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Há almoços grátis: Saiba como!

Usamos frequentemente a frase "Não há almoços grátis!"para nos referirmos à ideia de que é impossível conseguir algo sem dar nada em troca. É igualmente frequente dizemos o quanto a humanidade padece de compreensão, generosidade ou empatia. Se sentimos essa necessidade porque não mudamos as nossas acções diárias? Faz lembrar os queixumes sobre as condições climatéricas - se chove é porque não faz sol e o contrário também. E depois ainda há quem diga que os autistas não sentem empatia!

As pessoas com uma Perturbação do Espectro do Autismo (PEA) apresentam características mais comprometidas ao nível da interacção e comunicação social e que variam ao longo de um espectro. Para além de haver um igual compromisso em fazer e manter relações sociais e de amizade de forma satisfatória e adequada à etapa do desenvolvimento. Assim, é comum podermos verificar que as pessoas com um diagnóstico de PEA podem ter um número restrito de contactos sociais e/ou amizades. E nestas amizades é comum podermos verificar alguma maior dificuldade em poder cumprir algumas normas ou preceitos sociais como enviar um SMS no dia de anos ou telefonar para saber se algo correu bem. E quando perguntamos a esta mesma pessoa o porquê de não o ter feito podemos ouvir respostas como - "Não me lembrei" ou simplesmente "Esqueci-me". Mas também, "Estive com ele na escola e ele pareceu-me bem logo não vejo necessidade de lhe ter ligado!" ou "Como irei estar com ela na festa de aniversário no fim de semana depois logo lhe dou os parabéns!".


Respostas como estas e outras semelhantes foi criando a ideia de que as pessoas com um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo (PEA) parecem não ser empáticos ou até mesmo sentir este tipo de afectos. E há ainda quem refira que parecem ser anti-sociais, egoístas ou auto-centrados, e que não lhes interessa saber das outras pessoas. Mas se tivermos tempo para escutar a pessoa em questão e perguntarmos algo mais sobre a tal pessoa amiga que fez anos passamos a saber que a pessoa com diagnóstico de PEA se interessa e gosta da pessoa em questão considerando-a sua amiga. Contudo, parece encontrar alguma justificação mais prática e funcional para dar em relação à situação do SMS.


Nestas e noutras situações estamos a falar de empatia. E quando pensamos neste conceito também ocorre pensar no seu contrário. Não é por acaso que o psicólogo Simon Baron-Cohen, um especialista na área do autismo escreveu há alguns anos "Zero degredes of empathy". E antes disso escreveu outros dois livros sobre o assunto, "Mindblindness" e "The Essential Difference". Nos quais ele procurou apresentar a intrigante teoria de que o autismo é uma forma extrema do cérebro "masculino" menos alfabetizado emocionalmente. E que de uma forma rude e explicada apressadamente seria por isso que as pessoas com PEA apresentaram maior dificuldade no comportamento de empatia. Porque estariam menos apetrechados de determinadas ferramentas e competências para lidar com as questões afectivas, emocionais e relacionais.


Contudo, a questão da empatia no seu conceito e da sua aplicação nas Perturbações do Neurodesenvolvimento, nomeadamente no autismo, não é consensual. A palavra empatia está em uso há pouco mais de 100 anos - foi cunhada em 1909, numa tradução do neologismo de um psicólogo alemão cujo significado literal parece ser "sentir-se íntimo" -, mas o conceito é antigo. A capacidade de sentir o que os outros sentem, de regozijar-se ou de sofrer com eles, tem sido associada a aspectos mais elevados da consciência.


Não existe uma definição padrão e consensual de empatia usada na investigação. Uma definição de dicionário define-a como "a capacidade de entender e compartilhar os sentimentos de outra pessoa", com os sinónimos, incluindo "afinidade com, relacionamento com, simpatia com, compreensão de, sensibilidade em relação a, sensibilidade a, identificação com, conscientização, comunhão com, companheiro"; "sentimento de afinidade, união, proximidade com". No contexto dessa longa e variada lista de sinónimos, é fácil ver por que a capacidade de empatia é frequentemente vista como uma característica definidora de ser humano e por que a empatia é um conceito tão difícil de compreender e, consequentemente, avaliar.


