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Entre o diploma e a realidade: A educação inclusiva precisa de menos ruído e mais coragem

Poucos temas geram hoje tanta unanimidade nas intenções e tanta divisão na prática como a educação inclusiva. Desde a publicação do Decreto-Lei n.º 54/2018, a palavra inclusão tornou-se omnipresente. Está nos discursos políticos, nos projetos educativos, nas ações de formação, nos documentos das escolas e, mais recentemente, na proposta de revisão do próprio diploma. Todos parecem defender a inclusão. O problema começa quando tentamos definir o que ela significa e, sobretudo, como a concretizar.


Nos últimos meses, o debate voltou a intensificar-se. Uns afirmam que o diploma falhou. Outros defendem que nunca chegou verdadeiramente a ser implementado. Uns exigem um reforço das medidas especializadas. Outros receiam um retrocesso para modelos segregadores. Entre posições frequentemente polarizadas, instala-se um ruído que corre o risco de esconder aquilo que deveria ser a única prioridade: responder às necessidades reais dos alunos.


Talvez este seja o maior paradoxo da educação inclusiva em Portugal. Quanto mais discutimos a inclusão, menos ouvimos aqueles para quem ela foi criada. O Decreto-Lei n.º 54/2018 representou uma mudança conceptual profundamente relevante. Pela primeira vez, o sistema educativo português procurou afastar-se de uma lógica centrada exclusivamente no diagnóstico para adotar um modelo baseado na identificação das barreiras à aprendizagem e à participação. A mensagem era clara: a escola deve adaptar-se aos alunos e não esperar que sejam os alunos a adaptar-se à escola.


Do ponto de vista ético, esta mudança dificilmente pode ser contestada. Contudo, existe uma diferença fundamental entre mudar uma lei e mudar uma cultura. A investigação internacional tem demonstrado, de forma consistente, que as reformas educativas falham frequentemente quando assumem que uma alteração legislativa produzirá automaticamente uma alteração das práticas. Michael Fullan, uma das maiores referências mundiais na área da mudança educativa, alerta precisamente para este erro. As organizações não mudam porque os regulamentos mudam. Mudam quando mudam as crenças, as competências, as lideranças, as relações e a cultura profissional das pessoas que nelas trabalham.


Foi precisamente aqui que começaram muitas das dificuldades da educação inclusiva em Portugal. Mudaram-se os conceitos. Mudaram-se os formulários. Mudou-se a terminologia. Mas, em demasiados contextos, as práticas permaneceram praticamente inalteradas. A inclusão não acontece porque um diploma a determina. Acontece quando professores, técnicos, direções, famílias e alunos constroem diariamente uma cultura de colaboração, confiança e aprendizagem conjunta. E essa transformação exige tempo. Exige formação. Exige supervisão. Exige investimento. Exige liderança. Nenhuma destas dimensões pode ser legislada.


É igualmente importante reconhecer uma realidade frequentemente ignorada no debate público: existe resistência à mudança. E seria ingénuo fingir que ela não existe. Existe resistência porque qualquer mudança desafia identidades profissionais construídas durante décadas. Obriga a abandonar práticas conhecidas, confronta inseguranças, exige novas competências e altera formas de trabalhar profundamente enraizadas.


Contudo, seria profundamente injusto atribuir essa resistência apenas aos professores. Ela manifesta-se em vários níveis do sistema. Existe resistência em algumas direções escolares quando a gestão dos recursos privilegia respostas administrativas em detrimento de soluções pedagógicas. Existe resistência em alguns serviços especializados que continuam excessivamente centrados na lógica do diagnóstico e pouco articulados com o contexto escolar. Existe resistência nas estruturas políticas quando se produz legislação ambiciosa sem garantir os recursos humanos e financeiros necessários para a sua concretização. Existe resistência nas próprias famílias, sobretudo quando começam a sentir que a palavra “inclusão” nem sempre corresponde à experiência vivida pelos seus filhos.


Porque há uma diferença entre estar presente numa sala de aula e pertencer verdadeiramente à comunidade educativa. Esta distinção é fundamental. A própria UNESCO tem vindo a recordar que a educação inclusiva não significa apenas garantir presença física. Significa assegurar participação, aprendizagem, sentimento de pertença e oportunidades reais de desenvolvimento. Permanecer sentado numa sala de aula não constitui, por si só, inclusão.


Talvez uma das maiores fragilidades da implementação do Decreto-Lei n.º 54/2018 tenha sido precisamente a multiplicidade de interpretações que dele foram feitas. Em algumas escolas, o diploma foi entendido como um poderoso incentivo à diferenciação pedagógica e à construção de respostas flexíveis. Noutras, foi interpretado quase como uma redução informal das respostas especializadas.


Nalguns contextos instalou-se a ideia de que qualquer intervenção diferenciada poderia ser considerada contrária aos princípios da inclusão. Noutros, praticamente nada mudou para além da terminologia utilizada nos documentos. A lei era a mesma. As interpretações multiplicaram-se.


E quando um direito depende da interpretação que cada escola faz da legislação, deixa de ser verdadeiramente um direito para passar a depender do contexto onde cada aluno nasceu ou vive. É precisamente aqui que a proposta de revisão do diploma merece reflexão. Rever uma lei é saudável. Aliás, seria estranho que uma legislação desta complexidade permanecesse inalterada perante a evolução do conhecimento científico e da experiência acumulada.


