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Desejos para 2024

Bem vindos a 2024 e ao Autismo n'Adulto, e obrigado por continuarem desse lado. O primeiro texto do ano não vai ser sobre nenhuma novidade. Tal como muitos assuntos no espectro do autismo não o são, pelo menos para algumas pessoas, principalmente pessoas autistas.


Olhando para esta fotografia nem parece um sofá, certo? Mas acreditem que é! No autismo também se ouve muito esta questão do não parece nada. E talvez por isso, muitas pessoas não autistas continuam a acreditar que as pessoas autistas não têm interesse nas relações amorosas e sexuais, quando o têm. Além de desejarem melhor compreender as pistas sociais dos seus companheiros.


E como tal é com alguma frequência que escuto pessoas autistas adultas a dizerem que gostariam de ver melhorada a sua vida romântica e sexual. Sendo que alguns deles se dizem virgens (até mesmo literal) nestas temáticas. E não é espanto nenhum, pensar que uma pessoa jovem adulta ou adulta possa sentir vontade em ter a sua vida romântica e sexual melhorada ou até mesmo iniciada. Muitas vezes o que me espanta é o porquê destas pessoas autistas, homens e mulheres, chegarem à idade adulta com todo um conjunto de questões que poderiam ter sido abordadas em outras etapas anteriores, igualmente importante da sua vida e do seu desenvolvimento psicosexual. E não se ponham a pensar que essa abordagem não aconteceu porque os jovens autistas não se puseram a pedir e/ou fazer manifestações para implementar educação sexual para pessoas autistas na sua escola. Até porque para isso acontecer ainda temos todos, principalmente pessoas não autistas, evoluir bastante na nossa forma de pensar a diferença e diversidade humana.


E por isso é frequente vermos pessoas autistas adultas, muitas delas que souberam do seu diagnóstico já tardiamente na vida adulta. E sentirem que ao longo de um período significativo da sua vida não sabiam como iniciar um conjunto de comportamentos adequados para virem a ter uma relação amorosa e/ou sexual satisfatória. Não porque não sentissem desejo e/ou vontade de virem a ter essa relação. Mas principalmente por sentirem que tal como em tantas outras situações da sua vida, receavam não ser bem sucedidos ou não saber como lidar com a outra pessoa ou a situação em si. E esta iniciativa parte em maior número nas raparigas e mulheres autistas comparativamente ao rapazes e homens autistas. O que também reforça a importância de se falar sobre este tema e em particular de desenvolver mais e melhores programas para a sexualidade junto da comunidade autista. Até porque o conhecimento do número de casos de situações de abuso sexual em raparigas e mulheres autistas é gritante e tem de ser travado.

No que diz respeito à sexualidade e às relações amorosas, todos nós fomos fazendo todo um conjunto de aprendizagens ao longo da nossa vida para procurar e desenvolver relações românticas e sexuais satisfatórias. Por que razão as pessoas autistas não haveriam de desejar o mesmo?! Ainda que alguns tenha feito essa incursão e aprendizagens por tentativa e erro nas sucessivas relações que foram tendo. Enquanto outros procuraram se informar de outros significativos (e.g., pais, amigos, etc.) antes de iniciarem estas experiências. Nas pessoas autistas podemos pensar que em alguns esta procura possa iniciar-se mais tarde no desenvolvimento. Enquanto que em outros este sentimento começa na puberdade, mas a pessoa sente pouca ou nenhuma capacidade para saber como lidar com todo aquele conjunto de manifestações fisiológicas, cognitivas e comportamentais. E como vê ou antecipa com bastante dificuldade abordar estas mesmas questões com outras pessoas, ainda que significativas, acaba por deixar oculto este sentir tão importante e basilar do seu desenvolvimento.


É frequente as pessoas terem um interesse inato tanto por relações platónicas como por relações românticas. De facto, os sentimentos em relação à sexualidade e à educação sexual não diferem entre qualquer um de nós. No entanto, tem sido demonstrado que as pessoas autistas parecem ter resultados significativamente mais baixos em medidas de consciência sexual do que as pessoas não autistas. E se atendermos a um dos aspectos principais dos critérios de diagnóstico da Perturbação do Espectro do Autismo ser a comunicação social. Esta pode afectar a aceitação pelos pares, as capacidades de comunicação, o desenvolvimento psicossexual e a construção de relações. Para além disso, as barreiras sintomáticas de comunicação social podem afetar a capacidade de iniciar e manter relacionamentos, bem como a compreensão do currículo oculto, implicando assim a importância da educação sexual específica para pessoas autistas para atenuar estas barreiras de diagnóstico a uma vida sexual saudável.

