Espelho, espelho meu, há mais alguém por diagnosticar como eu?

Quem estiver recordado da origem da frase lembra-se que a rainha quando perguntou ao espelho sobre quem seria a mais bela do reino não ficou agradada com a resposta - É a Branca de Neve. Mas além da ficção, na vida real são cada vez mais as pessoas adultas que descobrem tardiamente que afinal aquilo que se tem vindo a passar consigo ao longo de vinte, trinta, quarenta, cinquenta ou mais anos tem um nome - Perturbação do Espectro do Autismo. Se alguns ficam aliviados por finalmente a sua incompreensão face ao outros e ao mundo ter um nome. Outros perguntam-se como é que tal é possível? Até porque visitaram vários médicos ou psicólogos. E cansados de ouvirem "Tu és diferente!" e de principalmente eles próprios se sentirem diferente, foram eles mesmos à procura de uma resposta. Quem os recrimina?


"No final de 2019 fiz trinta e dois anos, e li a descrição de um jovem autista na internet.". Foi assim que começou o António (nome fictício) quando lhe pedi para se apresentar. Ele já tinha pensado muito sobre isso. E já tinha lido ainda mais. Sempre lera, confessara-me. Em certos momentos até mesmo compulsivamente. Um tema interessava-lhe e ele não o deixava enquanto não estivesse satisfeito. Podia demorar três ou quatro dias, mas também podia demorar semanas. E continuou, "No texto da internet dizia, "O Zé Carlos é um jovem muito inteligente, mas as preocupações com ele começaram a aumentar depois que ele se começou a tornar mais sensível e ansioso. Ele é muito concreto e honesto. Luta de uma forma intensa em todas as situações sociais...".


O António disse que à medida que ia lendo mais e mais sobre o Zé Carlos conseguia rever-se em todas as suas palavras. Diz que a sensação tinha sido uma das mais estranhas que alguma vez tivera. E que já tinha tido a sua quota parte de sensações e momentos estranhos. Mas aquela era diferente e tinha-o feito sentir diferente. Ele acrescentou que não a sabia explicar. Como em muita coisa da sua vida. E entretanto muda para outra questão dizendo, "Durante toda a minha vida, lutei para me relacionar com as pessoas, encontrar pontos em comum e pertencer a um grupo.". Apesar do rosto do António não ter mudado um milímetro e as já aparente rugas não terem demonstrado nada de diferente, foi possível sentir que estivesse a dizer algo que dentro de si fizesse um eco de tristeza. E continua dizendo que no texto mencionavam mais outra coisa, "As pessoas rotularam-me de demasiado inteligente ou ingénuo; muito honesto ou imprudente; muito concreto ou idealista. As pessoas da família costumavam explicar as minhas dificuldades sociais dizendo que eu era "diferente". E conclui com uma pergunta.


O António perguntou-me "Sabe o que é mais triste no meio disto tudo?". Eu respondi-lhe que não sabia mas que gostava muito que ele me dissesse. E o António conclui dizendo "Aquela descrição que eu sei não ser minha mas poderia muito bem ser. Também poderia ser de muitas outras pessoas que conheci online, rapazes e raparigas!". Podia ser de mim António mas também de uma Maria qualquer. O António não sabia o quanto certo estava naquela observação. Mas ficou a saber mais tarde quando continuamos a falar sobre a prevalência do Espectro do Autismo na população. E ele fez a mesma pergunta que eu fiz em tempos, "Mas onde é que estão todos esses autistas que estão referidos nas prevalência?".


O António confessou-me que a primeira vez que tinha chorado foi precisamente no momento em que leu aquele texto na internet, "Nunca me tinha acontecido algo parecido. Nem mesmo quando o meu cão e companheiro morreu já velhinho com 14 anos.". E continua fazendo-me outra pergunta, "Sabe o que mais me chateia em tudo isto?". E quase nem me deixa dizer nada, concluindo, "É o facto de todas as pessoas pensarem que por eu não chorar isso significa que eu não sinto as coisas ou não me importo!". Aquilo era algo que o irritava.


