Há algum médico na sala? E autista?

Deixem-me acrescentar as legendas nas diferentes reações presentes na fotografia: (1) reacção à pergunta de se há algum médico na sala; (2) reacção à pergunta de se há algum autista na sala; (3) "Está a brincar comigo?", pergunta do médico; (4) "Pode voltar a fazer as perguntas do inicio, estou muito cansado?", pedido do médico; (5) "Eu hoje não devia ter vindo trabalhar!", desabafo do médico; (6) "Pode fazer menos barulho, eu tenho hipersensibilidade!", novo pedido do médico. Talvez possa não ter compreendido mesmo com as legendas. Tudo isto tem a ver com o facto de que nem todos os médicos autistas são como o The Good Doctor. Mas ainda assim são bons médicos!

A primeira vez que vi o Dr Shaun Murphy na televisão pensei, "Eu conheço alguns médicos, e conheço algumas pessoas autistas. E também conheço alguns médicos que são autistas. E há algumas coisas na série que não são tão bem assim!". Poderíamos pensar - É uma série televisiva, e depois? Mas a informação que está a ser passada na verdade leva a criar uma ideia que não representa a globalidade da realidade. E ainda assim poderíamos pensar - E depois? É ficção, não tem problema! Mas tem, na verdade tem.


Apesar do realizador da série The Good Doctor ter procurado inspirar-se nas características presentes numa Perturbação do Espectro do Autismo, nível 1 e com um perfil cognitivo e intelectual acima da média. O certo é que de todas essas e outras características presentes a realidade nos médicos autistas costuma ser um pouco mais exaustiva e complexa.


Desde as situações difíceis causadas por todo um conjunto de estímulos presentes no meio ambiente, luzes, muitas delas fortes, paredes brancas que aumentam o brilho, sons, muitos sons, pessoas a chamar, telemóvel a tocar, pacientes a fazerem perguntas, familiares de pacientes a fazerem perguntas, colegas a perguntar se quero ir almoçar com eles enquanto estou a procurar enviar uma mensagem no WhatsApp já em si tão difícil, turnos e mais turnos, cansaço acumulado, noites mal dormidas, vizinho do 2º Dto. a fazer obras em casa, a filha decidiu fazer um piercing às escondidas e as coisas não correram bem, saúde física do pai piorou no último mês, ainda ter de responder a 14 e-mails quando é a coisa que mais se odeia fazer, luzes, muitas delas fortes, sons, muitos sons, e penso que já me estou a repetir!


Provavelmente muitos sentiram-se cansados só de ler o parágrafo anterior. Agora imaginem a pessoa que teve de viver tudo aquilo e mais outras tantas coisas e continuar a ser um bom médico! Não parece ser assim tão glamour, pois não?

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