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Diagnósticos (a)ssíncronos

Provavelmente a imagem com estas 12 mulheres junto à piscina faz lembrar a alguns de vocês a actividade de natação artística ou sincronizada dos jogos olímpicos. Aquele preciso momento em que todas elas vão saltar uma por uma de forma sincronizada e igual para a piscina. Para quem gosta penso que terão adorado a prestação das nadadoras russas Svetlana Romashina e Svetlana Kolesnichenko nos últimos jogos. Se não viram vão espreitar. Mas voltando à imagem que acompanha este texto é incrível verificar o quanto semelhantes todas aquelas nadadoras se parecem. Alguns dirão que deve ser a mesma pessoa, certo? Mas não é. Todas elas são diferentes entre si. Diria mesmo bastante diferentes. Nomeadamente, naquilo que são algumas das suas características pessoais.


Mas toda esta introdução porquê? Porque no espectro do autismo é muito comum haver várias situações semelhantes no que diz respeito a confundir características das pessoas. Principalmente no caso das mulheres. Se por um lado parece já nem fazer sentido falar do quanto errado parece ser manter uma posição rígida ao referir que o rácio de casos de autismo é de 4 rapazes para cada 1 rapariga. O certo é que a cada dia que passa continuamos a verificar que ainda existem inúmeras mulheres diagnosticadas erradamente, quando o seu diagnóstico deveria ser o de Perturbação do Espectro do Autismo.


Mas afinal de contas que diagnósticos errados é que estas mulheres recebem? Conseguem adivinhar? Sei que algumas das leitoras deste site terão muito a dizer sobre este facto e com experiência própria. É incrível continuar a verificar que há mulheres com cerca de 35 anos que nos chegam à consulta e que já receberam ao longo do desenvolvimento diagnóstico de Dislexia, Défice de Atenção, Depressão, Perturbação de Ansiedade, Perturbação Bipolar, ou Perturbação da Personalidade Borderline. Isso mesmo, todos estes diagnósticos atribuídos à mesma pessoa ao longo de várias idas a consultas de psiquiatria e/ou de psicologia e outras especialidades médicas.


É verdade que a Perturbação do Espectro do Autismo é uma condição complexa e intrincada em tantas outras perturbações psiquiátricas. Além da própria expressão diferente no comportamento observável no homem e na mulher autista. Também é verdade que o suportar uma avaliação de despiste para uma Perturbação do Espectro do Autismo apenas com base naquilo que são os critérios tal como estão definidos na DSM-5 não é suficiente. E isso aplica-se não apenas a esta condição.


Mas afinal que outros diagnósticos é que estão a ser atribuídos a estas mulheres? Um deles é o de Anorexia Nervoso, uma Perturbação da Conduta Alimentar. Quem conhece as pessoas autistas tem conhecimento de algumas das suas características em torno da esfera alimentar. Nomeadamente, das situações de restrição alimentar ou interesses por dietas e peso. Juntamente com os comportamentos ritualizados relacionados com a preparação de alimentos e ingestão de determinado conjunto de ingredientes ou pratos repetidamente. E quando começaram a realizar determinado conjunto de estudos científicos nas mulheres com Anorexia Nervosa, começaram a verificar que os questionários de rastreio para o espectro do autismo pontuavam significativamente acima do ponto de corte. Além de nas próprias entrevistas semi-estruturadas para o efeito é possível verificar que apresentam características comportamentais para um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo. Sendo que com isto não estou a dizer que todas as raparigas e mulheres com uma Anorexia Nervosa são igualmente pessoas autistas.


Tem sido cada vez mais descrito na literatura por clínicos das características fenótipicas da mulher autista, sugerindo que estas apresentam maior propensão para demonstrar interesse no outro em termos relacionais. Mesmo que este interesse se possa caracterizar de algo mais ficcional. Mas também por aspectos da vida das celebridades ou moda. Além do mais também tem sido descrito na literatura cientifica que mais frequentemente se verifica que as mulheres apresentam um perfil mais funcional do ponto de vista do guião social e que o usam para interagir com os outros. Esta situação é frequentemente descrita como sendo um comportamento de camuflagem social. Bem como também é observado que as mulheres autistas parecem estar mais conscientes das suas dificuldades sociais e da necessidade de serem, ou pelo menos de o parecem ser, socialmente integradas. Sendo que o uso continuado de estratégias de camuflagem acaba por resultar num aumento dos níveis de ansiedade social, angústia ou depressão, levando a mulher autista a viver todas as situações relacionais como uma função a desempenhar.