Diz que nas semens seguintes não conseguiu deixar de continuar a ler mais e mais sobre o autismo. Sente ter mergulhado e cada vez mais ter tido a sensação que o ET no filme sentiu quando apontou para o espaço e disse "ET home.". O António estava a querer traduzir claramente que toda aquela identificação com as diferentes descrições que encontrou, mas também a explicação cabal da sua vida até aos quase trinta e dois anos tinha sido catártico. Mas a leitura não lhe chegava. António queria saber mais, mas principalmente ter alguma certeza. "Poderia ter ido ao médico ou psicólogo, mas não fui!", acrescenta, pedindo desculpa de uma forma que se sentia ser ensaiada mas ainda assim genuína. Então o António mergulhou noutro mar. Naquele que pudesse ajudar a ter a certeza daquela sensação mas que não tivesse de passar por ir procurar um profissional de saúde. E claro que pensou rapidamente na internet. O lugar comum onde todos vão procurar e ele também quando queria saber de algo. Fosse neste caso de como fazer o diagnóstico online. Mas também já tinha ido procurar coisas tais como fazer conversa circunstancial com as pessoas ou o que fazer quando se está ansioso antes de dormir.


Como numa das consultas alguém lhe tinha falado da DSM 5 com tal importância, o António procurou-a na internet. E onde dizia Perturbação do Espectro do Autismo leu com a antemão que ele consegue e retirou todos os detalhes fundamentais que se relacionavam consigo, sejam as dificuldades nas relações sociais, as reacções às situações inesperadas, mas também a sua maior dificuldade com o ruído. "Estava tudo ali, estava tudo escrito ali!", disse António pedindo para se levantar na altura. Parecia estar mais e mais incomodado, sentia-se. "Os médicos e os psicólogos bastavam fazer como todas as crianças o fazem na escola que é ligar as semelhanças, compreende?". Disse e sentou-se afundando a cabeça nas mãos.


Como já tinha lido na internet, António recusou-se a ir com aquela informação da DSM 5 e confrontar médicos e psicólogos. Já tinha lido outras experiências de outras pessoas em situações semelhantes e quase todas elas eram horríveis, ao ponto de lhe darem a certeza de que não iria querer passar por aquilo. Perguntei-lhe para ele me dar alguns exemplos. Verdadeiramente horríveis, António disse que havia pessoas que tinha sido recebidos de forma mais zangada por profissionais de saúde e que lhes disseram que nada daquilo fazia sentido e que as pessoas não entendiam aquela informação e que deveria ser apenas de acesso a profissionais. Enquanto outros lhes negaram a confirmação e disseram que tudo aquilo remetia para outro diagnóstico que não Perturbação do Espectro do Autismo. "Percebe porque é que eu não poderia ir fazer a mesma coisa?", perguntou António.


Disse-lhe que compreendia e que ele não era o único que me contava uma história semelhante. Ao que o António me revelou porque tinha vindo ter comigo - "Quando li aquele seu texto percebi que haveria de ser diferente. E se não fosse, podia sempre confronta-lo com um texto seu e não com a DSM 5.". Não consegui não rir e dizer que era uma forma bem estratégica de resolver a situação. O António disse que continuou a procurar na internet os tais dos questionários e que preencheu para cima de 15 questionários diferentes. Uns mais fidedignos que outros. E mesmo assim, muito deles com perguntas que ele próprio tinha dúvida do que elas poderia estar a querer avaliar ou perguntar. Mas que de uma maneira geral as suas respostas a todas aquelas perguntas lhe davam garantia uma atrás da outra de que ele teria um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo, nível 1. "Como é que uma 10 a 50 perguntas respondidas online poderiam ser mais capazes e inteligentes que profissionais de saúde formados ao longo de anos?", perguntou. Não havia como não perguntar aquilo, pensei. Mas ao fim de algum tempo o António sentiu que apenas aquilo não lhe chegava. Apenas o resultado dos questionários e nada mais não lhe chegava.


"Mesmo para alguém como eu que gosta mais de estar sozinho e que tem um grupo muito restrito de pessoas com quem contacto e nem sempre penso que eles sejam meus amigos. Ou para alguém que faz pouca conversa, principalmente circunstancial, entre outras tantas coisas. Mesmo para mim, fazia-me sentido ouvir mais de alguém, de uma pessoa, e os computadores e a internet ainda não os substituem, apesar de fazerem coisas incríveis, compreende?", perguntou-me o António.


"- Compreendo-te muito bem António, compreendo-te muito bem!", disse-lhe eu.

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