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Gelado de verão

"Foste a razão da viagem de umas férias pra fugir...". Fiquem tranquilo que não vou trautear a música do António Variações. Até porque ainda causaria um meltdown a algum de vocês. E é de meltdowns que vos gostaria de falar. Até porque o inicio das férias de verão que se avizinham para alguns é propicio ao desenvolvimento de alguns meltdowns. E há logo quem pergunte - Então mas se as pessoas vão ou estão de férias isso é razão para terem um meltdown?! E é com este mesmo espanto que muitas pessoas se questionam em relação aos meltdowns que observam nas pessoas autistas.


Não se sabe muito sobre o que sentem as pessoas autistas quando têm um colapso. Claro que as pessoas que vão passando por estas experiências vão relatando as suas vivências. Mas como se tem visto no espectro do autismo há uma variabilidade enorme também nesta área. Há pessoas autistas que referem estar sujeitos durante determinado conjunto de tempo a certos stressores e não reagem com um meltdown e ao fim de determinado tempo acabam por ter esta resposta. Outros sentem que é dependente do contexto ou daquilo que poderão estar a pensar e ou a sentir naquele momento. São múltiplas as possibilidades. E a sua intensidade e duração é igualmente variável.


Há trinta e seis anos que sinto diariamente esta sobrecarga dentro de mim! Deito-me a ouvir os eletrodomésticos e tudo o resto que passa na rua. E quando não é isso é o ruido dos meus próprios pensamentos. As manhãs nas casas das pessoas e nos prédios onde vivemos é ruidoso. E as salas de aulas nem vale a pena dizer nada. Ou os recreios. E os transportes públicos nem se fala. O ruido ambiental está sempre presente. Não consigo fugir por mais que tente. E as pessoas não compreendem e insistem em falar comigo mesmo quando eu me afasto e peço para não falarem comigo! E a dificuldade não fica apenas aqui. As relações com as pessoas. As relações com as pessoas que muitas vezes sinto que as tenho de ter forçosamente e contra a minha vontade. Até porque se não as tiver sou penalizado, na escola, no trabalho, na família, na sociedade, em todo o lado! E ainda mais no meu caso eu não sabia que era autista. Apenas o descobri há um ano e meio. Vivi trinta e quatro anos sem saber o que se passava. Apenas que algo se passava. E as pessoas a chamarem-me picuinhas, caprichoso, rabugento, mal educado, tudo. E tudo isso fazia com que eu me sentisse pior! Compreendes?!


Mas não confundam uma situação de meltdown como um capricho ou um dia mau. Ou de que a pessoa que está a vivenciar esta situação está a exagerar face ao sucedido. Ou de que estão a procurar deliberadamente atenção sobre a sua pessoa. Ou um ataque de pânico. Estas costumas ser ainda frequentemente as respostas de muitas pessoas não autistas à situação de meltdown das pessoas autistas


As pessoas autistas referem com frequência que os meltdown são uma sensação de sobrecarga sensorial. E esta é normalmente derivada de stressores: i) informativos, sensoriais, sociais ou emocionais, ii) experimentar emoções extremas, como a raiva, a tristeza e o medo, iii) perder a lógica, incluindo dificuldades de raciocínio e de memória, iv) lutar pelo autocontrolo, situações em que as pessoas dizem sentir-se desligados de si próprios, v) encontrar uma forma de libertar as emoções, frequentemente descrita como uma "explosão" de comportamentos externos ou de auto-mutilação, vi) e minimizar os danos sociais, emocionais ou físicos, evitando os factores desencadeantes ou isolando-se quando possível.


As situações de meltdown são frequentemente acompanhadas de alterações fisiológicas aumentadas, tais como o ritmo do batimento cardíaco, sudação, etc., mas também comportamentais motores, tais como agitação, irrequietude, e emocionais, tais como alterações bruscas de humor, ou dificuldade e até mesmo incapacidade de comunicar, com um sensação de total descontrolo e com uma necessidade imperativa de sair daquele lugar.


As experiências sensoriais nas pessoas autistas são frequentemente alteradas, sejam aumentadas (hipersensibilidade) ou diminuídas (hiposensibilidade). E no caso das hipersensibilidades é como se tivessem um amplificador dentro do seu sistema sensorial e que aumentasse acima do limiar as experiências normais do quotidiano, transformando-as quase sempre num pesadelo. E além das questões sensoriais, é frequente ouvirmos que as próprias experiências emocionais, desde as mais simples às mais complexas também podem ser sentidas de forma aumentada face a muitas outras pessoas. E podemos observar que uma situação de injustiça vivida por muitos de nós como algo desagradável possa ser sentido como capaz de levar uma pessoa autista a desencadear uma resposta de meltdown.


Estas situações de meltdown, além de intensas e desorganizadoras, causam um impacto severo na saúde física e psicológica da pessoa. E têm um impacto em todas as esferas da vida da pessoa autista, já sobejamente afectadas. É fundamental o diagnóstico precoce e ajudar a pessoa a se compreender nas suas mais variadas formas de ser, sentir e pensar. E nesse sentido ajudar a pessoa a se conhecer e antecipar com maior facilidade estas situações e de como poder fazer frente às mesmas de forma mais preventiva para que o ciclo nem sequer se inicie. Sendo que há situações em que isso é de todo impossível. E como tal será também importante ajudar todos os outros não autistas a compreender o que é o autismo e o que são também estas situações de meltdown e de como reagir.


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