Lembra-te: as mãos não são para bater

As mãos servem para dizer olá. Para saudar e comunicar ou desenhar e escrever palavras. Tal como as mãos tem muitas formas, tamanhos e cores também o Espectro do Autismo pode ser visto como uma coleção de condições neurológicas relacionadas. As mãos tal como o Espectro do Autismo faz sentido como um todo.

Todos sabem que o Autismo é um espectro. Ou pelo menos parecem saber. São várias as vezes que se ouve dizer - "O meu filho está no espectro mais grave do Autismo.", "Somos todos um pouco autistas, porque é um espectro!" ou "Eu não sou autista mas decididamente estou no espectro:".


Quando Goethe escreveu no séc. XVIII sobre os espectros ópticos no livro "Teoria das Cores" e dai para a frente o conhecimento cientifico acerca do tópico foi evoluindo, podemos aproveitar essa mesma leitura para ajudar a desmontar a questão do Espectro aplicado ao Autismo. Como podemos ver, as várias partes que compõem o espectro são visivelmente diferentes umas das outras. Por exemplo, o azul parece muito diferente do vermelho, certo? Mas ambos estão no espectro de luz visível. O vermelho não é "mais azul" do que o azul. O Vermelho não é por conseguinte "mais espectro" do que o azul. Quando se discute as cores, as pessoas não falam sobre o quão longe está do espectro de uma cor ou de outra. As pessoas não dizem "As minhas paredes estão no limite superior do espectro.", certo? Mas quando as pessoas falam sobre o Autismo, elas falam como se fosse um gradiente, não um espectro. As pessoas tendem a achar que se pode ser um pouco autista ou extremamente autista, da mesma forma que uma cor de tinta pode ser um pouco vermelha ou extremamente vermelha.


Contudo, o autismo não é algo assim tão simples. Não é conjunto de sintomas definidos e que pioram de forma conjunta à medida que vamos caminhando no espectro. De facto, uma das características distintivas do autismo é o que o DSM 5 chama de “perfil desigual de habilidades”. Em vez disso, o autismo é uma coleção de condições neurológicas relacionadas que são tão difíceis de separar que talvez faça mais sentido parar de o tentar. Não é o facto de alguém apresentar um determinado sintoma, por exemplo, hipersensibilidade auditiva, que se vai dizer que é Autista. Mas será um conjunto de características agrupadas que o permitem. Não quero dizer com isto que se alguém não tiver todas as características não é Autista.


Quando temos com a DSM 5 os três diferentes níveis podemos observar na descrição de três pessoas com um diagnóstico de Autismo descrições diferentes do ponto de vista qualitativo e quantitativo. Ou seja, um Autista nível 1 apresentará um conjunto de competências mais funcionais nas competências cognitivas e intelectuais que um Autista nível 2 ou 3. Mas não deixa de o ser por isso. Da mesma maneira que apresentará uma melhor competência ao nível da interacção e comunicação social. No entanto, o Autista nível 1 apesar de apresentar este nível de funcionalidade ainda continua a apresentar um conjunto de dificuldades na esfera social e relacional, nas funções executivas, no acesso ao emprego, entres outras. Para além disso, as dificuldades não advém apenas do Autismo. É frequente apresentar-se outras condições psiquiátricas associadas, tais como, ansiedade, depressão, etc., que agrava o mal estar psicológico sentido.


Esta questão dos níveis 1, 2 e 3 nas Perturbações do Espectro do Autismo pode causar esta ideia de um caso ser mais grave do que outro. Na realidade estes níveis servem para distinguir os diferentes níveis de impacto que características apresentadas representam. Mas não podemos afirmar que um nível 1 seja menos grave que um nível 2 apenas com base neste tipo de avaliação. A minha mão poderá ser maior que a do meu filho. No entanto de pouco me serve se tenho de a colocar debaixo do sofá para tirar uma peça do Lego. O contrário se passa para abrir o frasco das gomas.

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