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Estás sempre a pensar no mesmo!!

Não me chames isso, gritou Mariana (nome fictício). Eu não sou nenhuma puta, continuou! A mãe da Mariana descrevia alguns dos episódios da sua filha que ocorreram ao longo dos anos e em vários contextos. Naquele momento especifico estava a relatar o episódio ocorrido no 9º ano quando toda a escola que a filha frequentava a passou a chamar de puta. Mariana tinha mudado de escola para aquela onde foi estudar no 9º ano. Tinha saído da escola anterior por alguns acontecimentos semelhantes. Não conseguia não deixar de enviar determinadas mensagens com conteúdos eróticos e sexuais a alguns dos seus colegas. A situação acabou por tomar contornos mais complicados quando um grupo de pais insistiu em levar a situação em diante e apresentar uma queixa na PSP. A situação acabou por não chegar a tribunal porque a mãe da Mariana disse que iam sair da escola. No 9º ano houve uma colega a quem a Mariana confessou o facto de se masturbar com frequência. Sendo que esta frequência estava bastante acima daquilo que poderia ser considerado normativo. A colega acabou por colocar a informação nas redes sociais e no dia seguinte a escola inteira passou a saber. Houve até alguém que graffitou na parede do pavilhão - "És uma puta Mariana", disse a mãe. Sendo que foi neste momento que a Mariana intervir gritando para não a chamarem disso, já lavada em lágrimas. Mariana é agora uma mulher de 27 anos, e vive com a mãe. Durante a sua infância levaram-a a vários especialistas devido às suas questões motoras e dificuldades relativamente à novidade. Tudo o que era novo constituia uma angustia e principalmente uma grande ansiedade para Mariana. Fosse um alimento, um sitio diferente, e ainda mais uma pessoa. Os inúmeros exames realizados na altura nunca evidenciaram nada. Depois de duas tentativas fracassadas em terminar o ensino secundário e muitas queixas em relação à sua orientação espacial, assim como a escassa relação com os seus colegas, foi realizado nova avaliação. Fez um despiste genético cuja patogenicidade se mostrou incerta. A avaliação neuropsicológica excluiu um deficit cognitivo, mas evidenciou dificuldades nas funções executivas e na teoria da mente. Foi diagnosticada com Perturbação do Espectro do Autismo aos 23 anos. Atendendo às suas dificuldades no ensino secundário foi encaminhada para o ensino profissional. Já em criança, mas principalmente na adolescência, Mariana tinha bastantes preocupações em relação à sexualidade. E foram várias as vezes em que consultou chats eróticos ou fóruns sobre o tema. Já mais tarde no início da vida adulta, inscrevia-se em várias plataformas e apps de encontros online. Foi sensivelmente nesta altura que a sua mãe tomou conhecimento e consciência acerca deste comportamento sexual compulsivo da filha. Não que muitos dos comportamentos da Mariana não fossem evidentes, mas a sua mãe estava bastante tempo ausente por questões profissionais, sendo que Mariana nunca tinha conhecido o pai, atendendo a que eles se tinham divorciado tinha ela quase dois anos de idade. Além do mais a sua mãe apresentava um diagnóstico de PHDA, facto que comprometia algumas das suas competências parentais em determinado momento do desenvolvimento da Mariana. Mariana teve vários namoros e parceiros sexuais e precocemente. Na altura em que a mãe tomou conhecimento da situação, Mariana estava inclusive disposta a ser filmada a fazer sexo para vender o filme para um canal online de conteúdos pornográficos. Assim que a mãe tomou conhecimento da gravidade da situação, confiscou o acesso à internet. Atendendo ao comportamento sexual compulsivo e a dificuldade em regular o seu comportamento, a mãe de Mariana levou-a para ser avaliada face a esta situação. Algumas das queixas da Mariana na altura incluíam medo de sair de casa por causa do que ela poderia fazer, fosse conhecer novos parceiros através dos aplicados móveis, e principalmente ter dificuldade em conseguir distinguir entre homens com boas ou más intenções. Além do mais, Mariana na altura confessou que duvidava consideravelmente da sua capacidade de compreender as relações sociais.


Há temas mais complexos, mas também causadores de maior constrangimento de serem abordados, mesmo quando estamos a falar do Espectro do Autismo. As questões em torno da sexualidade é um deles. E o caso da hipersexualidade é um deles. Este é tido como um padrão persistente de comportamentos no qual as pessoas apresentam uma perda de controlo sobre os seus impulsos, fantasias e comportamentos sexuais, causando sofrimento e consequências para si e/ou para os outros. Por exemplo, são várias as situações, dentro ou fora do Espectro do Autismo, em que alguns pais reportam a ocorrência de comportamentos masturbatórios com relativa frequência, inclusive em contextos onde não seriam esperados e sem os devidos cuidados de descrição. O fenómeno da hipersexualidade é controverso, nomeadamente porque são vários os profissionais que afirmam que esta situação provém de diferentes etiologias como a adição, dependência ou compulsividade sexual. A controvérsia não se fica aqui, porque quando procuraram propor o diagnóstico de Perturbação Hipersexual para a DSM 5, foi demonstrado alguma preocupação de se acrescentarem novos diagnósticos que patologizassem comportamentos normativos. A situação na DSM acabou por não seguir em frente, mas o mesmo não sucedeu na ICD 11, em que foi incluido a existência de uma perturbação do comportamento sexual compulsivo.


Muito na vida da Mariana acontecia desta forma compulsiva e ritualizada. A sua presença no mundo online e desde criança foi uma dessas situações. O seu comportamento de jogo online desde cedo que demonstrou algumas preocupações crescentes. Quando tomou conhecimento do sexting rapidamente se tornou dependente. E ainda hoje é uma prática recorrente, ainda que com um circulo de pessoas mais reduzido. Além de tudo isso, a lista de obsessões da Mariana parece não terminar. Assim como o seu enorme sofrimento, expresso em muitas das suas frases. Não é que eu não gosto de ter sexo, porque gosto. Mas sei que estes meus comportamentos não são normais e não deviam acontecer, ainda que eu não sinta ser capaz de os travar!, refere numa das vezes.


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