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Estás contratada!

Quem se lembra da sua primeira entrevista de emprego? A felicidade de ter obtido uma resposta positiva após o envio de inúmeros cv's misturada com a ansiedade e receio do que responder! Agora imagine que em todas as entrevistas a que vai tem esta mesma sensação e na grande maioria das vezes não percebe o porquê de muitas perguntas ou porque não foi contratada! É assim nas pessoas com Perturbação do Espectro do Autismo (PEA). Mas não precisa de o ser!

A partir dos 18 anos de idade passa a ser comum a ida a entrevistas de emprego num cada vez maior número de pessoas. Seja para um trabalho de part-time no verão, um estágio após a realização de um curso profissional ou então em situações em que a pessoa tenha terminado os seus estudos e esteja a procurar entrar no mercado de trabalho. É algo comum mas ainda assim não deixa de ser um momento vivido numa boa parte das situações com ansiedade. O desejo em querer ser aceite é grande. Seja por necessidade ou porque é o emprego que tanto se procura. Mas a falta de preparação é igualmente grande. Nem sempre na escola, eu diria mesmo, muito frequentemente ao longo do ensino não parece haver uma preocupação objectiva em ajudar as pessoas a treinar para as situações de entrevista de emprego. Mas a falta não é apenas dos entrevistados. Os entrevistadores também nem sempre se encontram preparados para determinados grupos de pessoas candidatas. Um desses grupo pertence às Perturbações do Espectro do Autismo (PEA).


Seja porque as empresas têm a ideia de que as pessoas com PEA não ingressam ou não concorrem ao mercado de trabalho. Ou porque pensam que apenas realizam estágios e na maior parte das vezes em situações de trabalho indiferenciado e não remunerado. Parece não haver uma preocupação do mercado de trabalho orientado para este nicho de mercado que é cada vez maior - pessoas com Perturbação do Espectro do Autismo. Há a excepção de algumas empresas, normalmente multinacionais ligadas às Tecnologias de Informação (TI's), como a Microsoft, Auticon, HP, SAP, etc., que têm vindo a mudar o panorama neste campo e nos últimos anos têm procurado contratar cada vez mais pessoas com PEA. Este facto tem levado a produzir informação muito importante e que os próprios clínicos que acompanham estes adultos com PEA têm chamado a atenção. Ou seja, a necessidade de adaptar o processo de selecção às características da pessoa. Neste caso de alguém com PEA, mas poderíamos muito bem estar a falar de alguém com um Défice cognitivo ou outro tipo de situação clínica.


É frequente ouvirmos, quem acompanha estes processos de acompanhamento da pessoa com PEA e as empresas que os integram de que ao fim de muito pouco tempo se apercebem do quanto válidos são estes colaboradores. Não é de admirar atendendo ao conhecimento que vou tendo junto dos meus clientes adultos com PEA. Mas é importante que a própria sociedade e o mercado de trabalho possa ter essa mesma informação para os ajudar a desconstruir crenças erradas face à capacidade das pessoas com PEA.


O certo é que as pessoas com PEA num número significativo de vezes sente grandes dificuldades na entrevista de emprego. Seja porque a Perturbação de Ansiedade que têm associada ao seu quadro de PEA vem aumentar as dificuldades sentidas. Mas também porque toda a forma como o processo de selecção é ou pode ser conduzido parece à partida condenar o sucesso desta mesma entrevista.


Por exemplo, os processos de selecção que optam por situações de recrutamento em grupo limitam em muito as dificuldades das pessoas com PEA. Todo um conjunto de dificuldades na interacção social e na comunicação mas também na compreensão das pistas sociais vai levar a uma maior dificuldade nesta situação. Nas situações em que se encontra apenas o candidato temos as situações em que são presentes a um painel de júri de 3 ou 4 pessoas e que vai levar a um aumento na situação. Seja pela dificuldade no estabelecimento do contacto ocular. E mais especificamente no contacto usado para regular a interacção social com os vários membros entrevistadores. Mas também pela dificuldade em conseguir dar atenção a um conjunto de 3-4 pessoas numa mesma situação. Os aspectos do défice de atenção também associado nas pessoas com PEA traz compromisso. Da mesma maneira que ao longo da sua formação a pessoa com PEA foi tendo dificuldade em conseguir compreender determinados enunciados nos testes ou nas perguntas orais que lhe faziam na sala de aula, o mesmo também acaba por ocorrer na entrevista. Ou seja, há um número crescente de situações que parece à partida minar o processo de avaliação quando o candidato tem PEA. E não porque o candidato não mereça!

