Entre marido e mulher não se mete um diagnóstico!

Confesso que nunca me agradou a frase "Entre marido e mulher não se mete a colher.". Até porque basta ver o número de casos de violência doméstica e as dificuldades relacionais entre os casais. E por isso me lembrei desta nova versão, "Entre marido e mulher não se mete um diagnóstico", para poder dizer o seguinte. É comum que num casal, ambos se possam questionar acerca do que se passa com o outro, principalmente quando isso afecta a relação e dinâmica de casal. Mas também quando se percebe que aquilo que se pode estar a passar ultrapassa a própria compreensão da pessoa mais directamente afectada. Ou seja, tem sido mais frequente nos últimos tempos ser-me perguntado - Como é que eu posso ajudar o meu marido a descobrir que talvez ele tenha uma Perturbação do Espectro do Autismo? É verdade que a questão também pode ser colocada ao contrário, do marido em relação à esposa. Mas a frequência tem sido maioritariamente a primeira. Ora vamos lá ver porquê, como é que isso pode acontecer e como se pode ajudar neste processo, evitando os dissabores causados no seguimento de frases como, "Não me venhas outra vez com aquela conversa de que eu tenho Autismo!".

Nos últimos 15 anos têm-se falado e escrito mais sobre o Autismo do que em outra altura qualquer. E isto tem acontecido principalmente em contextos fora do domínio médico e cientifico. Ou seja, continua a ser feito muita investigação e esta tem sido cada vez mais difundida junto de um público cada vez mais abrangente e numa linguagem acessível e compreensível por todos. Mas também tem sido possível verificar que cada vez mais grupos de pais com filhos autistas ou grupos de autistas adultos têm criado sites, blogs e espaços de partilha de informação, situações vividas e contadas na primeira pessoa. E tudo isto tem aproximado mais as pessoas de uma forma geral do tópico do Autismo. Seja porque têm algum familiar com este diagnóstico, ou porque estão a viver o preciso momento em que se está a fazer o despiste de Perturbação do Espectro do Autismo no seu filho. Mas também porque há cada vez mais pessoas adultas a quererem saber o que se passa consigo ou com os seus companheiros.


São muitas as pessoas e principalmente as mulheres que têm procurado ler sobre o Autismo.E isto não quer dizer que os homens não o façam, porque também o fazem. Mas as mulheres fazem-no em maior número. Seja porque são mães e estão a querer aprender mais sobre esta condição e de como interagir com os seus filhos. Mas também porque podem ser mulheres adultas a procurarem compreender o que se passa consigo, quando já foram a duas ou mais consultas de psiquiatria e psicologia e não ficaram satisfeitas com a avaliação/diagnóstico que tiveram acerca da sua pessoa e das suas dificuldades.


E também tem acontecido que nos casais se tem observado cada vez mais esta questão, e mais frequentemente feita pela esposa - "O que se passa com o meu marido?", "Ao fim destes anos todos eu continuo a não o compreender?", "Mesmo com a terapia que fez o ano passado continuou tudo muito igual.", "Eu quero muito continuar com ele mas assim é muito difícil." ou "Eu sinto que o meu marido não compreende ele próprio o que se passa consigo e está em grande sofrimento e eu quero-o ajudar mas não sei como!".


Estas e outras frases representam as questões que mais frequentemente me são colocadas. E adicionalmente pergunta-me, "Será que pode ser autismo?", "O nosso filho foi recentemente diagnosticado com autismo e eu também acho que ele é igual ao pai.", ou "Eu tenho andado a ler cada vez mais sobre o autismo e cada vez mais parece que consigo ver naquelas descrições muitas coisas do meu marido e não sei como lhe dizer.".


