Desenhar o autismo

Muitos que me conhecem saberão que eu sou a pessoa menos indicada para falar acerca de desenho. Os meus bonecos continuam a ser uma garatuja. Mas nunca deixei de usar a representação gráfica para complementar o meu raciocínio. E também tenho descoberto que para além de ser uma mais valia para mim, também se tornou organizador para algumas das pessoas autistas que acompanho. E como tal tenho sentido que o desenho e o desenhar parece uma forma capaz de ajudar as pessoas na sua expressão, seja artística mas também intrapsiquica. A capacidade de representar aquilo que nem sempre as palavras naquele preciso momento conseguem fazer. Mas também aquilo que o desenhar devolve à pessoa, coisa que o desabafar parece não ser suficiente. O bem estar, o próprio alivio sentido no momento da actividade, o alheamento necessário de toda uma azáfama que constrange. Esta capacidade de representação tornou-se um esquiço no próprio processo psicoterapêutico, um esboço de um projecto maior que dá voz a pessoa autista. E assim muito eu tenho aprendido sobre esta arte ao longo do tempo ao acompanhar pessoas autistas cuja uma das suas áreas de interesse é precisamente esta - o desenho. Eles ensinam-me a desenhar. Eu mostro-lhes como podem desenhar o autismo.

O meu inicio de carreira começou a desenhar-se na Pedopsiquiatria do Hospital de Santa Maria. Como tal, a utilização do desenho como ferramenta de avaliação e terapêutica sempre foi uma presença constante. Ainda mais na altura em que iniciei o meu percurso, a minha orientação era muito mais psicodinâmica do que hoje o é. Ainda assim, o brincar e o desenhar iam sendo ferramentas de comunicação com a criança. Nomeadamente, na forma de possibilitar a esta que pudesse expressar o seu mundo interno, a forma como estava a vivenciar todo um conjunto de experiências. Desde as situações do divórcio dos pais, à morte da avó, a doença prolongada do pai, o acidente do irmão, a mudança de casa ou até mesmo de país, até ao simples acto de desenhar. Simplesmente desenhar, representar o mundo, colocar na folha o desejo de que aquele dia de brincadeira pudesse ficar eternizado naquela folha de papel. Ou os corações que se querem oferecer à professora ou à amiga.


"Desenhar não oferece os obstáculos que a vida oferece.", "O desenho não nos põem de parte ou humilha.", "Na maior parte das vezes o desenho é previsível, sabemos o que vai acontecer, não há inesperados, e se os houver podemos apagar e voltar a fazer de novo.". Estas e outras frases são de pessoas autistas que desenham, seja como expressão artística enquanto hobbie, mas também enquanto ferramenta de trabalho. É verdade que nem todas as pessoas autistas desenham, e dentro daqueles que desenham nem todos parecem ter competências para vir a prosseguir o desenho enquanto profissão. Mas também não é disso que se trata. Mas sim do facto de uma pessoa autista poder gostar de desenhar e isso ser uma forma de poder comunicar com os outro e com o Mundo. Sublinho que não estou aqui a falar de Arte-Terapia, até porque não tenho formação nesta área. Mas sim em poder aproveitar o potencial das pessoas em prole da facilitação da sua comunicação e expressão.


Quantas vezes algumas pessoas autistas ficam sem saber como explicar alguma questão mais subjectiva? Ou sentirem que não têm palavras para dizer tudo aquilo que podem estar a sentir? Muitas vezes acabo por dizer precisamente para eles desenharem o que sentem que se está a passar e depois podermos falar acerca disso, já até de uma forma mais distanciada. Na arte e mais precisamente no desenho parece haver uma maior liberdade e respeito da neurodiversidade. A folha não se envergonha do rabisco e do números de vezes que se apaga. A folha não pergunta qual o diagnóstico da pessoa que a quer usar. Simplesmente aceita aquilo que a pessoa lá coloca. Até porque muitas vezes aquilo que se sente e se procura traduzir em palavras fica difícil para o outro compreender e por vezes de aceitar. Por exemplo, pensamentos mais desorganizados e até mesmo agressivos, quando falados fica mais difícil para o outro de aceitar. Enquanto o desenho parece ele próprio facilitar essa partilha.


Ou por exemplo, uma outra situação que é igualmente comum encontrar nas pessoas autistas é o facto de gostarem não somente de algo, mas também de o poderem repetir quase infinitamente. Por exemplo, a pessoa pode gostar de cães, e este ser um interesse restrito que gosta de explorar com maior intensidade. E que sempre que tem oportunidade procura introduzir o tema nas conversas, de uma forma mais ou menos adequada. E nem sempre as coisas correm da melhor forma. No entanto, através do desenho a mesma pessoa sente que consegue expressar o seu desejo e prazer sentido pelos cães. Para além de que consegue através do desenho sentir que há algumas pessoas que se parecem interessar pelo tópico, quando antes isso não acontecia.


Uma outra situação que me deparo frequentemente são as pessoas autistas que são vistas como imaturas por gostarem de ver determinados desenhos animados. No entanto, quando os desenham parece que a forma como eles próprios se sentem, para além de conter menos sentimento de vergonha, também parece fazer com que as outras pessoas olhem para aquele produto de uma forma diferente. E inclusive possam conferir alguma sensação de competência à pessoa dizendo o quanto estão orgulhosos daquilo que a pessoa fez.


No Espectro do Autismo, muito daquilo que observamos, para além das características comportamentais e dos critérios de diagnóstico, é esta forma única e singular de processar, pensar e sentir o Mundo, o Outro e a Si Próprio. E se na comunicação verbal com o Outro isso parece estar mais comprometido, por via das suas características, mas também pela via das dificuldades neurotipicas em ser capaz de se adaptar. O certo é que o desenho e o desenhar parece enquadrar com maior facilidade esta sua expressão. A arte de desenhar, assim como a música, contem esta linguagem universal que parece aproximar as pessoas.


O desenho parece ter esta capacidade da pessoa representar no papel aquilo que está a acontecer dentro de si. E se tem dificuldade em aceder a esses mesmos conteúdos através da metacognição, facto que ocorre com a devida frequência no Espectro do Autismo. Então o desenho pode ser uma melhor forma de agir sobre essa mesma realidade. É como poder retirar de dentro de si o que sente e depois poder fazer uma autópsia ao desenho e a todos os seus conteúdos. E isso parece ajudar a cumprir vários papéis. Por exemplo, no momento em que a pessoa autista foi desenhar, reporta muitas vezes que se estava a sentir frustrado, zangado, triste, etc. O facto de ter ido desenhar ajudou-o a descentrar em parte daquela questão. E isso pode inclusive ajudar a regular a situação emocional que poderia estar a ficar mais descontrolada. Mas também, e tal como referi anteriormente, permite à pessoa olhar sobre si próprio a partir de uma outra perspectiva, quiçá mais facilitadora.


No processo psicoterapêutico, de auto-conhecimento, transformador e de mudança, o desenho pode ser usado para ajudar a pessoa autista a se conhecer. A saber quais os seus limites, tal como a folha também os têm, e as próprias técnicas, ainda que ambas as situações possam ser desafiadas, tal como o próprio autismo.

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