Homo autisticus vs. Homo ludens: Não culpes o jogador

Há muito que os há - jogadores e jogos. O seu inicio remonta à Antiguidade. Jogo vem do Latim ludus, ludere e designava movimentos rápidos; representação cénica, aos ritos de iniciação e aos jogos de azar. Hoje, jogadores e jogos são frequentemente falados e nem sempre pelas melhores razões. Adição, perturbação, viciados, são apenas algumas das designações.

O que os jogos e mais especificamente os videojogos poderão ter relação com as Perturbações do Espectro do Autismo (PEA)? Jogar, brincar é uma actividade pertença da humanidade, eis a razão! Mas não apenas. No caso das PEA parece haver um conjunto de outras razões que fazem com que a actividade de jogar videojogos tenha vindo a causar um conjunto variado de dificuldades às crianças, jovens, adultos e às suas famílias. Depois de ter sido publicado nos manuais de diagnóstico das perturbações mentais - DSM 5 e ICD 11 a designação de perturbação de adição aos videojogos pela internet muito tem sido debatido sobre o assunto.


Embora, actualmente, a acção de brincar seja considerada natural da criança e um dos seus principais direitos, ela parece ter se constituído em uma actividade própria da infância a partir do Concílio de Trento (1545-1563), conselho de bispos que tornou os jogos pecaminosos, banindo-os da sociedade. A obra de Huizinga, Homo Ludens, de 1943, mostrou que, antes de o homem se constituir na espécie homo faber, ele já brincava. Parece que este Concílio de Trento voltou a ser reactivado ainda que com outras designações vestidas de investigação cientifica. No entanto a ideia dos "jogos pecaminosos" parece manter-se. E com isso o jogador pecaminoso a quem deve ser aplicado uma espécie de pena.


É verdade que há inúmeras situações que nos são trazidas à intervenção clínica e associado ao comportamento de jogar videojogos pela internet que apresenta contornos muito complexos e com um impacto muito negativo. Desde o número excessivo de horas a jogar, 6, 8, 10, 12 horas por dia. Faltas à escola ou ao trabalho. Mentiras, desinteresse por outras actividades para além do jogo. Pensar muito frequentemente na mesma actividade de jogar. Até mesmo a comportamentos de agressividade verbal e/ou física quando é procurado por outros, normalmente os pais, a regulação do tempo ou do acesso aos videojogos.


No caso dos autistas, independentemente das suas idades ou género, já há um conjunto suficientemente grande de dificuldades. E esta questão dos videojogos pela internet, ou mais especificamente, o cruzamento das características de alguns videojogos com algumas das características do autismo cria a "tempestade perfeita". Os comportamentos repetitivos, que ocorrem com o jogar mas também com um conjunto variado de outras actividades. Os interesses restritos. Mas também o facto de quando estão a jogar se sentirem válidos e validados pelos pares. Conseguirem estar num ranking à frente de centenas ou milhares de outros jogadores. São situações que muitos deles sentem não conseguir em qualquer outra situação. E esta crença, de que apenas conseguem ser alguém ou serem respeitados online contribui em muito para a aproximação e a manutenção neste comportamento.


Sublinho que apesar de conseguir compreender o impacto que algumas destas situações trazem para a vida da pessoa e da família. Também chamo a atenção para a importância que o jogar tem para a vida desta pessoa e daquilo que podem ser as suas necessidades mais básicas a serem supridas. É importante regular o tempo ou o acesso às tecnologias. Da mesma forma que a outras actividades, ainda que estas outras possam conter riscos menores. É importante desde sempre. Desde que passa a fazer sentido ou é recomendado fornecer um ecrã com acesso à internet ou a jogos à criança. Poder jogar em conjunto com ela. poder partilhar a curiosidade e o procurar criar limites.



“A criança precisa de ter espaço para criar tempo. Tempo para Brincar, tempo que seja todo tempo inteiro. Para Sentir, Aprender, Pensar…nas coisas sérias da vida… no Brincar.” (João dos Santos, 2007)


n.e. texto escrito no seguimento dos meus contributos conjuntamente com o meu colega e coordenador João Faria no NICO - Núcleo de Intervenção nos Comportamentos Online.

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