Errar é humano. E continuar a não reparar o erro é o quê?

É mais do que admissível errar. Todos o fazem e ao longo da vida. Mas quando existem boas práticas pergunto-me o que pode impedir de as replicar em contexto semelhante. O caso da empregabilidade no Autismo parece ser um desses casos. Errar é humano ou melhor dizendo - é um caso de erro humano e de todos nós!

Nos últimos tempos tenho dedicado mais tempo para a questão da empregabilidade inclusiva no Autismo. Não o tenho feito sozinho e a partilha de experiência com uma equipa dedicada ao tema tem trazido algumas respostas mas principalmente inúmeras questões. A razão da empregabilidade prende-se em grande parte com o facto da maioria dos meus clientes do Espectro do Autismo serem jovens adultos e adultos. E como tal a questão da empregabilidade é uma realidade inadiável. Eu diria mesmo que na grande maioria das situações foi adiada temo demais. Isto porque se acredita que trabalhar esta questão é também trabalhar um conjunto de competências próprias da adolescência. As ideias que muitos jovens adultos trazem enquanto crenças na primeira abordagem ao mercado de trabalho parecem estar desfasadas - da realidade e das necessidades exigidas. O que leva a questionar o próprio papel da Escola neste processo.


No caso da Perturbação do Espectro do Autismo (PEA) esta questão assume um papel ainda mais fulcral atendendo ao prognóstico da realidade. O número de autistas empregados continua a ser mínimo (35 - 40%) e destes continua a haver uma percentagem significativa que está em condições desfavoráveis e desiguais.


Várias questões que precisam de ser referidas em primeiro lugar para podermos avançar no resto da reflexão. Um autista não está impedido de trabalhar por ter esta condição. Na PEA há uma grande heterogeneidade de situações e para além de haver um espectro mais funcional que apresenta melhores competências para enfrentar o mercado de trabalho. O espectro menos funcional pode muito bem ser olhado tal como se olha para as pessoas com deficit cognitivo ou outro tipo de deficiência. Ou seja, desde cedo procurar conjuntamente com o jovem e a sua família traçar um projecto de vida capaz de o ajudar a estar melhor preparado para esta etapa fundamental. Ou seja, não há razão para que nenhum destes casos deixe de ter resposta na empregabilidade. Nesta altura poderíamos dizer que não há experiências suficientes, estudos piloto ou de caso para poder afirmar esta possibilidade. Mas não é o caso. Existem cada vez mais exemplos de casos de sucesso e não me refiro ao Steve Jobs. Falo de situações em que autistas adultos fizeram a sua formação profissional e entraram no mercado de trabalho nessa mesma área e estão a alcançar o mesmo que qualquer um de nós não autista. E também existem exemplos de boas práticas, de projectos testados e validados para a empregabilidade inclusiva e que podem ser disseminados.


O que me leva à minha questão inicial - porque é que não há mais autistas adultos empregados? E o que está a falhar neste processo? E quem é que precisa de ser igualmente ajudado, para além do autista, a ser sensibilizado e capacitado para podermos alcançar a mudança?


Há duas semanas atrás fui contactado por um cliente meu - autista adulto que tendo terminado o seu contrato (estágio) de um ano viu validado a sua experiência, esforço e dedicação com a renovação do contrato e das mais valias envolvidas. E como tal, se é possível para ele porque não haverá de ser para todos os demais?


Outros exemplos advêm de algumas empresas da área das Tecnologias de Informação (TI's) que cada vez mais olham positivamente para as mais valias na contratação de autistas para a sua organização. Não é caso único e há outras áreas que lhe seguem as pisadas. A questão das TI's também tem muito a ver com as próprias competências de um certo número de autistas e também dos seus interesses mais restritos nesta área. E como tal desenvolveram durante muitos anos muito do seu tempo a explorar, aprender e a desenvolver competências nestas áreas. Empresas como a Auticon que emprega exclusivamente autistas é um desses exemplos. Mas outras empresas têm uma percentagem significativa de colaborares com uma perturbação do neurodesenvolvimento nos seus quadros.


As experiências narradas por muitas destas pessoas é francamente positiva. Não sentem a discriminação que habitualmente muitos autistas sentem quando procuram estagiar ou trabalhar em algum local. São respeitados e valorizados pelas suas chefias e colegas. Cometem erros como qualquer outro colaborador não autistas e sentem necessidade de um conjunto de outras variáveis em muito semelhantes. Como tal, porque é que estes exemplos não acontecem de uma forma mais generalizada? O que é que estas empresas têm enquanto características que é facilitador no processo?


Uma velha e ainda actual questão passa por se continuar a valorizar o lucro ao invés da pessoa. Perder tempo e dinheiro na adaptação do próprio local de trabalho e nos processos continuar a ser visto como um dispêndio de tempo e de recursos. Não procurar avaliar as competências das pessoas e saber enquadra-las idem. O facto de se continuar a ter uma ideia estereotipada do autista já para não falar de um enorme desconhecimento. Para além de o próprio processo de recrutamento e selecção continuar alicerçado em bases que não reflectem a neurodiversidade da sociedade e não me estou apenas a referir ao autismo.


É fundamental tornar a situação pública, conhecida de todos. Sensibilizar o poder politico para a promoção de boas práticas na Administração Pública. Procurar junto das Instituições e outras Organizações responsáveis no sector (Sindicatos, Representantes dos Empregadores) mas também Instituições que representam os autistas para os empoderar e capacitar na construção de medidas que alterem a realidade. Será fundamental sensibilizar e informar o tecido empresarial para o que é o Autismo. Não somente aquele que vem nos manuais de diagnóstico mas principalmente aquele que representam a realidade vivida no quotidiano dos autistas. E não esquecer que capacitar os autistas não passa apenas por fornecer competências pessoais e sociais. É preciso ajudar a dar-lhe voz para que eles próprios individualmente ou em conjunto se façam representar a si próprios e às suas necessidades e desejos.

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