a sociedade e a atração sexual. E talvez a compreensão de uma me ajudasse com a outra. Mas é difícil, e nem sei se as coisas funcionam assim. O meu autismo não controla a minha identidade sexual. Mesmo assim, o meu pensamento enche-se de inquietação, refere.


Eu acho que muitas pessoas sentem como a minha assexualidade existe apenas porque me falta experiência, diz Manuela (nome fictício), assexual. Ou é só porque sou anti-social como resultado do meu autismo, continua. E muitas vezes sinto que os profissionais de saúde me querem consertar, acrescenta. As pessoas muitas vezes pensam que minha falta de interesse por sexo é devido ao meu Asperger e não ouvem quando eu lhes explico que não tem nada a ver. E isso torna mais difícil apresentar a assexualidade como uma orientação legitima, diz Carla (nome fictício), assexual.


O contacto físico com as outras pessoas pode ser muito difícil no quotidiano, e ainda mais no contexto sexual, diz Célia (nome fictício), bissexual. Mais recentemente descobri que durante a elação sexual, parte dos meus problemas com o meu desempenho geral é devido à minha incapacidade de comunicar com clareza algumas das minhas questões sensoriais, sendo que muita ou pouca estimulação é um linha bastante difícil de conseguir, continua.


Antes de perder a minha virgindade, presumi que, apesar do meu desejo sexual em relação aos outros ser menor, era apenas algo que provavelmente gostaria de experimentar. No entanto, eu estava bastante errado, e todas as experiências foram sentidas como completamente forçadas, e até desconfortáveis. E ainda mais com as minhas questões sensoriais, que tornam a relação sexual ainda mais desagradável. A minha repulsa com vários aspectos do corpo humano excede qualquer alegria que possa sentir de alcançar numa relação, diz Valter (nome fictício), assexual.


A higiene para mim é algo fundamental, diz Joana (nome fictício), lésbica. Todo e qualquer cheiro da pessoa é suficiente para me causar repulsa. Se as pessoas têm odor corporal, se os cabelos cheiram, os dentes parecem sujos, cheiram a comida ou tabaco, é impossível para mim, diz.


Eu fico excitada com o corpo das mulheres, mas não tenho muito esse desejo de fazer sexo, dia Juliana (nome fictício), lésbica. Sou muito autoconsciente para ser agradável. Mas o sexo é mais complicado para mim, o que me faz com que eu que eu estrague tudo, diz. O sexo para mim é mais fácil do que comunicação verbal e social, diz Raúl (nome fictício), homossexual. É possível chegar mais perto de alguém através do sexo do que através de pequenas conversas, diz.


Estou confortável com minha própria identidade como conceito e sentimento, mas eu adoraria ser capaz de articulá-lo melhor com aqueles ao meu redor. ... eu tendo a explicar as coisas de maneiras que são diferentes para os outros e ficam frustrados quando eu não fui compreendido, diz José (nome fictício), transsexual. Ser uma dupla minoria torna as coisas particularmente difícil para que as pessoas entendam exactamente como me sinto, acrescenta.


Apesar da representação regular de ambas as comunidades como lugares muito abertos e receptivos, isso não foi minha experiência, refere Catarina (nome fictício), lésbica. A comunidade LGBTQ+ condenava-me frequentemente ao ostracismo por ser esquisita e vi-me maltratada e intimidada por outros autistas por ser lésbica, diz.


Existe um grande sentido de comunidade entre aqueles que se identificam como LGBTQ+, a menos que você esteja no espectro, diz Flávia (nome fictício), lésbica. Estar no espectro torna difícil formar conexões significativas com outras pessoas, e como uma pessoa que também se identifica como uma minoria sexual, isola ainda mais você, acrescenta.


Eu realmente não sei o que é a coisa a fazer ou a forma como isso é feito, especialmente em encontros queer, etc., porque esses exemplos nem são mostrados na TV ou universalmente presente na cultura popular da forma como o namoro heterossexual, etc., é. Eu tive que pesquisar no Google como me comportar num encontro com um companheira, diz Carla (nome fictício), panromântica, semisseuxal pansexual.


Tem sido extremamente difícil para mim. Eu até tenho problemas em fazer amigos, quanto mais para namorar...está fora de questão, diz Joana (nome fictício), atraída por mulheres. A minha capacidade de comunicar e interagir socialmente está tão gravemente prejudicada que tenho sido incapaz de estabelecer relações com outras pessoas. Eu ainda tento descobrir como fazer amigos ou mesmo conhecidos, diz João (nome fictício), homossexual.


A ideia de namorar é assustadora. Eu tenho problemas com o ideia de abordar alguém e convidá-la para sair, é assustador, eu sei que as pessoas fazem isso todos os dias e não é que grande coisa, mas fico imobilizada só de pensar, diz Catarina (nome fictício), assexual.


Acho que meus problemas com a navegação na vida e normas sociais é descobrir qual o comportamento que indica a emoção ou intenção. O que torna difícil expor minhas possíveis intenções românticas, ou saber se alguém está interessado em mim, diz Cláudia (nome fictício), panromântica semissexual.


A maioria das pessoas que me interessam não são assexuadas, diz Joana (nome fictício), assexuada. E isso deixa-me a imaginar se, ao entrar num relacionamento com eles, estaria a negligenciar o seu desejo e sexualidade. Não desejo deixar um outro significativo numa posição apertada ou estranha por causa da minha própria sexualidade … Estou cada vez mais preocupada com o futuro dos meus relacionamentos, diz.


A minha maior dificuldade nos relacionamentos é comunicar as minhas necessidades tanto a nível sexual quanto emocionalmente, diz Tomás (nome fictício), não binário, pansexual. É difícil encontrar um parceiro que esteja disposto a ter um tempo extra para me compreender, refere.

Estou ciente de que pode ser feito uma espécie de compromisso nesses tipos de relacionamentos, diz Telma (nome fictício), atração assexuada, puramente romântica. Principalmente onde o parceiro é assexuado. Embora eu não tenha confiança nas minhas próprias capacidades de comunicação para efectivamente transmitir as minhas opiniões sobre o assunto sem dar uma falsa impressão de hostilidade, refere.


A minha experiência como autista e gay assexual tem sido uma situação bastante complicada de navegar, refere Cláudio (nome fictício), homoromântico assexuado. Quando encontro rapazes sinto que não devo apenas tentar explicar o quão diferente eu penso, mas também o facto de que eu não gosto de sexo, concluiu.


Tenho dificuldade em perceber se alguém vai reagir mal por eu ser gay, diz Teresa (nome fictício), lésbica. Não tenho a certeza quando é socialmente aceitável divulgar, diz Clara (nome fictício), pansexual ou panromântica e assexuada.


Vejo pessoas à minha volta que se sentem diferentes por pertencer a uma minoria sexual, diz António (nome fictício), heteroromântico pansexual. Eu já não me importo tanto com a opinião dos outros. Até porque já estou habituado a ser desprezado por todas as pessoas por causa dos meus problemas mentais, diz.


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