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Good é bom

Uma mentira contada mil vezes passa a ser verdade, ouvi desde bem cedo, e nem sempre pelas melhores razões, confesso! Mas o certo é que apesar do senso comum desta frase, são muitas as vezes em que se torna real, ou pelo menos perto disso. E passam a ser mais aqueles que acreditam.


Por exemplo, se eu vos disser que uma pessoa autista está demasiado feliz, o que é que vocês dirão? E se eu acrescentar que a pessoa autista é demasiado bem sucedida? Ou afirmar que está a ter uma vida boa? Então? O que é que vocês vão pensar?


Porventura, muitos de vocês irão pensar que apenas pode haver duas possibilidades para as afirmações anteriores. Uma primeira, é de que as mesmas estão erradas e que a pessoa autista não poderá estar a viver uma vida boa, ou ser feliz e bem sucedida. E a segunda, é de que a pessoa em questão não pode ser autista.


Estarei muito longe da verdade em relação às possíveis respostas? Talvez as mesmas possam depender do facto de quem está a responder ser igualmente uma pessoa autista ou não. Mas ainda assim, até me atrevo a dizer que mesmo algumas pessoas autistas poderão sentir o mesmo ou algo semelhante.


Mas esta questão assim colocada não me parece assim tão diferente do facto quando alguém diz que a pessoa não pode ser autista porque faz contacto ocular ou tem amigos. E que mais uma vez, ou a informação está errada ou a pessoa em questão não é autista.


Mas afinal, a pessoa autista não pode ser feliz? Ou ter uma boa vida?


É verdade que ao longo destes anos todos, várias perturbações psiquiátricas estão associadas a um nível de bem estar mais reduzido, e principalmente se estas pessoas com estas condições estiverem associadas a altos níveis de estigma ou então apresentarem um conjunto marcado e visível de características mais impactantes no seu funcionamento. E como tal, são várias as pessoas autistas que têm frequentemente argumentado que qualquer impedimento ao seu bem estar e funcionamento é melhor compreendido em termos de barreiras sociais, marginalização, estigma e exclusão. Não é por acaso que há quem afirme que uma das principais razões pelas quais as pessoas autistas atribuem o impedimento do seu bem estar são as barreiras relacionadas com a pertença, ao invés de simplesmente serem autistas.


No caso das pessoas autistas parecem existir duas formas primárias de injustiça que enfrentam: a injustiça epistémica e a injustiça hermenêutica. A injustiça epistémica é uma negação da inteligência, e impacta negativamente na capacidade de autorrepresentação. A injustiça hermenêutica prende-se com a ofuscação de testemunhos colectivos ou vozes da comunidade autista. Uma comunidade que sofre de injustiça hermenêutica está a ser intencionalmente escondida ou falada. Sendo que as pessoas autistas parecem em muito sofrer destas duas injustiças.


Além do mais, parece ser importante enquadrar o que é que se quer significar com uma vida boa. E não desatarmos a fazer comparações entre uns e outros. Afirmar, isto é o que a felicidade significa para mim. E dizer que as pessoas com autismo não experimentam tal coisa, e por isso não devem ser pessoas felizes, não captura adequadamente a capacidade ou felicidade de uma pessoas. Além de que as pessoas autistas devem ser encorajadas a interpretar as suas próprias experiências. E não estarem reféns daquilo que são as interpretações médicas ou psicológicas.


E para que tal possa não continuar a acontecer, parece fundamental que várias mudanças possam acontecer. Não somente haver uma maior presença do modelo social do autismo, ao invés de um predomínio do modelo biomédico. E principalmente, ajudar a desmontar o conceito de deficit e da forma como o mesmo é apresentado ao próprio, à família e posteriormente à Sociedade. Tal como referido anteriormente, é igualmente importante poder relativizar o conceito de uma vida boa e ser adaptado ao que as próprias pessoas autistas vêm como sendo uma vida boa. Fomentar desde sempre a auto-compreensão do autismo com o próprio e incentivar a auto-representação através de uma voz mais participativa na comunidade.


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