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Eu, só!

«Quando estou só reconheço que existo entre outros que são como eu sós.»

Fernando Pessoa


Estamos cada vez mais sós! ouvimos. A Sociedade está cada vez mais individualista! escutamos. Ainda que a solidão e o ser individualista sejam conceitos diferentes. E não é por acaso que quando falamos sobre a solidão, vários conceitos possam estar presentes e por vezes baralhados.


A solidão aparece-nos com inúmeras formas, umas vezes como sintoma, outras como um sentimento que deve ser aplacado na sua relação directa com a Sociedade. Sentimos que estar em Sociedade não é o contrário de solidão e vice-versa. Até porque na maioria das vezes estamos ao mesmo tempo sós e juntos.


Mas quando falamos do autismo e das pessoas autistas a conversa parece ser outra. Muito frequentemente ouvimos em relação ao autismo, e até justificado por algumas das características de diagnóstico que as pessoas autistas estão e desejam estar maioritariamente sós. As pessoas autistas não têm amigos! ouvimos. Ou, As pessoas autistas normalmente não querem estar com as pessoas! escutamos. E que não se pense que estas ou outras frases são apenas ouvidas vindo das pessoas não autistas. Muitas pessoas autistas também as referem e justificam inclusive que vivem melhor sozinhas do que em Sociedade. E quem se atreve a contestar isso, quando olha para os critérios de diagnóstico da Perturbação do Espectro do Autismo (PEA), e pelas múltiplas referências aos grupos restritos de amigos, dificuldades em fazer e/ou manter relações de amizades, e adicionalmente uma parte da comunidade autista a referir que se sente melhor só?


Contudo, a solidão afecta negativamente a saúde física e mental, tanto em pessoas não autistas como em pessoas autistas. No entanto, as taxas de solidão são até quatro vezes mais elevadas nas pessoas autistas do que nos não autistas, e as pessoas autistas têm uma maior vulnerabilidade às consequências físicas e psicológicas negativas da solidão. Mas ao mesmo tempo, persistem os estereótipos de que as pessoas autistas, ao contrário das pessoas não autistas, não têm motivação para procurar relações sociais significativas.


Em crianças e adultos autistas, a solidão está correlacionada com o aumento da depressão e da ansiedade, e está associada a um aumento dos pensamentos e comportamentos suicidas e a um maior risco de auto-mutilação. Embora a relação entre a solidão e a saúde mental tenha vindo a ser mais evidenciada na última década, persiste o estereótipo de que as pessoas autistas não têm interesse em interacções sociais significativas. De facto, uma teoria afirma que um défice de motivação para se envolver no mundo social é a causa dos deficits na comunicação e do interesse comprometido no envolvimento social.


Esta teoria, denominada hipótese do défice de motivação social, está em grande parte em desacordo com os relatos da comunidade autista de um desejo de melhorar a ligação social, e é criticada com base nisso. Uma discrepância na compreensão mútua entre pessoas autistas e não autistas, em vez de um défice autista na motivação social, oferece um quadro mais válido para avaliar as dificuldades de comunicação e os sentimentos de solidão associados. Um exemplo notável deste abandono é a falta de consideração pelas diferenças sensoriais. Muitas pessoas autistas evitam envolver-se em espaços sociais onde poderiam ser construídas interacções significativas, uma vez que o perfil sensorial destes locais não prevê a neuro-inclusão. As diferenças sensoriais representam um desafio para as pessoas autistas quando procuram uma interação significativa com os outros. A natureza sensorial frequentemente desgastante das situações sociais pode contribuir para o aumento do isolamento e, assim, exacerbar os sentimentos de depressão e ansiedade. Por exemplo, os sentimentos de solidão, em jovens adultos autistas, parecem mediar o grau em que o evitamento sensorial prevê os níveis de ansiedade. Por outras palavras, a solidão parece explicar porque é que os sentimentos de ansiedade pareciam aumentar pela necessidade de evitar experiências sensoriais angustiantes, destacando uma importante contribuição da resposta comportamental ao input sensorial para os efeitos negativos da solidão na saúde mental.


E além disso, a compreensão da solidão tem-se confundido com aspectos da socialização, diagnóstico, experiências sensoriais, etc. É quase como se o estudo da solidão nas pessoas autistas e não autistas diferisse. E no caso das pessoas autistas, a solidão fosse somente olhada como uma consequência das suas características e perfil de funcionamento decorrente do diagnóstico. E não pudesse ser olhada como uma escolha da pessoa ou um sentimento em determinado momento da vida. Por exemplo, Eu estou sozinho várias vezes e gosto de estar com a minha pessoa, e sinto que estou só, mas não estou sozinho! Precisamos de pensar que a solidão acontece quando as ligações sociais que as pessoas desejam não correspondem à sua experiência real de relacionamento com os outros. Trata-se de uma reação emocional e, como tal, é importante que nos baseemos mais nos conhecimentos da psicologia do que é atualmente o caso. Eu sinto que não consigo falar sobre as minhas experiências de vida com a maioria das pessoas. até porque eles não as iriam compreender ou se interessar. E isso faz-me sentir, tal como o ditado diz, sozinho numa sala cheia de gente. E eu estou farto disso. Gostaria de falar com pessoas tolerantes, carinhosas e compreensivas face ao meu autismo!


O conceito de solidão refere-se tipicamente à ausência real ou percepcionada de uma ligação social significativa. No entanto, a dimensão da rede social de uma pessoa não determina de forma fiável a satisfação com as relações sociais, e estar sozinho (solidão) não induz necessariamente angústia por estar só. Desta forma, a solidão emocional (a falta de perceção de uma ligação social significativa) é diferente da solidão social (i.e., isolamento social). Embora a solidão social preceda ou precipite frequentemente a solidão emocional, esta última está associada a um aumento da morbilidade e da mortalidade.


Toda esta conceptualização, diria enviesada, sobre a solidão na pessoa autista, tem levado à utilização e criação de instrumentos de recolha de dados que tem corroborado estas ideias de base sobre o conceito. E até mesmo os estudos qualitativas parecem aproximar-se desta mesma ideia de que a solidão é uma características inerente à pessoa autista. E como tal, investigadores e clínicos, mas também as próprias pessoas, não autistas e autistas, continuam a perpetuar essa mesma ideia. E ficamos cada vez mais afastados da experiência fenomenológica da experiência de solidão da pessoa autistas.


Frequentemente, depois de passar muito tempo com as pessoas, sinto-me esgotada e preciso de um tempo só para mim, diz Sara (nome fictício). Eu não sou uma pessoa solitária, mas necessito de bastante tempo para mim própria. Na maior parte do tempo para recuperar física e mentalmente! continua.


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