Falar para a mão

"- Não sei o que quero fazer!", "- Não sei o que quero ser na vida!", "- Qual o curso que devo escolher?", "- Estou desesperado!", "- Vejo que os outros parecem saber o que fazer!", (...). Estas e outras frases são repetidas de forma angustiante por muitos jovens, principalmente a partir dos 15 anos de idade em que lhes é pedido para fazer a escolha de uma área. E de forma mais marcada três anos depois quando escolhem ir para o Ensino Superior e têm de escolher um curso. Se esta questão é muito frequente de encontrar em inúmeros jovens com diferentes características. É ainda mais frequente nos jovens com uma Perturbação do Espectro do Autismo. "- Eu não sei o que quero fazer ou ser na vida!",

"-Não faço ideia do que sequer possa gostar ou vir a gostar no futuro!", "- Eu nem sei muito bem o que é isso de gostar de algo!". E algumas destas frases terminam num pedido de ajuda materializado na seguinte frase - "Como é que eu descubro qual a minha vocação?". E é aqui que muitas vezes a viagem começa.

Eu não vou falar de orientação vocacional ou profissional. Até porque há outros e muito bons profissionais que o fazem no seu quotidiano e que os conheço. Mas irei procurar falar daquilo que é a vocação e de como poder ajudar a que um jovem com Perturbação do Espectro do Autismo possa procurar a sua vocação. E com isso procurar reflectir em conjunto com aquilo que são alguns dos instrumentos usados para avaliar a vocação profissional em adultos com Perturbação do Espectro do Autismo.


Quando pensei nesta questão da orientação profissional procurei olhar para dentro de mim e sentir e pensar em como eu próprio fui descobrindo o que eu queria ser ao longo do caminho e de como isso foi influenciando as minhas escolhas.


Aristoteles diz, “Onde os teus talentos e as necessidades do mundo se cruzam; é ai mesmo que reside a tua vocação”. Apesar de reconhecer o mérito da frase a questão em muitos destes jovens passa por eles mesmos compreenderem e sentirem o que são os seus talentos. E num passo seguinte conseguirem compreender o que podem ser as necessidades do mundo. Sendo que talvez antes disto possam ter de compreender, sentir e saber reconhecer quais são as suas próprias necessidades.


Para jovens adultos com um desenvolvimento típico, garantir um emprego a tempo inteiro é um dos marcadores de uma transição bem-sucedida para a vida adulta. Ainda que a afirmação não seja consensual e verdade em todo o lugar. Até porque há países que promovem mais do que o nosso o trabalho em part-time. O emprego contribui não apenas para a independência financeira, mas também a saúde psicológica, proporcionando uma ligação diária, conexão social e auto-estima. Infelizmente, obter e manter o emprego é frequentemente um desafio para indivíduos com Perturbação do Espectro do Autismo (PEA), independentemente do seu perfil cognitivo.


Fazer a transição de um jovem com PEA do papel de estudante do ensino secundário para o emprego empregado envolve coordenação através de vários sistemas, incluindo escolas, agências de prestação de serviços agências e empregadores. Sendo que as escolas secundárias e as profissionais desempenham um papel crucial nesse processo.

A transição da adolescência para a idade adulta demonstrou ser um período de risco amplificado para as pessoas com PEA. Não se sabe, no entanto, se os problemas de escolaridade e emprego nos anos após o término do ensino secundário representam "perturbações momentâneas" no desenvolvimento ou um "ponto de viragem" com efeitos duradouros ao longo da vida adulta. Mas o certo é que as pessoas autistas estão sub-representados no emprego e na educação pós-secundária. E a própria investigação neste campo é dificultada pela falta de instrumentos psicometricamente válidos que possam ser usados para avaliar as actividades vocacionais das pessoas autistas.


Mas antes de pensar sobre esta questão da avaliação das actividades vocacionais e profissionais penso que é importante pensar em como pode surgir a vocação. Até porque como Thomas Moore nos diz, “We like to think that we have chosen our work, but it could be more accurate to say that our work has found us.”.


Esta questão da avaliação é fundamental ser reflectida, não apenas para que a mesma possa produzir informação importante que ajuda a tomar uma melhor decisão. Mas porque a avaliação destes parâmetros nas pessoas e em variáveis que estão elas próprias em constante transformação é complexo. As organizações tendem a medir a qualidade do trabalho em relação a critérios ou padrões claros. Esses critérios são adequados para serem aplicados a produtos que devem estar em conformidade com os padrões de perfeição técnica. Mas para o serviço prestado entre seres humanos, esses critérios não são satisfatórios. A experiência de qualidade dos clientes tem a ver com a individualidade de um colaborador que gosta de seu trabalho e está disposto a fazer o que a situação específica exige, mesmo que isso signifique fazer algo extra. Por exemplo, uma emprega de mesa que está realmente interessada em como gostamos da comida, um professor que ensina um aluno a garantir que ele possa fazer um exame apesar de uma doença ou um médico que dedica algum tempo para explicar as implicações de um tratamento. Nesses momentos, a competência profissional e um talento único convergem. Competência, força de vontade e uma profissão escolhida andam de mãos dadas com a designada vocação de alguém.


