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Fronteiras ténues

As fronteiras são mais do que uma mera divisão. Também podem ser uma unificação de pontos diversos. No seu conjunto determina uma área territorial precisa e podem ser de uma natureza variada. Independentemente desta natureza, as fronteiras representam autonomia e soberania desse determinado território perante outro. Isso é assim para as terras, mas também para aquilo que é dividido pela pele - o mundo interno, psíquico, e o mundo externo. Mas quantas vezes é que não temos a sensação de que aquela determinada fronteira parece não cumprir na totalidade as suas funções? Por exemplo, quantas vezes temos a sensação quando estamos numa zona raiana e sentimos que as diferenças entre terras Portuguesas e Espanholas parece não existir para além da delimitação imposta pela fronteira? Porventura, a proximidade temporal e as próprias dinâmicas culturais entre um lado e outro da fronteira foram diluindo a identidade de uns e outros criando algo diferente! Essa diluição e sobreposição de determinadas características que vão tornando a fronteira cada vez mais difícil de delimitar também acontece no comportamento humano. Por exemplo, na Perturbação do Espectro do Autismo é um território em que estas sobreposições ocorrem com determinada frequência. Por exemplo, o facto de sabermos da existência de inúmeras outras perturbações psiquiátricas que co-ocorrem em simultâneo com o autismo é um bom exemplo disso. Até porque muitas destas condições partilham um conjunto de áreas neuronais semelhantes e isso leva a que seja mais desafiante para realizar uma leitura compreensiva do comportamento observado. Isto acontece em situações em que as carcacterísticas comportamentais do Espectro do Autismo possam não estar demasiado perceptíveis na observação. Por exemplo, são várias as situações em que se pode confundir determinadas respostas como sendo Défice de Atenção, sendo que aquilo que melhor ajuda a explicar o sucedido são características do Espectro do Autismo, nomeadamente uma maior dificuldade em conseguir inibir pensamentos relacionados com os seus interesses restritos. Ou também pode acontecer em que determinados comportamentos possam ser lidos como pertencentes à Perturbação de Oposição e Desafio quando na verdade podem ser melhor enquadrados na rigidez e inflexibilidade comportamental e cognitiva presente no Espectro do Autismo. Mas também determinados comportamentos ritualizados que podem ser compreendidos como pertencentes a uma Perturbação Obsessivo-Compulsiva e que na realidade são comportamentos repetitivos e ritualizados presentes frequentemente no Espectro do Autismo. Como se pode ver de alguns destes exemplos, são várias as situações em que podem existir enviesamentos na leitura compreensiva daquilo que são alguns dos comportamentos observados numa pessoa autista. E os exemplos não terminam aqui. Até porque quando caminhamos para a vida adulta e principalmente nas pessoas adultas que nunca foram diagnosticadas com Perturbação do Espectro do Autismo, a dificuldade em conseguir destrinçar alguns dos comportamentos ainda se torna mais desafiante. Por exemplo, é frequente a pessoa adulta poder ser diagnosticada com Esquizofrenia quando na verdade apresenta uma Perturbação do Espectro do Autismo. E no caso das mulheres estes enviesamentos e dificuldades parecem estar ainda mais presentes. Como é o caso da fronteira ténue entre a Perturbação Borderline da Personalidade e a Perturbação do Espectro do Autismo.


Em criança ouvia muito frequentemente a minha avó e mãe a dizerem que passavam os dias a lutar, refere Rute (nome fictício). Na altura não percebia. Ficava assustada. Perguntava à minha avó com quem é que ela tinha estado a lutar! E ela respondia-me sempre da mesma maneira - com a vida, filha, com a vida! A minha mãe era mais de se queixar. Dizia-me que lutava com o meu pai, com as pessoas no trabalho, com todos! Confesso que fiquei a sentir desde cedo que o mundo parecia ser um palco de luta. Como aquele que o meu irmão passava horas a ver na televisão. No primeiro dia que fui à Escola penso que senti aquilo que a minha avó e a mãe tanto diziam, desabafa. E quando cheguei a casa ao fim desse primeiro dia disse-lhes - Hoje passei o dia a lutar! E a partir dali parece que nunca mais parou, refere. Passei a lutar para socializar, fazer amigos e partilho demasiadas informações que os meus conhecidos não precisam de saber sobre mim. No entanto, quando faço amigos, a luta não para por aí. O meu autismo faz com que os meus sentidos fiquem mais aguçados e então o menor ruído ou olhar é detectado imediatamente. Se alguém me olha de uma certa maneira, isso desencadeia uma onda de emoções - "Eles odeiam-me, o que é que eu fiz de errado?" Essas emoções e pensamentos intensificam-se e eu começo a catastrofizar. Pensar as coisas a preto e branco não ajuda! Alguém é bom ou mau. Ou me amam ou me desprezam. Isso tornou amizades e relacionamentos quase impossíveis. Num determinado momento posso oscilar entre uma sensação de estar no topo do mundo e no segundo a seguir sinto-me completamente afundada. Não sinto nada. E perco todo o amor por meu parceiro. Não sinto nada pelos meus amigos. Estou completa e totalmente entorpecida de emoções e sentimentos. Estou ciente de que meus sentimentos e emoções vão voltar, mas até então, sou uma casca vazia de nada, finaliza.


