Isto não é uma brincadeira

As sexta-feiras costuma ser aquele dia em que regressamos a casa após uma semana cansativa para recuperar rapidamente no fim de semana. Mas no dia 13 de março haveríamos de ficar mais do que isso em casa. Ainda não sabíamos no que a nossa vida se ia tornar, mas muitas pessoas autistas já adivinhavam um conjunto infindável de dificuldades. As rotinas mantidas com tanto esforço ao longo de anos mudavam quase todas de um dia para o outro. As rotinas não são apenas coisas simples que se repetem e constitui um hábito de fazer uma coisa sempre do mesmo modo. São organizadoras da vida de cada um de nós e ajudam-nos a gerir um número grande de actividades ao longo do dia. Mas outras coisas igualmente fundamentais também foram interrompidas ou alteradas no seu formato. Estou a referir-me às terapias, que no caso dos adultos autistas passaram a ser realizadas por videoconferência. Os dias foram passando e muitos foram conseguindo encontrar um equilíbrio e novas rotinas. E ao fim de algum tempo alguns adultos autistas já diziam - "Mesmo para mim que ficar em casa representa algum de muito bom, já começa a ser demais. E esta questão de ser proibido sair ainda me causa maior dificuldade!". E agora que muitos se estavam finalmente a adaptar dizem-lhes que vão começar novamente a sair de casa e desta rotina. Mas não é para voltar propriamente ao que tinham antes. Ou seja, estamos a falar de mais uma nova adaptação a todo um conjunto de coisas novas e que irão estar ainda mais frequentemente sujeitas a alterações. Só podem estar a brincar!

Nas últimas semanas, tem havido um crescendo de discussões e cobertura dos órgãos de comunicação social concentradas no levantamento das restrições do Covid-19 e no retorno à vida quotidiana. E mais recentemente ainda tem sido debatido se este desconfiadamente tem estado a ser bem conduzido. E por que é que algumas pessoas, jovens e adultos têm estado a ter determinados comportamentos que os coloca em risco e a terceiros. Para muitos de nós, essa transição e o retorno à vida quotidiana podem começar a despertar sentimentos, pensamentos e preocupações diferentes. Se por um lado estamos desejosos de retomar um conjunto de actividades. Desde as mais simples mas tão importante como poder abraçar os nossos familiares e amigos. Até outras mais complexas do ponto de vista social, tal como ir a uma festa. Mas apesar desta ânsia, muitos de nós estão cientes das dificuldades e cuidados associados a todas elas. Até porque temos estado atentos a todo um conjunto de acontecimentos em pessoas que foram tendo menos cuidados no período inicial de desconfinamento e que ficaram contaminadas. Mas as pessoas com uma Perturbação do Espectro do Autismo levantam um conjunto de questões adicionais e que precisam de ser acauteladas. Até porque durante este período se verificavam algumas situações de regressão em alguns deles. Ou seja, um agravamento da sua situação, seja nos sintomas que voltaram a surgir ou no agravamento de alguns destes. E coo tal é fundamental começar a abordar este ressurgir com todos eles, desde os mais novos aos mais crescidos.


"- Estou realmente aterrorizada por ter de voltar a fazer algo em público novamente! Antes não saia muito. Tirando para ir trabalhar, os fins de semana passava-os maioritariamente em casa. Habituei-me a trabalhar em casa e sinto que alguma da minha ansiedade tem estado mais estável. Ter de voltar ao trabalho sabendo que corro o risco de ficar contaminada. Além de não saber como tenho de proceder com os meus colegas no almoço, intervalos e até mesmo na passagem de trabalho, deixa-me completamente ansiosa. E se alguém vier ter comigo no trabalho e não tiver uma máscara ou estiver mal colocada? Devo dizer-lhe alguma coisa? E se sim, como é que eu faço? Quando digo certas coisas às pessoas elas parecem não me entender ou então pensam que eu sou arrogante. E só de pensar que as pessoas no trabalho se podem vir a comportar como algumas que eu tenho visto na rua e no supermercado até fico com calafrios. E se não conseguir ir trabalhar e tiver de dizer ao meu chefe que preciso de ficar em casa, como é que eu lhe vou justificar isso? Passo os últimos dias a pensar em tudo isto e sinto-me esgotada. E ainda nem sequer comecei a sair de casa!", refere Júlia de 35 anos (nome fictício).


O termo transição refere-se ao processo ou a um período de mudança de uma situação para outra. Todos os dias fazemos muitas transições diferentes dentro de nossas rotinas e vidas. As transições podem ser grandes e pequenas. A grandes transições na vida podem-se referir à mudança da escola secundária para a universidade ou do desemprego para o emprego. As transições menores são momentos do dia em que passamos de uma actividade para outra (e.g., estar na cama para se levantar e se vestir, ou sair de casa para fazer compras).


