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Estás a falar comigo?

Quem não se lembra de Taxi Driver? E desta mítica frase, que de tão simples mas ainda assim tão fantasticamente dita por Robert De Niro no papel do taxista Travis Bickle, ainda hoje está na memória? Nesta cena especificamente, a personagem do taxista são representantes da sua expressão de intolerância crescente face ao mundo que o rodeia. Faz-me recordar aquilo que sinto acontecer em muitas pessoas autistas quando se procura reflectir sobre o que falta fazer para melhorar a prestação de cuidados de saúde na comunidade autista, principalmente nos adultos. É verdade, em pleno século XXI, com o crescente aumento do conhecimento cientifico e clínico acerca da Perturbação do Espectro do Autismo, e ainda continuamos a fazer esta pergunta. Percebem agora porque me fui lembrar do Taxi Driver? Por vezes confesso que fico a pensar que a Perturbação do Espectro do Autismo deverá mesmo ser uma condição "especial" ao ponto de ainda hoje ser tão difícil poder disponibilizar os cuidados de saúde adequados. Felizmente, na actualidade têm sido mais os exemplos de levantamento de necessidades que tem sido feito nesta área ocultando a própria comunidade autista. E não ficarem somente pelo levantamento da informação junto dos clínicos, ainda que esta também seja fundamental à melhoria do processo. Acrescento que em relação a estes últimos continua a ser fundamental dar mais e melhor formação para que estes possam prestar mais e melhor as suas funções clinicas, seja de diagnóstico mas também de acompanhamento. Já não há mais formas de poder dizer, inclusive demonstrado através de inúmeros estudos de investigação científica e experiência clinica acumulada de anos. As pessoas autistas apresentam um maior número de co-ocorrências de outras perturbações psiquiátricas e como tal a sua saúde mental e bem-estar geral está bastante mais comprometido. Além disso, as pessoas autistas apresentam um maior número de outras situações de saúde geral, o que leva a que este grupo apresentam uma mortalidade prematura. Só por isto deveria ser suficiente para que os serviços de saúde se organizassem para receber em quantidade e qualidade todas as pessoas autistas adultas. Por isso, quando se procura reflectir sobre esta questão com as pessoas autistas elas parecem sentir-se com o próprio taxista em sentir que o tique taque do seu taxímetro lhe faz lembrar uma bomba. É porque toda esta situação é uma bomba que está constantemente a rebentar. Seja no sofrimento psicológico diário das pessoas autistas e da sua família. Ou pelo número crescente de situações de suicídio que continuam a ocorrer nas pessoas autistas e em maior número nas mulheres. E todo um conjunto de outros acontecimentos que agravam a condição geral de saúde física e mental e a Qualidade de Vida. Ainda assim, quando procuramos cruzar o levantamento de necessidades junto das pessoas autistas e dos clínicos conseguimos encontrar pontos em comum. Nomeadamente, no contacto com os cuidados de saúde é fundamental melhorar a relação cliente-clínico. Perguntem a uma pessoa autista acerca da sua experiência ao recorrer a determinados serviços de saúde e vão perceber. Além disso é também necessário fazer ajustamentos nos próprios cuidados. Como por exemplo, providenciar locais alternativos para esperar por uma consulta, ao invés de sujeitar a pessoa à sala de espera, que leva a que inúmeras vezes a pessoa acabe por se retrair ou evitar mesmo. E o próprio processo de avaliação e diagnóstico que tanta celeuma continua a dar e ainda assim são imensas as pessoas autistas adultas que recebem o seu diagnóstico tardiamente. As melhorias a fazer são fundamentalmente comportamentais, como sempre. E para tal é importante que os próprios clínicos sejam ajudados a desenvolver uma outra atitude face a estes seus clientes. Parece fácil certo? Não me parece que seja preciso repetir, correcto? Caso contrário o Robert De Niro pode explicar!


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