Equações perigosas

Não percebo. Se as pessoas querem ver os órgãos genitais de outra pessoa, porque não procuram ver uma imagem desse conteúdo na internet?, pergunta Francisco (nome fictício). Até porque não percebo como é que as pessoas sabem que aquela imagem que lhes enviaram é mesmo sua ou não, continua. Até porque pediram para ver os órgãos genitais e não propriamente a cara da pessoa, compreendes?, questiona-me. E depois ainda dizem que eu é que sou desadequado na forma como me dirijo às pessoas? Pelo menos não ando por ai a pedir para as pessoas me enviarem fotos das suas partes intimas!, concluiu. Mas confesso que tenho curiosidade, diz Alexandre (nome fictício). Ainda que tenha algum receio do que poderá acontecer a seguir, continua. Não é nada que já não me tenha passado na cabeça, diz. Quando alguma miúda gira passa por mim, confesso que gostaria de ter raios-X, acrescenta. Eu já o fiz com o meu namorado, diz Raquel (nome fictício). Não olhem assim para mim, refere. Não vejo qual é o problema. Ele já tinha visto mesmo os meus órgãos sexuais, acrescenta. Qual o problema de ele me estar a pedir para enviar uma foto. Não envio para outras pessoas, como já ouvi dizer outros que o fazem sem saber para quem, concluiu. Eu não quero saber, diz Diogo (nome fictício). São partes genitais, nada mais. É como o Francisco dizia no principio, as pessoas nem sequer sabem de quem é, concluiu. O Francisco, o Alexandre, a Raquel e o Diogo, são todos adolescentes autistas, e todos eles já contactaram ou têm alguma coisa, pouca ou muito a dizer sobre o sexting e o envio de nudes.


O aumento do acesso à Internet trouxe mudanças na seleção de parceiros, e a Web é agora um dos lugares mais populares para encontrar um par ou um parceiro romântico. Embora o namoro online ofereça benefícios significativos, esta plataforma moderna gerou novas formas de namoro e, subsequentemente, comportamento sexual. O sexting é definido como o envio de mensagens sexualmente sugestivas, usando linguagem explícita ou fotos e vídeos de nudez / quase nudez e foi anteriormente referido como um comportamento de alto risco, especialmente entre os jovens. As taxas de prevalência recentes mostram que 10,2% dos adolescentes e 30–54% dos adultos já enviaram um sexting contendo texto ou foto com conteúdo sexualmente sugestivo.


O envio de sexting que contêm fotos dos órgãos genitais de uma pessoa pode ser categorizado de duas maneiras: solicitado (i.e., quando alguém pede para receber tais imagens) ou não solicitado (i.e., quando alguém recebe uma imagem que não pediu). Receber imagens não solicitadas de órgãos genitais é cada vez mais comum em encontros on-line. Na verdade, durante o namoro online, receber uma foto não solicitada dos órgãos genitais dos homens por uma mulher (conhecido coloquialmente como ‘dick pics’) é frequentemente a primeira comunicação que muitos relatam receber.


O sentimento "fictício" de privacidade e intimidade, a sociedade de consumo tecnológica, a cultura do imediatismo, a tirania de uma imagem sexualizada de quase tudo, e a própria pós-modernidade, são diferentes aspectos que contribuem para o surgimento de um novo tipo de fenómeno social, como o sexting, muitas vezes utilizado como instrumento de cibersedução. É compreensível por todas as razões a preocupação com este tipo de fenómeno e por aquilo que ele pode representar. Contudo, é também fundamental poder compreender e ajudar as pessoas, nomeadamente os jovens, do porquê desta escolha e da simbologia que a mesma pode representar para si no presente momento. Até porque se nos abstrairmos de alguns dos problemas que este comportamento pode envolver, podemos pensar que o sexting na verdade é uma combinação de elementos culturais sempre existentes e tecnológicos. A partilha de frases sexualmente sugestivas não é nada de agora. Porventura uma análise à literatura poderá dar-nos provas disso. Por exemplos, as cartas de James Joyce para a sua esposa é um bom exemplo disso.Ou então Les liasons dangereuses de Choderlos de Laclos, entre outros exemplos. Não que o Visconde de Valmont não se tenha colocado em apuros e levado outros também. Mas é importante que se possa perceber que o comportamento envolvido no sexting não se trata de nada exclusivamente patológico. Ainda que seja importante ser enquadrado.


Contudo, o desenvolvimento de uma moldura penal adaptada às situações que iam surgindo, levou a que a Justiça tivesse criado um conjunto de respostas adaptadas às situações. Até porque em algumas destas situações são partilhadas fotos dos próprios com mais outra pessoa. Mas depois também há os casos de esta mesma partilha circular por um conjunto mais abrangente de pessoas e que não foi pedido autorização ao próprio. Levando a que esta situação acabe por causar um dano maior do ponto de visto social e psicológico na pessoa que está identificada na fotografia, levando a que o episódio seja vivido como traumático.


Mas é possível compreender que do universo de utilizadores das Tecnologias de Informação e da internet de uma maneira geral, há uma gama bastante variada em termos de perfil de funcionamento. Sejam as pessoas que devido a apresentarem sintomatologia depressiva, podem olhar para a partilha das nudes ou do sexting como uma forma de poderem ver a sua pessoa valorizada e aprovada. Mas também outras condições que necessitam de serem tidas em conta para ajudar a enquadrar o comportamento da pessoa. Por exemplo, no espectro do autismo o facto de se verificarem em muitos jovens um comportamento de maior imaturidade e ingenuidade. Este perfil poderá levar a que este jovem autista possa partilhar uma informação sua ou de outra pessoa por terceiros por não perceber na situação em si alguma questão de perigosidade envolvida.


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