"- Não ter de voltar a usar todas aquelas máscaras que sinto ter de usar com os meus colegas, chefias ou clientes, deixou-me muito confortável. Nos últimos meses sinto ser eu próprio. E isso tem-me feito sentir mais feliz, e muito menos ansioso e cansado. ter de me mascarar o dia inteiro esgota-me. E agora vou ter de voltar a fazer tudo aquilo de novo e sinto não querer. Tenho estado num dilema enorme e isso tem feito a minha ansiedade disparar. Sinto-me angustiado com isso, mas também me sinto triste por pensar que vou deixar de ser eu próprio!", menciona Carlos de 47 anos (nome fictício).


Algumas transições podem ser mais fáceis de gerir, mas outras também podem ser desconfortáveis ​​e perturbadoras. Durante a pandemia de Covid-19, as pessoas passaram um longo período do tempo em casa em isolamento, onde criaram e desenvolveram novas rotinas e uma nova estrutura para a sua vida quotidiana. Para muitos, foi sendo construída uma sensação de segurança e conforto nessas novas rotinas. Muito sentiram-se obrigados a fazer a transição e a se adaptarem a essas novas rotinas quando a Covid iniciou, e isso levou tempo, esforço para se acostumarem. No entanto, agora que o bloqueio e as restrições estão a diminuir, sentem-se solicitados mais uma vez a fazer a transição e a se adaptarem a uma nova rotina e estrutura pela qual as medidas de distanciamento social e saúde pública exigem que todos nós venhamos a interagir e a nos envolver de maneira diferente. Agora, estamos a iniciar outra transição, que pode ser desconfortável. Abrir a porta da frente e voltar à sociedade é uma preocupação genuína para muitos.


"- Só de ter de pensar que vou voltar a perder toda aquela paz e sossego. Já conseguia ouvir os pássaros. Os ruídos tinham diminuído drasticamente. E na semana passada quando finalmente sai à rua pela primeira vez após tanto tempo senti que as ruas estavam a começar a ficar novamente agitadas. Antes quando olhava da janela da varanda estavam vazias, um sonho.


Para poder apoiar e ajudar as pessoas autistas a se preparar para a transição e adaptação a novas rotinas, estruturas e práticas pós-pandemia, é preciso começar a pensar sobre que tipo de situação é que vamos transitar. Isso será diferente para todos e as circunstâncias de todos são diferentes. Algumas pessoas farão a transição e a adaptação de sua casa para a reintegração na sua comunidade, enquanto outras retornarão ao seu processo de formação (Escola ou Faculdade) ou ao trabalho. Pode ser útil fazer um exercício e apontar exactamente quais os ambientes ou rotinas que irão fazer parte da transição para a qual vamos. Será importante considerar quais os possíveis desafios mas também as oportunidades que isso pode representar para si. Assim como será fundamental pensar nas suas fraquezas mas também nas suas competências.


Por exemplo, podemos pensar primeiros nos potenciais desafios em voltar ao trabalho após ter estado em teletrabalho durante alguns meses: i) Gerir a deslocação e uso dos transportes públicos; ii) Necessidade de usar uma máscara facial; iii) acostumar-se a retornar ao ambiente de trabalho onde os aspectos sensoriais podem criar desafios (ou seja, ruídos, cheiros, pessoas etc.). Mas também é importante pensar nos potenciais benefícios em voltar ao trabalho: i) Níveis aumentados de produtividade; ii) Sentimento de uma rotina mais estruturada, etc.


Ao fazer este exercício, poderá identificar e desenvolver estratégias e soluções que possam ajudá-lo a fazer essa transição de volta ao trabalho. Você terá muitas soluções e estratégias que pode ter usado no passado. Será importante tentar implementá-las novamente. Lembre-se, se elas funcionaram no passado, será importante usá-las novamente. Para ajudar na mudança, também pode ser útil tentar definir pequenas metas diárias para você próprio e aumentar as etapas gradualmente. Por exemplo, muitas pessoas têm estado confinados nos últimos meses. Sair pela porta da frente e entrar na Sociedade será uma grande transição. No primeiro dia, decida caminhar até à porta da frente. No dia seguinte, defina a meta de caminhar até um pouco mais longe. No dia seguinte, defina a meta de caminhar até o final de uma estrada específica ou caminhar até à esquina mais próxima. Estabelecer essas metas e tentar alcançá-las irá ajudar de forma gradual a fazer esta e outras transições.

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