Podemos definir mais claramente a empatia dividindo-a em diferentes componentes. Para sentir empatia, uma pessoa deve primeiro notar que outra pessoa está sentindo alguma coisa - isso requer atenção aos sinais externos dessa pessoa e de seu estado interno. Algumas pessoas autistas, especialmente crianças pequenas e com Dificuldade Intelectual e Desenvolvimental em simultâneo, podem ter menos probabilidade de detectar sinais emocionais de outras pessoas, pois sabemos que nas crianças pequenas e principalmente nas crianças pequenas com PEA há uma menor probabilidade dessa orientação para o Outro ocorrer. Sendo que esta mesma capacidade seja diferente em adultos com PEA. Outro factor que pode resultar na atenção social reduzida é o monotropismo, a teoria de que o autismo é definido por um sistema atencional de mente única, que prefere captar uma fonte de informação de cada vez. Na verdade tenho observado várias pessoas adultos com diagnóstico de PEA que me referem que quando estão a falar com alguém de um para um as coisas correm bem, mas quando se junta mais duas ou três pessoas a situação fica bastante mais difícil. E que muito frequentemente optam por sair da situação por já terem a consciência de que não irão conseguir dar a atenção necessária à situação. Até porque já tiveram alguns episódios no passado em que não conseguiram detectar determinadas pistas sociais e que levou a situações embaraçosas.


Uma segunda etapa do processo de empatia, depois de ter percebido o comportamento emocional de alguém, pensamos se estamos a interpretar corretamente esse comportamento. Essa pessoa está a chorar de felicidade ou tristeza? Esse riso está a sinalizar alegria ou é uma gargalhada sarcástica de frustração? Esse pode ser outro passo mais difícil para as pessoas com diagnóstico de PEA, especialmente se essa pessoa tiver problemas para identificar os seus próprios sentimentos ou se é esperado ela interpretar os sinais emocionais de alguém do grupo que não seja autista. Neste exemplo, são várias as situações em que pessoas com diagnóstico de PEA me referem o quanto as situações sociais e não só são uma infinitude de possibilidades. E de que carecem de um certo guião para conseguirem interpretar uma variedade tão grande de situações. Já para não falar da própria sensação de imersão e do próprio cansaço que deriva de poder sentir tudo isto, pensar e fazer coisas ao mesmo tempo. Aquilo que para uns parece ser inato, o mesmo parece não acontecer com todos.


Depois e tendo notado e interpretado corretamente os sinais emocionais de outra pessoa, é preciso sentir esses sentimentos - ter afinidade, ressoar ou espelhar - como essa pessoa se sente. Este é o passo ao qual frequentemente nos referimos quando falamos coloquialmente de empatia. É também o passo menos fácil de medir, potencialmente o mais importante e o único componente exclusivo da empatia (ou seja, não é compartilhado por outro outro processo sócio-cognitivo). É também o passo que - argumentamos - não é diferente no autismo.


Há uma etapa final em que uma pessoa autista pode ser incorretamente julgada como tendo falta de empatia, e isso é decidir e expressar uma resposta. As respostas aos sinais emocionais de outras pessoas são fortemente ditadas por normas e expectativas da sociedade, necessariamente definidas pela maioria não autista. Esse é outro lugar em que as pessoas autistas parecem superficialmente carecer de empatia, quando na verdade elas simplesmente não seguem o mesmo roteiro de resposta que uma pessoa neurotípica.


O primeiro requisito para entender a manifestação e a experiência da empatia no autismo é reconhecer os processos de atenção social, processamento emocional e comportamento normativo que cercam o fenómeno. Se não separarmos os sentimentos de empatia desses outros factores sociais e cognitivos, subestimaremos a empatia em pessoas autistas, enquanto também falharmos em desenvolver e testar uma teoria abrangente da empatia.


A empatia não é o único conceito que carece de uma compreensão mais aprofundada no campo do autismo. Contudo, o conceito de empatia e principalmente ligado a um outro - "Teoria da Mente" acaba por ficar demasiado apegado ao autismo. E neste caso especifico sublinhado o deficit de empatia nas pessoas com diagnóstico de PEA o que acaba por ter um impacto verdadeiramente negativo e inclusive pouco adequado do ponto de vista conceptual, teórico e empírico.


Nas pessoas com PEA há um conjunto de outras condições psiquiátricas associadas, tais como Depressão e em muitos casos Alexitimia ou Anedonia e Ansiedade que levam a uma maior dificuldade em todo este processo da empatia. Atendendo a que a PEA é uma condição do neurodesenvolvimento e que se manifesta desde sempre ao longo do desenvolvimento é expectável que todo o percurso desenvolvimental precoce e inicial da criança acabe por ficar comprometido até pela própria dinâmica das relações significativas que vão sendo procuradas de estabelecer. Não estou com isto a significar que é este último aspecto a causa destas características na PEA mas parece-me importante poder enquadrar esta competência ou dificuldade nela - ter, sentir ou expressar empatia na pessoa com diagnóstico de PEA, à luz das relações que vão sendo estabelecidas, seja na frequência mas também na qualidade das mesmas.

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