Doutor, pode ver se tenho alguém dentro da minha cabeça?

"- António (nome fictício), gostava que me falasses da forma como vês as outras pessoas.", pedi-lhe. "- Como assim?", perguntou-me imediatamente. "- Não percebi! O que quer que lhe diga das outras pessoas? E de quem especificamente?". "- E a ti? Como te vês a ti?", perguntei-lhe um pouco mais à frente. "- Agora é que me confundiu completamente!", respondeu-me logo de seguida. Estas questões quando colocadas no âmbito de uma terapia com uma pessoa autista podem ter estas ou respostas semelhantes. Mas não se apressem a tirar conclusões precipitadas. Qual a forma como as pessoas pensam sobre as outras pessoas? E sobre si próprios? E de que forma, imaginam e organizam o próprio pensamento na relação com os outros? O que sabemos sobre as pessoas que encontramos no nosso quotidiano e sobre as situações em que as encontramos? E como entendemos esse conhecimento quando tentamos entender, prever ou recordar o seu comportamento? Os nossos julgamentos sociais são totalmente determinados pelo nosso conhecimento social ou são influenciados pelos nossos sentimentos e desejos? E se assim o forem, como acontece nas pessoas no Espectro do Autismo? E se também acontece nas pessoas no Espectro do Esquizofrenia, como diferenciamos?

Muitas das perguntas feitas na introdução são possíveis de serem respondidas a partir da Cognição Social, enquanto abordagem dentro da Psicologia. E atendendo a que sabemos que há um compromisso precisamente na cognição social, enquanto capacidade de compreender os outros e a si próprio, no Autismo e na Esquizofrenia. É importante procurar perceber como é que esta característica tão frequentemente presente em ambas condições pode ser diferenciada para ajudar a fazer um diagnóstico diferencial quando nos deparamos com estas situações.


Existem inúmeras evidências convincentes que apoiam a idéia de que as perturbações do Espectro da Esquizofrenia e da Perturbação do Espectro do Autismo partilham alguma sintomatologia e deficit do neurodesenvolvimento em vários domínios, tais como a interacção social, Teoria da Mente, funções executivas, ou a presença de alterações neurológicas especificas. Da mesma forma que ambas as condições podem ser colocadas num contínuo que envolve múltiplos factores genéticos, deficit neuro anatómicos e funcionais de determinadas regiões do cérebro, circuitos e processos neuronais. Ainda assim, quando estamos presentes a duas pessoas, cada uma com a sua respectiva condição é possivel perceber o seu perfil de funcionamento diferente, para além daquilo que são as características de diagnóstico existentes.


A cognição social refere-se a um grupo de funções inter-relacionadas: (i) percepção emocional básica, como o reconhecimento do afecto, processamento do rosto, olhar, detecção de movimento e fixação visual de estímulos sociais; (ii) orientação social; (iii) percepção de pistas sociais; iv) julgamento sociais complexos; (v) estilo de atribuição; e (vi) teoria da mente (atribuição de estados mentais).


Dentro desta perspectiva, ambas as condições poderiam ser colocados num continuo de uma dimensão que variassem de inferências do estado mental que são insuficientes no caso das pessoas do Espectro do Autismo a atribuições mentais excessivas que são mais características das pessoas do Espectro da Esquizofrenia, facto que suporta a hipótese de que a psicose e o autismo são perturbações diametrais do cérebro social.


Uma forma possivel de avaliar a cognição social é dar às pessoas trechos de videos em que determinadas personagens estão a intervir entre si numa situação social. E em determinados períodos desta visualização é-lhes pedido para responderem a umas questões relativamente à interpretação que estão a fazer do video. Por exemplo, Por que pensas que a Anabela fez aquele comentário? ou Como é que o Miguel se está a sentir? As possíveis respostas existentes leva a que posam ser cometidos diferentes tipos de erros. Nomeadamente, sobrementalização, ou seja, é atribuído um estado mental quando ninguém está presente, ou submentalização, ou seja, quando um determinado estado mental não é identificado quando presente, mas também uma ausência total de uma inferência mental, ou seja, fazer uma atribuição de causalidade física a uma situação social ou estado mental. Um desses testes é o Movie for Assessment of Social Cognition (MASC).


Apesar de ambos os grupos do Espectro do Autismo e da Esquizofrenia mostrarem um perfil de tipos de erro semelhantes, seja em termos de sobrementalização, submentalização ou ausência de mentalização. Quando comparamos as suas respostas com pessoas com um desenvolvimento tipicamente normativo encontramos uma percentagem mais baixa de sobrementalização e o grupo do Espectro do Esquizofrenia também apresenta um percentagem mais baixa de submentalização. O desempenho nestas tarefas costuma estar mais comprometido de uma forma geral no grupo do Espectro do Autismo ainda que as diferenças não costumem ser significativas. Classicamente, alguns pessoas com esquizofrenia descrevem uma perda progressiva de contacto, competências de mentalização e orientação social que antes estavam adquiridas. Contrariamente às pessoas no Espectro do Autismo, que desde a infância que apresentam esta dificuldade.


Presume-se que as dificuldades na comunicação e interação social sejam sustentadas por alterações na cognição social referentes a processos mentais relevantes para a compreensão das pessoas e das suas interações, incluindo o self. A cognição social abrange uma ampla gama de processos cognitivos, como motivação social, reconhecimento de emoções, atenção social e aprendizagem social. Também inclui a capacidade de atribuir estados e intenções mentais a si e aos outros, uma competência geralmente chamada de empatia cognitiva, mentalização ou teoria da mente. Não obstante este compromisso, tal como demonstrado nos diferentes testes usados para o efeito. Talvez possa ser importante compreender como é que a cognição social é feita pelas pessoas no Espectro do Autismo e qual o papel que esta representa para os próprios. Aparentemente observamos uma redução na capacidade de imaginação no Espectro do Autismo e um aumento no Espectro do Esquizofrenia. No entanto, em termos de observação clinica constatamos que muitas pessoas no Espectro do Autismo apresentam uma capacidade imaginativa interessante. Ainda que a mesma parece estar conectada com uma realidade própria sua. Esta capacidade de imaginação não está apenas ligada à capacidade criativa mas também a outros aspectos da interacção social. Seja em criança o brincar ao faz de conta, mas também ao longo do desenvolvimento, na capacidade de poder fazer uma leitura ao comportamento social dos outros.

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