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Espalhar corações

Queria saber o que é que pode ser feito para lá das competências sociais que procuramos desenvolver nos grupos. Os manuais existentes repetem-se. Não que a informação lá presente não seja importante, porque o é! Cheguei inclusive a fazer formação num dos programas de competências sociais mais referenciado e validado para o Espectro do Autismo - o PEERS. Mas ao fim destes anos continuo a sentir que na realidade há um espaço com necessidades ainda por responder. Algumas delas vão estando cada vez mais identificadas. Estou a falar das relações de namoro e das questões da sexualidade. Mas não só. Podemos continuar a fazer os grupos de treino de competências sociais como até então? Podemos, mas nós sabemos fazer melhor. E para isso, nada como perguntar às pessoas autistas o que elas têm para dizer sobre o assunto.


O meu problema não é não ter relações com outras pessoas...até sinto que sou bastante bom nisso, disse António (nome fictício). O meu problema é mais em querer usar ou não essas mesmas competências. Eu não quero ter compromissos sociais, acrescenta. Alguns dos meus colegas já me disseram que o meu problema é recear ser rejeitado, continua. Mas eu sei que o meu problema não pode apenas ser isso, até porque algumas vezes eu tenho receio das outras pessoas. Eu não quero nenhum compromisso social para além de poder andar com um grupo e não ter de fazer nada em especial, concluiu.


Eu estou a tentar que os meus colegas possam saber que eu me preocupo com eles. Eu até tenho uma lista. Uma lista que uso todos os dias para poder ligar-lhes ou enviar uma mensagem a eles, diz José (nome fictício).


Muito frequentemente sinto-me insegura nas minhas amizades e relações, diz Joana (nome fictício). E em boa parte das vezes isso dá cabo de mim e faz-me lembrar sobre o meu passado...e eu preocupo-me bastante. E por vezes sinto-me imersa nas relações. Com frequência pergunto-lhes - Ainda gostas de mim? Tens a certeza que ainda queres ser meu amigo?...coisas desse tipo, concluiu.


Uma questão fundamental para mim é o trauma. E ele está presente em todos os dias da minha vida, refere João (nome fictício). Eu cresci a aprender que a forma como eu interajo com as pessoas é errado, e de que existe alguma coisa de errado comigo. E eu fui evitando as pessoas porque internalizei essa informação, acrescenta. Tal como a minha ansiedade social...nem sempre é um medo infundado. Muitos de nós fomos maltratados pela forma como fomos interagindo e nos expressando. E por mais que tenhamos cuidados, é algo que não conseguimos impedir que aconteça, concluiu.


Nós não conseguimos avançar numa relação se não nos empenharmos nela, diz Carla (nome fictício). Mas depois de ter tido todas estas relações nada saudáveis, não sei se quero continua, continua. Quando fiz treino de competências sociais deviam ter-me falado de como saber escolher uma relação saudável. Andei com pessoas que no principio pareciam uma coisa completamente diferente daquilo que se mostraram. Desde relações abusivas física e sexualmente. Cheguei a ser empregada doméstica de um dos meus namorados. E até lhe cuidava dos dois filhos. Demorou até que eu percebesse que devia acabar com aquela relação, concluiu.


Ele partilhou alguma informação pessoal comigo e eu fiz o mesmo com ele. Acho que isso é algo possível de fazer, referiu Júlia (nome fictício). Aquilo que aprendi é que consegues ser amigo dentro do possível, mas isso não será possível se a outra pessoa não estiver interessado em ti da mesma forma como estás interessado nele. E descobri isso da pior forma. Procurei aproximar-me e ser amiga das pessoas e nem sempre as pessoas foram reciprocas comigo, concluiu.


Sinto-me que sou aquela pessoa do grupo que está sempre a perguntar - Então, queres sair? Queres fazer isto ou aquilo? E se os outros quererão ser verdadeiramente meus amigos se nunca me perguntaram isso!, remata Joana.


Lembro-me quando estava no Ensino Secundário e cheguei a fazer um grupo de competências sociais, que bem podíamos ter tido uma discussão mais aprofundada sobre as situações fronteira nos namoros e relações sexuais, acrescenta Júlia.

O desenvolvimento de relações saudáveis pode ser desafiante para muitos jovens adultos. E cerca de 8% dos jovens reporta a existência de situações de violência física e sexual no namoro. E muitos adultos reportam situações de violência nas relações antes dos 25 anos de idade. Cerca de 44% dos jovens autistas reporta situações de bullying e 28% diz que já se envolveu em situações de agressão entre colegas. E sabemos que as relações sociais são uma das áreas mais desafiantes para os jovens adultos autistas. E vários estudos e informação clinica mostram que os adultos autistas tendencialmente menos se envolvem com amigos. Muitos programas de intervenção nesta área têm procurado desenvolver módulos para a promoção da pragmática social. No entanto, são ainda poucos os programas que se têm debruçado sobre o desenvolvimento e aprofundamento de relações mais significativas, assim como na promoção de competências mais adaptadas a estas situações.


Verifcamos que muitos destes programas de intervenção se baseiam naquilo que vai sendo um acumular de evidência científica sobre o autismo, mas que ainda assim parece não responder às reais necessidades das pessoas autistas. Curiosamente, percebemos que quando perguntamos às pessoas autistas o que é que eles sentem necessitar em relação às suas necessidades sociais. Ou o que é que as pessoas sentem ser os seus problemas na esfera social e que nenhum professor, pais, colegas, amigos, livros ou vídeos os ajudou a compreender e resolver. Percebemos que precisamos de continuar a fazer diferente, sob pena de continuarmos a falhar às pessoas.


Muitos jovens adultos autistas dizem que é desafiador permanecer motivado para fazer e manter amizades e que beneficiariam com a educação sobre como superar a ansiedade enraizada em experiências anteriores traumáticas que os impedem de fazer novos amigos. Assim como também teriam a ganhar com a aprendizagem de quando é que é seguro correr riscos emocionais, ou como poderiam cultivar reciprocidade nos relacionamentos e como identificar, comunicar e respeitar os limites sexuais e emocionais. Para eles é fundamental saber definir uma relaç\ao saudável e abordar a identificação dos sinais de uma relação com essas características. Assim como o "como começar as relações?" e conhecer novas pessoas e de uma forma adaptada à sua realidade e às novas realidades vividas. Mas também aprender a ser paciente com o desenvolvimento das novas relações, aumentar a confiança para falar da sua condição quando for apropriado e aumentar a participação social no grupo. Fundamental saber lidar com a ansiedade dentro das relações e não apenas a ansiedade de uma forma teórica ou olhada apenas na sua perspectiva individual. Poder perceber as fronteiras e negocia-las, mas também responder às pessoas que não as respeitam, e pedir desculpa quando se ultrapassa uma delas. E sempre, seja dentro ou fora deste âmbito, um dever de melhorar a saúde mental para o desenvolvimento de relações mais saudáveis, compreender as repostas de luta ou fuga, as respostas fisiológicas ao stress, usar estratégias de coping relativamente às questões sensoriais. E por último mas não menos importante, pode aprender a como acabar as relações. Ninguém ensina em como acabar uma relação! Pensam que estas são para sempre? E reconhecer os sinais de que uma relação deve acabar, bem como, estratégias saudáveis para acabar uma relação, e poder lidar melhor com o fim de uma relação.


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