Tudo isto é compreensível. Primeiro porque na maior parte destas situações estas questões ocorrem quando na família já existe ou está a ser feito um despiste de uma Perturbação do Espectro do Autismo. Atendendo a que esta condição tem, não só mas também, uma explicação de origem genética, é esperado que um dos pais possa ter algumas características semelhantes, um diagnóstico igual ou uma outra perturbação neuropsiquiátrica. O facto da questão ser mais frequentemente colocada pelas mães também se prende com o facto de haver uma maior prevalência de casos de autismo no sexo masculino. Mas também pelo facto das mulheres serem mais proactivas e envolvidas nesta questão de procurarem compreender o que se poderá passar com o seu companheiro, nomeadamente nas questões respeitantes à sua saúde.


No entanto, também é compreensível a dificuldade que pode ser em poder abordar o seu companheiro para lhe dizer que poderá ser importante poder fazer uma consulta para avaliar algumas das suas características e que estas poderão ter a ver com o facto de ser autista. Em momento algum se espera que a situação seja fácil. Tal como não é para os pais poderem ouvir isso acerca dos seus filhos. Mas ainda assim, são muitos os pais que dizem o quanto importante isso foi para poderem melhor compreender os seus filhos, mas também para os poderem ajudar. E da mesma maneira também se sabe que cada vez mais adultos quando descobrem que são autistas, ainda que nesta fase tardia, sentem que é um alivio e uma melhor forma de se poderem compreender. Como tal, também se antevê que seja igualmente importante e transformador no casal e na família que isso possa ser compreendido junto de um profissional especializado.


Vamos partir do principio que os casais estão juntos, seja com filhos ou não, porque escolheram esse projecto conjunto. E dentro daquilo que ambos têm conseguido levar para a relação consideram-se felizes e querem continuar juntos. No entanto, o facto de um dos membros do casal poder ter uma Perturbação do Espectro do Autismo e ainda por cima não o saber pode ser, e será certamente, um factor de maior instabilidade. Até porque o próprio terá certamente, mais ou menos momentos, consoante a gravidade da sua situação, momentos de desorganização e instabilidade, geradoras de momentos de conflito e tensão no casal. Como tal, poder ser feito alguma coisa sobre esse facto, e quanto mais precoce melhor, será determinante para a longevidade do casamento, mas principalmente para o sentimento de bem estar e felicidade.


Até porque o facto de um dos progenitores ser autista não é sinónimo de fazer tudo errado, seja na relação de casal, mas também ao nível familiar a lidar com os filhos. Têm sido encontrados muitos e bons exemplos de pais, marido e mulher autistas e que têm competências fantásticas na gestão do dia-a-dia com os filhos mas também na relação com o seu companheiro. No entanto, não deixa de haver um conjunto de outras situações que apresentam um potencial risco para causar mal estar. E se não for atempadamente ajudado causará mais estrago do que outra coisa qualquer.


Mas ainda assim, como poder dizer isso à outra pessoa?


Será importante que ao abordar essa questão com o seu companheiro o possa fazer de uma forma não acusatória e culpabilizante. E principalmente será importante que a conversa possa ser tida fora da situação de conflito e si. É muito provável que o companheiro quando confrontado com alguns dos exemplos habituais que fazem parte das suas características do Espectro do Autismo as possa negar, dizendo que não se apercebe que isso possa ser um problema. Lembre-se que isso também é compreensível de acontecer. Nessas situações a pessoa não se consegue estar a visualizar e a auto-avaliar. Para além disso, se a situação do Espectro do Autismo se vier a confirmar, lembre-se que uma das possíveis características é esta dificuldade em se aperceber de certas coisas no seu ambiente envolvente e ainda mais em relação a si próprio. Poderá ser importante ir ao encontro das situações que acabam por trazer maiores dificuldades ao próprio, ao casal ou à família e procurar colocar a situação como uma procura de solução para o problema. Situação esta que apesar de estar a ser avaliada de forma diferente por ambos não deixa de ser uma situação que causa mal estar. E não esquecer que na maior parte das vezes este companheiro já em si está em sofrimento, mesmo que não pareça. Lembre-se que uma das características possíveis é precisamente essa comunicação em se expressar ou expressar as suas emoções.

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