Uma das principais razões que leva a esta dificuldade entre ambas as condições, é de que as pessoas com Perturbação Borderline da Personalidade e Perturbação do Espectro do Autismo vivenciam as interações sociais, emocionais e relacionais como desafiadoras. Claro que não é apenas isto. Até porque se o fosse haveria certamente muitos outros enviesamentos possíveis visto que são muitas as pessoas que afectadas ao nível da sua saúde mental que vivenciam as interacções social, emocionas e relacionais como desafiadoras. O certo é que as dificuldades relacionadas com os campos social e relacional são carcaterísticas encontradas nas pessoas com ambas as condições. E alguns estudos têm demonstrado que pessoas autistas adultas apresentam critérios de pelo menos uma Perturbação da Personalidade. Sendo que no caso das mulheres autistas adultas a maior prevalência incide precisamente na Perturbação Borderline da Personalidade. Quando falamos em Perturbação do Espectro do Autismo é frequente usarmos conceitos relacionados com os componentes cognitivos e afectivos da empatia e da mentalização, e ainda continua a haver alguma falta de consenso sobre os mesmos. Até porque alguns continuam a entender a Teoria da Mente como alternando entre presença ou ausência desta competência com o consequente funcionamento afectivo ou não dos processos mentais ligados à atribuição de estados mentais. Enquanto outros consideram isso como parte de uma actividade mental mais ampla, ou seja, aquilo que muitos designam de metacognição. Em que esta incluiria além da Teoria da Mente, competências de mentalização mais complexas. Sendo a mentalização definida como uma compreensão explícita e implícita dos actos das outras pessoas􏰁 motivados por processos mentais internos, como crenças, desejos e medos. A mentalização é considerada como uma competência, provavelmente evolutiva, imposta para lidar com a complexidade social nos grupos. E há razões para acreditar que há um terreno comum nas dificuldades nas competências de mentalização nas Perturbações da Personalidade, nomeadamente na Borderline, mas também na Perturbação do Espectro do Autismo. A falha na mentalização devido à Perturbação Borderline da Personalidade é considerada parcial, muitas vezes num contexto interpessoal e quando o clima emocional é subjectivamente experimentado aumentado. Enquanto que na Perturbação do Espectro do Autismismo, a mentalização é considerada um dos muitos mecanismos possíveis que explicam as dificuldades de relacionamento com outras pessoas. E se pensarmos em outros aspectos importantes derivado destes processos, como por exemplo a desregulação emocional. Percebemos que esta é frequente de encontrar em ambas as condições. Ao nível da empatia são várias as pessoas que a olham como um constructo composto por dois componentes, um cognitivo e um afectivo. A empatia afectiva envolve a experiência dos sentimentos e emoções dos outros por meio de reconhecimento, sensibilidade às emoções dos outros e partilha das experiências emocionais dos outros por meio de uma resposta afectiva adequada à situação do outro. Enquanto que a empatia cognitiva envolve o processo de compreensão da perspectiva de outra pessoa adoptando o ponto de vista da outra pessoa. Além de incluir a capacidade de julgar e compreender as intenções dos outros, a fim de monitorar as suas próprias intenções. Sendo que a capacidade de adoptar o ponto de vista da outra pessoa é consistente com o conceito de teoria da mente. Além de se compreender que as pessoas com Perturbação Borderline da Personalidade apresentam dificuldades em identificar, distinguir e integrar as suas emoções com aquelas presentes nas outras pessoas com quem estão a interagir. E muitos poderão dizer - Mas isso também é algo que ocorre na Perturbação do Espectro do Autismo!! E é verdade, é algo que ocorre com frequência no Espectro do Autismo. Um aspecto que é usado para procurar delimitar estas duas condições costuma ser o factor idade de inicio das dificuldades. No caso de ser encontrada evidência desde a infância e ao longo do desenvolvimento podemos mais frequentemente suspeitar numa Perturbação do Espectro do Autismo. Até porque na DSM é referido que uma Perturbação Borderline da Personalidade se inicia a partir do fim da adolescência ou inicio da vida adulta. Mas este indicador parece não chegar. E principalmente no caso das raparigas e das mulheres parece mesmo não chegar. Até porque no Espectro do Autismo é frequente acontecer que muitas das suas características comportamentais não sejam enquadradas nesta condição. E como tal, verificamos na prática clinica que muitas mulheres avaliadas na vida adulta na verdade apresentam características compatíveis com uma Perturbação do Espectro do Autismo. Para além de todas estas questões fundamentais e com um impacto prático na vida das pessoas afectadas há também os aspectos conceptuais em relação à compreensão do Espectro do Autismo. E principalmente em situações consideradas subclinicas em que se verifica um maior nível de funcionalidade e algumas das características encontradas apresentam níveis mais subtis de apresentação.


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