Um outro diagnóstico repetidamente fornecido às mulheres autistas é o de Perturbação de Ansiedade Social. Seja pelo que foi descrito anteriormente, mas também pelo facto da ansiedade em si ser um sintoma bastante frequente no espectro do autismo. Além do mais, a Perturbação de Ansiedade Social é frequentemente sub-diagnosticada e muitas vezes confundida com timidez não patológica. E este facto pode contribuir para impedir que as mulheres autistas atinjam uma atenção clinica para esta situação.


As pessoas com Perturbação de Personalidade Borderline, uma condição maioritariamente diagnosticada entre em mulheres, pode mostrar traços que também são típicos da Perturbação do Espectro do Autismo. Por exemplo, a empatia reduzida e a reciprocidade social-emocional, dificuldades na regulação das emoções, na reactividade alterada e nas reações a estímulos ou explosões de raiva, ideias ou comportamentos suicidas acrescidos e/ou suicidas. Tem sido verificado uma maior prevalência de traços autistas entre as pessoas com diagnóstico de Perturbação da Personalidade Borderline. Mas por sua vez, as pessoas autistas também mostram uma maior frequência de Perturbação da Personalidade Borderline. A fim de entender melhor a possível ligação entre estas duas condições, o papel do trauma e da psicopatologia relacionada com o stress deve ser especificamente tomado em contas. As pessoas com Perturbação da Personalidade Borderline são conhecidos por relatar geralmente um histórico de eventos traumáticos. Enquanto emergentes evidências sugerem que o diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo, podem ser considerados como um factor de vulnerabilidade para desenvolver trauma e condições relacionadas com o stress.


As pessoas autistas, devido às suas dificuldades sociais e reciprocidade socio-emocional alterada, mostram um maior risco de serem expostas a eventos socialmente stressantes ou mesmo eventos traumáticos, bullying e rejeição, desenvolvendo posteriormente trauma e condições relacionadas com o stress. Além disso, as pessoas autistas reportam com maior frequência dificuldades em reconhecer e processar experiências traumáticas externas, com uma capacidade mais comprometida para lidar com eventos stressantes. Esta característica pode aumentar a vulnerabilidade para o desenvolvimento de sintomas relacionados com o stress após eventos de vida percebidos por outros como sendo mais suaves. Mas também é provável que os sintomas de Perturbação de Pós-Stress Traumático possa estar a ser sub-reportado e sub-reconhecido nesta população.


Outro exemplo de outro diagnóstico pode ser o de Perturbação de Ansiedade. Algumas das características comportamentais observadas nas pessoas autistas, tais como dificuldades de adaptação ao ambiente ou mudanças mais bruscas no ambiente, inflexibilidade e hiperactividade aos estímulos podem promover a presença de sintomas de ansiedade e de ataques de pânico. Por outro lado, enquanto a Perturbação de Ansiedade e pânico são muitas vezes descritas no espectro do autismo. As características já descritas anteriormente e que são observadas mais frequentemente nas mulheres autistas, e que as levam a mascarar a presença de um diagnóstico de autismo, quando associado a estas características presentes na Perturbação de Ansiedade, acaba por aumentar a dificuldade em reconhecer a situação de autismo.


Não se pense que com isto apenas temos diagnósticos errados. Algumas das vezes em que temos estes diagnósticos anteriormente referidos, eles estão correctos. Contudo, é preciso compreender qual o diagnóstico onde todos eles assentam e que não está reconhecido, neste caso, uma Perturbação do Espectro do Autismo. Para além é preciso recordar que no espectro do autismo o número de outras perturbações psiquiátricas associadas é marcadamente elevada. E por último e mais recentemente tem sido dado um cada vez maior destaque à importância de uma abordagem neurodesenvolvimento à psicopatologia. Com a hipótese de que uma alteração neurodesenvolvimento pode estar na base de diferentes psicopatologias. Sendo que o tipo específico, a gravidade e o tempo da alteração podem resultar, interagindo com outros factores, em diferentes trajectórias da condição, moldando as imagens clínicas como descrito no DSM. Sendo possível que o sexo, como factor genético e biológico, possa desempenhar um papel importante na influência do tipo específico de curso psicopatológico a partir de uma alteração neurodesenvolvimental semelhante. E não esquecer que o sexo pode influenciar o tipo de factores ambientais a que as pessoas podem ser expostos durante toda a vida.


Não se esqueçam de ir espreitar a prestação das nadadoras russas Svetlana Romashina e Svetlana Kolesnichenko nos últimos jogos olímpicos na categoria de natação artística.


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