O problema surge quando se cria a expectativa de que uma revisão legislativa resolverá dificuldades que nunca foram verdadeiramente jurídicas. Nenhum diploma conseguirá eliminar a falta de professores especializados. Nenhuma alteração legislativa criará mais psicólogos escolares. Nenhuma revisão produzirá automaticamente equipas multidisciplinares mais robustas, maior estabilidade profissional, mais tempo para trabalho colaborativo ou menos burocracia.


Richard Elmore, outro dos grandes especialistas em políticas educativas, defendia uma ideia extraordinariamente simples: nenhum sistema pode exigir aos professores aquilo para que nunca os preparou. Esta afirmação deveria acompanhar qualquer discussão sobre educação inclusiva. Pedimos diferenciação pedagógica. Pedimos ensino individualizado. Pedimos trabalho colaborativo. Pedimos respostas multinível. Pedimos avaliação contínua. Pedimos articulação entre serviços. Mas continuamos, demasiadas vezes, a oferecer condições profundamente insuficientes para que tudo isto aconteça.


Talvez por isso exista um grupo particularmente injustiçado neste debate: os professores. Durante anos, foram apresentados como protagonistas da mudança. Hoje, em certos discursos, parecem ser apresentados como os principais responsáveis pelas suas dificuldades. Esta leitura é profundamente redutora.


Os professores são, frequentemente, aqueles que todos os dias tentam transformar princípios abstratos em práticas concretas, perante turmas numerosas, enorme diversidade de perfis, exigências curriculares elevadas, burocracia crescente e recursos limitados. A investigação sobre burnout docente demonstra que quanto maior for a discrepância entre aquilo que se exige aos profissionais e os recursos disponíveis para responder a essas exigências, maior será o risco de exaustão, desmotivação e abandono da profissão. Uma escola inclusiva não precisa de professores heroicos. Precisa de professores apoiados.


Também os pais conhecem profundamente a distância entre aquilo que a lei prevê e aquilo que a realidade oferece. Embora a legislação lhes reconheça um papel central, muitas famílias continuam a sentir que a sua participação é, frequentemente, mais formal do que efetiva. São chamadas para reuniões. Assinam documentos. Recebem informação. Mas nem sempre sentem que participam verdadeiramente nas decisões que dizem respeito aos seus filhos. Muitas continuam a assumir o papel de mediadoras permanentes entre escolas, serviços de saúde, terapeutas e administração educativa. Acabam por transportar um peso que nunca deveria recair exclusivamente sobre elas.


E depois existem aqueles que raramente participam neste debate. Os próprios alunos. Talvez seja este o maior silêncio da educação inclusiva portuguesa. Falamos continuamente sobre eles. Raramente falamos com eles.


A Convenção sobre os Direitos da Criança reconhece claramente o direito das crianças e jovens a participarem nas decisões que lhes dizem respeito. A investigação internacional demonstra igualmente que os alunos identificam barreiras, necessidades e soluções que muitas vezes escapam aos adultos.


Talvez devêssemos começar por lhes perguntar uma questão simples. “Como é que tu vives a escola?” Talvez a resposta valesse mais do que centenas de páginas de regulamentação. Existe ainda um risco particularmente preocupante. Por vezes, a inclusão deixa de ser discutida como um objetivo educativo para passar a ser defendida como uma posição ideológica.


E quando uma ideia se transforma numa ideologia, deixa de aceitar nuance. A investigação internacional nunca defendeu uma inclusão cega. Tony Booth e Mel Ainscow, através do Index for Inclusion, recordam-nos que incluir significa remover barreiras e aumentar a participação. Não significa eliminar toda e qualquer resposta especializada. Pelo contrário. Em determinados momentos da vida escolar, alguns alunos necessitam precisamente de respostas altamente diferenciadas para que possam, efetivamente, participar e aprender.


A verdadeira inclusão não se mede pelo local onde o aluno está sentado. Mede-se pela qualidade das oportunidades que lhe são oferecidas. Talvez este seja o momento de abandonar uma falsa dicotomia que tem marcado o debate nacional.


A questão nunca foi saber se o Decreto-Lei n.º 54/2018 é bom ou mau. Nem se a sua revisão será suficiente. A verdadeira pergunta é outra. Que condições precisa uma escola para conseguir ser verdadeiramente inclusiva?


Enquanto continuarmos a discutir essencialmente diplomas, continuaremos a ignorar aquilo que a evidência científica tem demonstrado repetidamente: as leis podem abrir caminhos, mas nunca caminham sozinhas. São as pessoas que mudam as escolas. São as lideranças que constroem culturas. São os professores que transformam metodologias. São as famílias que criam pontes. São os técnicos que articulam respostas. São os alunos que nos mostram, todos os dias, aquilo que ainda falta fazer.


Talvez a maior ameaça à educação inclusiva não seja a falta de legislação. Talvez a maior ameaça seja acreditarmos que a legislação, por si só, produz inclusão. Porque nenhuma lei ensina um professor a diferenciar uma aula. Nenhuma lei cria confiança entre famílias e escolas. Nenhuma lei elimina preconceitos. Nenhuma lei constrói equipas. Nenhuma lei gera pertença.


A inclusão nasce, todos os dias, na qualidade das relações humanas. E enquanto continuarmos a alimentar o ruído em torno dos diplomas, corremos o risco de deixar para trás precisamente aqueles que dizemos querer incluir.


 
 
 

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