Pessoas com PEA geralmente têm problemas de processamento sensorial, além de dificuldades para entender a linguagem corporal, expressões faciais, tonalidade ​​vocal e normas sociais. As entrevistas em painel nas quais várias pessoas entrevistam o candidato de uma vez ampliam esses problemas, pois o candidato precisa se concentrar na comunicação não verbal e verbal de várias pessoas ao mesmo tempo. Isso é desafiador e desgastante para muitos com autismo, resultando em baixo desempenho. Os empregadores costumam preferir entrevistas em painel a entrevistas individuais, no entanto, porque comprovadamente minimizam enviesamentos inconscientes na contratação. Mas as organizações podem alcançar o mesmo objectivo com entrevistas sequenciais. Durante entrevistas sequenciais, os candidatos vêm vários entrevistadores, mas não todos ao mesmo tempo. Candidatos com PEA podem ser avaliados de maneira mais justa usando esse método, embora seja necessário ter cuidado para não agendar muitas entrevistas muito próximas. Ter entrevistas em dias separados seria ideal quando prático. A localização da entrevista também pode ser importante. Os empregadores devem seleciconar espaços tranquilos, sem distracções visuais, aromas pesados ​​ou iluminação fluorescente. Evite entrevistas realizadas durante as refeições, pois gerir a etiqueta tácita do jantar pode ser uma distracção substancial para quem tem PEA.


A natureza das perguntas feitas nas entrevistas também pode prejudicar sistematicamente os candidatos com PEA. Evite perguntas vagas ou questões da psicologia popular da moda que não têm conexão discernível com as tarefas e responsabilidades do trabalho. Por exemplo, perguntas como: “Se você pudesse ser qualquer animal, qual animal você seria e por quê?” São simplesmente desconcertantes para pessoas com PEA (e muitas outras). Evite também testar habilidades obliquamente. Alguns empregadores usam perguntas como: “Quantas gomas vermelhas existem neste frasco?” E esperam que um candidato demonstre suas habilidades numéricas de raciocínio e estimativa. Uma pessoa com PEA pode levar essa pergunta muito literalmente, no entanto, e acredita que a única maneira de responder é contar os grãos. Em vez disso, teste as habilidades relevantes do trabalho directamente, usando testes objectivos e cientificamente validados.

Também é importante evitar perguntas excessivamente tendenciosas do ponto de vista social (agradar as pessoas), especialmente quando elas não estão relacionadas às tarefas e ao contexto do trabalho. Não pergunte o que outra pessoa pode fazer ou pensar ("O que seu supervisor diria sobre você", por exemplo). Faça perguntas mais directas - as pessoas com PEA respondem bem a perguntas relacionadas a coisas que realmente experimentaram. Faça perguntas sobre questões comportamentais, como “conte-me sobre um momento em que você teve uma discordância sobre o fluxo do processo com um colega de trabalho e como você o lidou” de acordo. Um cenário situacional hipotético pode ser difícil. Evite qualquer pergunta que comece com "imagine"; em vez disso, use "descreva uma hora".

Existem também algumas directrizes gerais de comunicação a serem observadas ao entrevistar pessoas com PEA. Evite o uso de linguagem confusa que possa ser interpretada literalmente (por exemplo, "conseguir um emprego"). Esteja ciente de que as normas em torno de assuntos delicados, como negociações salariais, podem não estar claras; portanto, o candidato pode não reagir como "esperado". Isso não deve afectar a pontuação da entrevista, a menos que as negociações salariais façam parte da descrição do cargo para o cargo em que estão a recandidatar-se. Esteja ciente de que um subconjunto de pessoas com PEA é altamente hábil em perceber microexpressões, as expressões muito rápidas que passam pelo rosto de alguém antes de "reorganizar" em uma reacção socialmente aceitável. As pessoas capazes de perceber isso, no entanto, muitas vezes desconhecem que deveriam ignorar essas expressões e responder à "face pública". Isso pode levar ao constrangimento social. Mais uma vez, isso não deve afectar a pontuação da entrevista do candidato, a menos que entender as nuances sociais seja um requisito fundamental do trabalho.

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