A sexualidade é um construto multifacetado que diz respeito a todos nós, de alguma forma, ao longo das nossas vidas. É geralmente definida como um conjunto de comportamentos que atravessam domínios físicos, emocionais e sociais, e a inteligência sexual inclui autocompreensão sobre a sexualidade, competências sexuais interpessoais, conhecimentos científicos exactos e conhecimento científico exato e a consideração dos contextos sociopolíticos e culturais em torno do sexo. Diferem da formação de relações platónicas devido à possibilidade de compromissos emocionais e interacções físicas a longo prazo. E como tal é importante poder pensar e em conjunto com as pessoas autistas, e diria, não apenas com as pessoas autistas adultas, mas também com adolescentes, sobre quais os aspectos que sentem como importantes para a construção de um currículo acerca da sexualidade e das relações românticas que sejam adaptados a si. Ou seja, os temas a incluir neste currículo não são assim tão diferentes daqueles que vão sendo realizados junto de pessoas não autistas. Contudo, as questões que vão sendo sentidas por várias pessoas autistas em relação à temática, carece que este mesmo currículo possa ser adaptado na integração dessas mesmas questões, assim como dos profissionais que vão estar presentes nestas inciativas.


A importância de uma educação sexual de qualidade para todos, incluindo para as pessoas autistas, e a ser feita na escola, é clara, dados os actuais limites e escrutínio da educação sexual para estudantes. Como as características do autismo podem afetar a comunicação, o comportamento e a interação social, as pessoas autistas podem ter dificuldades em compreender e gerir o seu comportamento sexual, levando a consequências negativas como infecções sexualmente transmissíveis, gravidez indesejada e até mesmo situações de abuso sexual. Em relação a este último aspecto tem sido bastante falado que um dos aspectos que parece contribuir é a maior dificuldade de muitas pessoas autistas, principalmente mulheres, em compreender algumas das pistas sociais e comportamentos inadequados dos seus parceiros.


Seja sobre as relações amorosas e sexualidade, mas também poderíamos estar a falar de outros tópicos, é fundamental poder pensá-los e de forma adaptada às pessoas autistas. E se alguém ainda se perguntar sobre do porquê continuamente se pensar no desenvolvimento de iniciativas adaptadas para as pessoas autistas, a resposta é simples. Porque são pessoas e cidadãs(ãos) de plenos direitos. E também porque a sua forma de processar a informação relativamente a si, ao Mundo, aos Outros e à interacção com o meio ambiente, é também ela diferente das pessoas não autistas. E como tal, é fundamental que estas adaptações possam reflectir essas mesmas diferenças. Não o fazer é retirar um direito e liberdade das pessoas autistas. Mas também, e em conjunto com as pessoas autistas poder desenvolver currículos que possam levar a que as próprias pessoas possam procurar e construir o seu bem estar. Até porque o desejo e a vontade de poder ter as relações já existe. As pessoas autistas necessitam de sentir que estão capazes de fazer esse caminho escolhido por si. O que faz ressaltar a importância de algumas das intervenções que são realizadas com as pessoas autistas e que continuam em muito e quase de forma exclusiva a contemplar o treino de competências sociais numa perspectiva de aquisição de competências. E não tanto de intervir para que a própria pessoa autista possa ela própria construir as suas relações e de uma forma que lhe cause satisfação e bem estar. Ou seja, precisamos de repensar a nossa intervenção enquanto profissionais não somente nas competências sociais e outras que possam ser importantes para a pessoa e decididas em conjunto com a pessoa. Mas também poder trabalhar em conjunto para empoderar a pessoa autista, naquilo que é a sua própria identidade e poder ajuda-la a construir uma noção de que não é um erro e de que a sua existência é aquilo mais importante e que ela é a principal agente activa para a proteger e se promover.


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