E se de repente encontrar um agente de autoridade, isso é?

Aviso que a resposta não é "Impulse", como no anuncio do desodorizante. E já agora, sabem aquela anedota de um policia e um autista que se encontraram na rua? Não? Eu conto-vos. Um policia mandou parar um autista quando este ia a ter uma condição irregular. Quando o cumprimentou com o gesto habitual para um agente de autoridade, ficou surpreso por o jovem adulto ter feito o mesmo. Suspeitou de consumo de álcool. Avisou que iria fazer o teste e perguntou se o jovem se importava. Este respondeu que sim. Não sabia do que se tratava e além disso nunca tinha bebido álcool. O agente desconfiou de drogas. A resposta obtida foi muito semelhante, ainda que num tom mais elevado e com alguma agitação. O agente de autoridade começou a desconfiar fortemente e chamou por reforços tendo em conta que o jovem adulto aparentava por volta de 1,90 m. de altura. Vocês já perceberam que isto não se trata de nenhuma anedota, certo? Eu não sei contar anedotas, mas vou contar-vos porque é importante que os agentes de autoridade possa ter treino e sensibilização para agir com pessoas autistas. Pare a sua viatura na berma da estrada, assinale convenientemente a sua viatura e leia o seguinte texto em segurança. A segurança sempre primeiro.

Imaginem uma situação bastante quotidiana de típica sala de espera numa consulta hospitalar. A mãe tinha acompanhado a sua filha adolescente a uma consulta de psicologia. Ao fim de algum tempo a psicóloga tinha pedido à mãe para esperar na sala de espera, ao que a mãe acedeu perfeitamente. Enquanto esperava decidiu usar aquele tempo para trabalhar. Abriu o seu portátil e começou. Ao fim de algum tempo começou a ficar incomodada com o barulho de algumas pessoas na sala. As crianças que brincavam, as pessoas ao telemovel e até um dos pais estava a cortar as unhas das mãos. A situação começou a tomar proporções mais difíceis para esta mãe. Ao fim de algum tempo a mãe começava a falar consigo própria mas com o volume da voz mais baixo. "- Quem é que traz crianças para um hospital, ainda por cima se não vão ser consultadas?", "- Estas pessoas não têm maneiras a falar ao telemovel!", "- Onde é que já se viu vir cortar as unhas para aqui?", entre outras coisas. O certo é que a mãe não estava a notar que o seu tom de voz tinha subido bruscamente e a sala de espera já estava toda a olhar para si, inclusive as crianças que já se tinham afastado. Alguém decidiu interpelar a mãe. Talvez não o tenha feito da melhor maneira. O certo é que ao fim de um pouco o segurança do hospital tentava segurar a mãe e não aguentou com o murro e caiu ao chão. Alguém chamou a PSP e a situação ainda demorou um pouco e teve de ser esclarecida na esquadra local.


Esta história também não é nenhuma anedota. Ninguém sabia que esta mãe tem um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo. Tinha sido feito recentemente. A própria ainda nem sequer estava ciente. A sua hipersensibilidade táctil e auditiva nunca ajudaram. Assim como a sua falta de filtro social. E aquilo que sente que é para ser dito, diz. Seja a quem for, mesmo aos agentes de autoridade. Esta não é a sua primeira situação em que se vê envolvida. No entanto, esta é a primeira situação em que se vê envolvida enquanto pessoa com um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo.


E o que é que isto quer dizer? Que as pessoas autistas passam a estar autorizadas a dizerem ou fazerem aquilo que quiserem no espaço público? E que como tal vão ser considerados inimputáveis destes seus comportamentos. E que os agentes de autoridade não lhes poderão passar a fazer nada? Nada disso, fiquem sossegados uns e outros. As pessoas, os cidadãos, autistas ou não serão olhados de forma igual perante a lei vigente. No entanto,. será importante enquadrar os comportamentos, ou pelo menos, determinados comportamentos à luz de uma quadro de referência, neste caso, do seu perfil de funcionamento.


Ou então, a situação do adolescente de 14 anos a quem foi pedido que guardasse uma determinada quantidade de algo na sua mochila, algo esse que o próprio desconhecia. Esse mesmo algo tratava-se de uma quantidade considerável de cannabis. Uma situação possivel de rusga na escola em que determinadas pessoas normalmente identificadas são chamadas. E nesse entretanto, estas mesmas pessoas solicitam a este seu colega que não percebendo o porquê acabou por aceitar. Estando o grupo presente às forças policiais, este mesmo jovem não tendo conhecimento de como agir acabou por começar a demonstrar alguns sinais de irrequietude e alguma agitação psicomotora. Referindo até que desejava abandonar o lugar. Começando a levantar suspeitas sobre o seu comportamento foi segurado por um dos auxiliares da escola e que imediatamente foi afastado pelo próprio adolescente. A situação tornou-se rapidamente mais inflamada e alguém decide dizer para ir ver a sua mochila. Escusado será dizer que a seguir o aluno foi levado para a esquadra da PSP e os seus pais foram chamados imediatamente. Este adolescente tem um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo e Défice de Atenção. E façam um favor, não comece a referir que isso é uma desculpa para traficar. Ninguém diz que tem um diagnóstico de autismo para poder traficar.


Estas e situações semelhante são comuns de ocorrer em contexto escolar e alguns dos alunos com Perturbação do Espectro do Autismo apresentam como característica comum uma maior ingenuidade, o que os leva a entrar em situações mais complexas como estas.


E o que dizer da situação do homem de 43 anos que estava numa sexta feira de verão, muito semelhante como as que têm estado num bar típico da cidade de Lisboa. Tendo em conta que em muitas situações sociais tem maior dificuldade na interacção decidiu fazer uma medicação para poder ficar mais relaxado. Entretanto, tinha percebido nas situações em que tinha ido a bares que as pessoas que ingeriam bebidas alcoólicas ficavam mais alegres. Facto que este mesmo homem decidiu fazer. Precisamente porque o seu objectivo era ficar mais alegre. Ao fim de um pouco a sua alegria começava a aparecer, mais e mais visível, e chamou a atenção de uma mulher. Ao que este homem pensando tratar-se de algum avanço da sua parte decidiu avançar para ela, não percebendo a situação. É escusado de dizer que ao fim de algum tempo algumas das pessoas do estavam em seu redor e ele já nem conseguia ver a mulher. Ao que decidiu abrir espaço. As pessoas entenderam isso como uma agressão e decidiram empurra-lo. Estou certo que a vossa imaginação vos conseguirá dizer o que pode ter acontecido a seguir. Este mesmo homem também tem uma Perturbação do Espectro do Autismo e uma Perturbação de Ansiedade Social.


A este ponto e percebendo que nenhuma destas situações é anedota gostaria de dizer algumas coisas: 1) Isto não está sempre a acontecer; 2) Isto não está sempre a acontecer com as pessoas com um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo; 3) Algumas pessoas com Perturbação do Espectro do Autismo poderão ter comportamentos premeditados e intencionais, mas isso nada tem a ver com a sua condição do Espectro do Autismo, mas sim com outras questões; 4) É fundamental que as próprias pessoas possam ser ajudadas a compreender o guião social e outras competências para as proteger destas e de outras situações; 5) É fundamental que as forças de autoridade possam ter formação sobre como agir com pessoas com determinadas características, nomeadamente com uma Perturbação do Espectro do Autismo.

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