top of page

E se, de repente, um conhecido disser que você não parece autista, isso é...?

A frase usada para o titulo é de um anuncio já antigo - E se, de repente, um desconhecido lhe oferecer flores, isso é...Impulse!! Tal como o anuncio que já é antigo, também o é esta ideia de as pessoas acharem que isto ou aquilo é ou não é do espectro do autismo. E então no que toca às mulheres ainda mais e com mais frequência acontece. E neste caso não se trata de Impulse mas sim de Impulso. No sentido da palavra em que as pessoas parecem não reflectir o suficiente sobre o assunto e respondem às coisas de uma forma irreflectida ou pouco reflectida. Assumem que autismo é aquilo que vem na DSM e nada mais. Afinal se é um manual de diagnóstico das perturbações mentais, aquilo que lá consta deve ser uma verdade cientifica, certo?, perguntam-se muito frequentemente algumas pessoas. E se os próprios investigadores e profissionais de saúde usam aquelas designações é porque fazem sentido, correcto?, questionam outros tantos. Já para não falar daquilo que muitos pensam, e que desconhecendo a DSM ou os critérios de diagnóstico, se baseiam em filmes, alguns deles já antigos ou de séries mais actuais. Mas se formos fazer uma breve pesquisa online sobre o assunto da representação do espectro do autismo nos filmes podemos ver que há bastantes concepções enviesadas sobre a representação de um verdadeiro espectro do autismo. Seja porque parece estar muito ancorado em determinados chavões (e.g., ausência de contacto ocular e de relações sociais, etc.). Eu sou a mais velha de cinco irmãos, todos eles rapazes, por isso eu sei o que é que as pessoas esperam dos rapazes e das raparigas!, refere Julia (nome ficticio) num tom professoral. Os meus dois irmãos mais novos são do Espectro do Autismo, o do meio tem PHDA e o segundo mais velho uma Dificuldade Intelectual e Desenvolvimental, acrescenta. Apesar de todas as minhas necessidades e do facto de ser uma pessoa que partilhava muito pouco as minhas reflexões, o certo é que só mais tardiamente descobriram o meu diagnóstico!, remata Júlia. Antes era uma menina, percebe?, pergunta-me.


Estava sossegada porque era uma menina. Brincava sozinha porque era uma menina e só tinha irmãos rapazes. Mais tarde não ia para a rua porque era uma menina e além disso tinha de ajudar a minha mãe a cuidar dos meus irmãos. Na escola e tendo em conta que aquilo que mais gosto é de aprender procurei absorver todo o conhecimento possível, facto que era de grande contentamento para os meus professores e pais. Apenas tive um namorado e foi com ele que casei. Ninguém sentiu que isso fosse alguma coisa estranha. Já a minha mãe e antes dela a minha avó tinham feito o mesmo, sendo que entre elas e eu ia uma distância tremenda. Cresci a aprender que ser menina era viver este sofrimento. E como via que a minha mãe e avó tinham igualmente esta expressão de sofrimento, assumi que as coisas seriam assim. Mesmo que ao longo da escolaridade obrigatória percebesse que muitas das minhas colegas eram diferentes. Mas eu não percebia porque elas faziam ou eram assim. E também não houve oportunidade de elas me explicarem. Fosse porque eu estava muito envolvida no estudo ou porque elas também não me percebiam. Por mais esforços que fizesse parecia não chegar a ser como elas. Estava perto, mas não era igual a elas. Aprendi a vê-las. Estudei-as, assim como todas as novelas e filmes que me pareciam ser adequados. Não pude aprender com a minha mãe e escusado será dizer que com os meus irmãos muito menos. O meu marido parecia apreciar a forma de eu ser. Dizia-me espantado que não sabia onde eu tinha aprendido a ser daquela maneira sendo que nunca me conheceu nenhuma amiga. Haveria de haver muitas mais coisas que ele haveria de ficar espantado se eu lhe tivesse contado tudo o que me ia na cabeça. Nunca achei que ele me fosse compreender. Um dia não sei o que se passou e disse-lhe que queria o divórcio. Fiquei a saber que a minha família também se divorciou de mim. Os meus pais disseram em uníssono - Isso não é coisa de uma mulher! Foi na mesma altura em que fui diagnosticada como autista. Passei um período muito complicado na minha vida. Sai de casa e os meus pais não me quiseram aceitar. Não tinha ninguém a quem recorrer. Aluguei um quarto. Senti que a minha saúde mental piorava de dia para dia, mas ainda assim não conseguia sair do quarto. Foi a senhora que me alugou o quarto que um dia foi ter comigo já desnutrida e sem forças e chamou uma ambulância. Enquanto esperávamos disse-me que também ela tinha tido uma filha com aquelas características. A senhora diz que nunca chegou a saber o nome. Eu fiquei a saber que se chama Perturbação do Espectro do Autismo. Na altura percebi que ser menina ou mulher não era problema algum. E explicaram-me que ser autista também não, ainda que eu sentisse que ser mulher e autista fosse tudo menos bom. Não que eu não gostasse de quem eu sou. Sempre gostei da Júlia dentro da minha cabeça, das minhas fantasias. Mas apenas eu é que gostava dessa Júlia, da de dentro. Porque da Júlia de fora ninguém gostava e penso que eu também não. Por mais que me quisesse zangar quando ouvi o diagnóstico e por perceber que afinal poderia ter sido tudo tão diferente desde o inicio não consegui. A vontade de me perceber e de compreender o mundo era tão grande que não me zanguei. Mais tarde é que aprendi a fazê-lo. Da mesma forma que aprendi a viver. É como se tivesse morrido e tido uma nova oportunidade. Muitas vezes brincava com isso. Não que o soubesse fazer, mas percebi que quando dizia essa frase as pessoas riam e por isso usava-a com alguma frequência quando me perguntavam algumas coisas. Nem tudo foi assim tão fácil. Até porque durante muito tempo sofri por não saber quem eu era. Havia a Júlia de dentro que a conhecia muito bem, mas o mesmo não acontecia com a Júlia de fora. Na verdade não sabia quem eu era. Era uma construção social e ainda por cima com o meu consentimento e participação directa. Por isso a primeira pessoa com quem aprendi a zangar-me foi comigo própria. E a seguir com os outros. Se por um lado sentia conhecer todo os recantos da minha pessoa, mesmo os mais recônditos. Sabia que não era eu mesmo. Nunca o tinha sido. E isso fez-me questionar sobre quem eu seria. Foram momentos muito difíceis. Hoje são menos. Mas sou mais mulher, mais Júlia, de dentro e de fora, compreende?, perguntou-me para me dar a palavra.


As mulheres vivenciaram todos estes anos e continuam a viver em certa medida vidas desafiadoras em relação a esta construção do conceito de autismo no feminino. Mas com o diagnóstico enquanto processo compreensivo e não apenas como um conjunto de achados comportamentais para conferir o diagnóstico. Associado à evolução e aceitação da sua identidade, as mulheres foram sendo capazes de resistir a narrativas negativas acerca desta condição, abraçar os seus pontos fortes e desenvolver estratégias de enfrentamento mais adaptativas.


58 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo
bottom of page