Mas falar em se ter uma vocação costuma ser desconfortável. Demasiado ambíguo dirão alguns. Preferimos falar sobre a nossa profissão. Preferimos escolher nossa própria direção na vida. Portanto, é preciso coragem para usar a palavra vocação no quadro do nosso trabalho diário. A linguagem e os símbolos tradicionais podem ficar no nosso caminho, por exemplo, se associarmos a vocação à vida religiosa ('ter vocação para ser freira'). Nesta perspectiva, a vocação é algo externo que outra pessoa determina para nós. Isso significa que somos compelidos a nos tornar algo que não somos (ainda) e que fomos escolhidos para uma determinada tarefa?


Eu prefiro olhar a vocação de forma diferente. Para mim, trabalhar com uma vocação significa fazer um trabalho que se adapte ao seu caráter, personalidade e qualidades únicas. Colocamos qualidade no trabalho se a nossa individualidade singular estiver a par das nossas competências e ambições. Isso é possível dentro de uma organização? Este ensaio fornece directrizes para encontrar um equilíbrio entre a vocação, aquela que se deseja encontrar nas pessoas, e a profissão, a competência para actuar adequadamente em situações profissionais. Se conseguirmos encontrar esse equilíbrio, a qualidade é um resultado óbvio e natural.


"- Mas como é que nos encontramos essa vocação?" Continuava o jovem a perguntar-me. Ao que lhe respondi. Provavelmente a criança que em criança costumava brincar às cozinhas e cozinheiros sozinha e que mais tarde passou a fazer isso em conjunto com amigos. Poderá ter tido maior possibilidade de se poder aproximar dos pais em casa no momento da confecção da comida e pedir para poder participar ou ser envolvida pelos pais ao sentirem a sua alegria na actividade. E mais tardiamente quando passou a ser necessário confeccionar a sua própria comida e para alguns dos seus amigos tenha começado a investir um pouco mais na qualidade. E talvez tudo isso junto com mais algumas outras variáveis possa ter levado ao momento em que quando a pessoa se questionou sobre o que haveria de escolher enquanto profissão não tenha tido grandes dúvidas em relação à resposta. Para além de outras pessoas significativas, como os pais e os próprios amigos terem validado a escolha do jovem para concorrer a uma escola de hotelaria. Ainda que esta situação possa ter sido colocada de uma forma simples ela não o é. Mas espelha como é que o próprio pode conseguir sentir qual a sua vocação.


E o mesmo exemplo pode ser pensado para aquilo que são as infinitas profissões existentes nos dias de hoje. Desde quem brincou aos médicos e enfermeiros, mecânicos e astronautas, condutores de comboios e aviões, policias, professores, etc. O brincar aqui aparece como algo fundamental. Este brincar que vem desde muito cedo no desenvolvimento permite-nos experimentar os papeis sociais que vamos desempenhar ao longo do nosso desenvolvimento. E as diferentes profissões igualmente. E tal como muitas coisas na vida, também o brincar se vai tornando numa coisa cada vez mais séria. E começa a ter um enquadramento naquilo que é fornecido enquanto conteúdos na escola, mas também na própria manifestação da cultura, política e do ambiente social. E tal como a partir de determinado momento na nossa vida vamos arrumando os legos e as pistas de carros eléctricos para ter espaço para outras brincadeiras. Também algumas profissões passam a nos fazer mais ou menos sentido.


Mas ao longo do texto e dos diferentes exemplos que fui dando fui igualmente reflectindo que muitos dos meus clientes com Perturbação do Espectro do Autismo tiveram percursos diferentes. E alguns dos que foram tendo a possibilidade de brincarem nem sempre tiveram a possibilidade de experimentar diversas brincadeiras. Até porque os seus interesses restritos "ditaram" que não haveriam de querer experimentar brincar a outras coisas. Ou também de brincarem com outros. Porque lhes era mais difícil brincarem com os outros por várias ordens de razão ligadas com a sua condição mas também como os outros pareciam não compreender a sua forma de brincar. Mas apesar de tudo é possível encontrar muitos exemplos de interesses, sejam restritos ou não e que foram causando alguma sensação de bem estar em o realizar. Mas isso também precisa de ser explorado em conjunto com a pessoa, sejamos pais, professores ou técnicos que trabalhos com as pessoas autistas.


É fundamental dar a todos, autistas ou não a oportunidade de se conhecerem, seja num momento preciso mas também ao longo do seu próprio desenvolvimento e das experiências que vão tendo. Compreendo que quando se seja autistas e devido a muitas das dificuldades que são sentidas, seja pelo próprio mas também pelos pais e outros, que se concentre muito tempo nas terapias e na mudança comportamental. É importante a intervenção. Mas é importante a pessoa conhecer-se e viver-se.

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