Distanciamento físico versus social: vai uma distância entre os dois

Nas ultimas semanas o nosso léxico aumentou com todo um conjunto de novas palavras e conceitos. Desde o COVID-19 à necessidade de distanciamento social. A declaração do estado de emergência previsto para amanhã vem ainda mais aumentar a importância de falarmos acerca destas questões. Quando tudo isto do surto do Coronavirus iniciou provavelmente não se pensava no impacto de algumas das medidas. A ideia mais imediata era travar a escalada da situação do ponto de vista epidemiológico. No entanto, e à medida que se foi percebendo o arrastar da situação houve quem começasse a pensar que a medida de "distanciamento social" poderia travar a escalada do vírus mas teria certamente impacto do ponto de vista social e emocional. E outros foram pensando ainda mais além, nomeadamente na conceptualização. Assumindo que parece não fazer sentido a designação de distanciamento social mas usar antes o conceito de distanciamento fisico. Pode parecer uma questão mínima. Mas a distância entre os dois é grande e diria que o impacto e o alcance que se deseja de uma medida destas também.

Ao longo destas semanas tenho tido a hipótese de ter no âmbito dos acompanhamentos um leque variado de novos temas emergentes decorrente da situação do Coronavirus. Para além de todo um conjunto variado de teorias que podem explicar a situação, passando por situações de aumento de ansiedade e preocupação, medidas de prevenção e protecção. Muitos dos que acompanho com uma Perturbação do Espectro do Autismo têm referido que esta medida de "distanciamento social" não lhes é estranha. Isto na medida que alguns/muitos deles sentem que ao longo das suas vidas esta prática, ainda que com algumas diferenças, já vem sendo a ser posta em prática. E que em jeito de piada sentem que este momento parece estar a ser bem mais difícil para as pessoas neurotipicas, ou seja, sem uma Perturbação do Espectro do Autismo (PEA).


É conhecido que nas pessoas com Perturbação do Espectro do Autismo, seja pelas características relacionadas com a interacção social ou da comunicação, para além de sentirem menos desejo em fazerem com determinada frequência contacto social. O certo é que há um conjunto significativo de pessoas no Espectro do Autismo que sente vontade e até mesmo necessidade em se resguardar. Também porque apresentam um conjunto de características relacionadas com as hipersensibilidades e que como tal o ruído e ou outras questões sensoriais acabam por ser sentidas como mais difíceis. Para além disso, há uma gama variadas de situações sociais que acabam por ser causadoras de maior ansiedade ao longo do dia e que levam a um aumento do cansaço. E como tal é frequente chegarem a casa a meio do dia ou no final do dia e tenham apenas vontade em estar isolados e a poderem fazer as coisas que lhe causam prazer, relegando para segundo plano o contacto social.


Mas para além disso se há coisa que os meus clientes têm competência para fazer é análise dos conceitos usados, mesmo que em algumas situações esta análise seja feita de uma forma literal. São muitos os que acompanho que me têm referido que o conceito de distanciamento social parece não fazer sentido. Até porque referem - as pessoas continuam em contacto via redes sociais ou telemóvel. O que não deixa de fazer sentido. Se pensarmos bem não deixamos de contactar com os nossos familiares, amigos, colegas de trabalho ou da escola, professores e outros. As redes sociais ou outros programas como o Skype, Discord, Zoom, Teams, etc., permitem que nos consigamos manter em contacto seja por voz e principalmente por video com pessoas, seja individualmente mas também em grupo. Algo que muitos jovens o sabem perfeitamente. Principalmente aqueles que jogam videojogos pela internet em modo multiplayer. Ou então os profissionais que fazem uso recorrente das videoconferências ou em grupos de trabalho diário mas à distância. No meu caso é algo muito frequente de haver no quotidiano atendendo a que um número considerável de consultas são realizadas on-line. E principalmente aqui não sinto de todo que a relação terapêutica esteja ameaçada, porque não está.


Como tal, esta questão do distanciamento social parece não fazer sentido. Mas sim antes a sua substituição pelo conceito de distanciamento fisico. Porque no fundo é isso que importa, o distanciamento fisico. E pelo contrário a questão social, mais do que nunca importa manter e porque não aumentar nem que seja na qualidade da mesma. Até porque é sabido que antes mesmo do irromper desta situação do Coronavirus os números relativos à saúde mental eram e continuam a ser preocupantes, não apenas no nosso pais mas também a nível global. As perturbações de ansiedade e do humor (depressão) estão presentes de forma significativa. Para além disso há que ter em conta todos aqueles que não tendo um diagnóstico efectivo podem ter alguns traços comportamentais e uma maior predisposição para o desenvolvimento destas perturbações. O que pode significar que durante e após esta situação do Coronavirus se verifique um aumento do número de situações que necessitem de apoio, seja especializado mas também do ponto de vista da rede de apoio social. Adicionalmente, o impacto que toda esta situação irá ter ao nível económico e do funcionamento das Organizações poderá fazer com que o número de despedimentos ou dispensa possa aumentar e como tal passe a haver outras dificuldades sociais em mãos. Nem tudo é assim tão catastrófico. Isto porque em toda esta situação haverá e já tem havido exemplos disso uma ou mais possibilidade para reflectir acerca de mudanças do mindset e do paradigma vigente até então. Há um conjunto de pessoas que tem visto e criado oportunidades de negócio. Mas também há pessoa que tem aproveitado para mudar alguns aspectos na sua vida no quotidiano.

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