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Descolonização sensorial

Apaga a luz! dizia já pela terceira vez. Apaga-a, por favor. Já não a aguento mais! suplicava. As olheiras era mais que muitas. Agora não digas nada! sussurrou. Fechou os olhos. Os estores estavam completamente para baixo. Já me tinha dito no passado que a luz tem um ruído muito característico. Não tinha frigorifico. Fazia muito barulho. Além disso a restrição alimentar fazia com que não necessita-se dele. Chegou a gravar-me um audio do ruido do frigorifico e depois editou-o para que eu percebesse o que ela ouvia dentro da cabeça. Não demorei nem dois segundos a levar as mãos so ouvidos, grutando-lhe para desligar aquilo. Foi a única vez que a vi a sorrir. Deve ter achado piada à minha reação ser muito semelhante à dela. Diz que foi a unica vez em que a consegui compreender. Não lhe levo a mal, apesar de no principio em que nos conhecemos ser dificil para aceitar. Hoje percebo melhor.


O titulo é confuso? Talvez o seja por fazer reactivar outras ideias em alguns dos leitores portugueses, mas também ingleses ou espanhóis, entre outros. São todos países colonizadores e que já passaram por processos de descolonização. Mas este é uma descolonização particular; é sensorial. Ainda que hajam muitas coisas semelhantes, ou sentidas de forma semelhante. A imposição de algo, o desrespeito, a agressão ou incompreensão, são alguns dos exemplos que as pessoas que viveram processos de colonização sentiram. Mas também pessoas autistas com características de hipersensibilidade sensorial.


A descolonização sensorial é o processo crítico de identificação e desmantelamento dos regimes sensoriais coloniais que privilegiam os sentidos ocidentais e «civilizados», marginalizando simultaneamente as experiências corporais indígenas, locais e diversas. Procura revalorizar o conhecimento sensorial reprimido e integrar diversas formas de conhecer e de ser, frequentemente através de práticas artísticas, arquitetónicas e terapêuticas.


Entre 1% a 2% da população mundial é autista. Estima-se existir cerca de 78 milhões pessoas autistas. São uma minoria. Como muitas outras minorias. As minorias são frequentemente colonizadas. Faz-me pensar que quando era fumador e incomodava as pessoas, principalmente as não fumadoras, eu pertencia a uma minoria. Sim, os fumadores foram e continuam a ser uma minoria. Mas antes de haver mais e melhor legislação era uma minoria que colonizava muitos dos espaços públicos entre outros. É capaz de haver outros exemplos semelhantes, mas de momento não me estou a recordar.


Hoje em dia é cada vez mais frequente observarmos pessoas com headphones na rua e transportes e locais públicos. Poerventura muitos deles estarão a ser usados somente para ouvir música. Mas haverá uma percentagem deles que para além de ouvir música estarão também a usar com o principal intuito de cancelamento activo de ruído. Porquê? Saiam à rua e experimentem. Talvez já não o notem, até porque estão suficientemente dessensibilizados e alguns inclusive terão algum tipo de déficit auditivo causado pela exposição constante a estímulos com decibéis acima do recomendado.


No ruído, mesmo com os carros cada vez mais hibridos e electricos, as buzinas e sirenes não deixam de continuar. E em zonas com maior densidade populacional é constante.


Mas as luzes também. Quem quiser fotografias a uma chuva de estrelas cadentes é sempre aconselhado a se deslocar para uma zona rural desprovida de uma chuva de estimulos humanos. O designado ruído das luzes. Incomodam, ofuscam, mas principalmente cansam, drenam a energia de qualquer um por estarem sempre e de forma repetida a suscitar a atenção das pessoas. Mesmo quando já olhamos três ou quatro vezes seguidas continuamos a olhar apesar de já sabermos do que se trata.


Os cheiros da cidade já nem o melhor perfume os disfarça. As fossas nasais, mas também a roupa ficam impregnadas daquele cheiro que no final do dia carregamos para nossa casa.


O mundo construído em que vivemos hoje é, cada vez mais, vítima da proliferação capitalista. Os nossos espaços, superfícies, experiências e cognição tornaram-se uma mercadoria, e as nossas cidades transformaram-se em telas para meios sensoriais que competem pela nossa atenção. A nossa perceção sensorial foi mercantilizada, o nosso mundo sensorial colonizado. Isto constitui um desafio, sobretudo através da experiência autista. Enquanto forma única, mas igualmente válida, de ver o mundo, a experiência autista proporciona-nos um teste decisivo para a sobrecarga sensorial e pode revelar o impacto desta mercantilização sensorial na nossa cognição, na nossa capacidade mental e na nossa capacidade de aceder ao espaço de forma equitativa.


As pessoas procuram escapar. Na maior parte das vezes já nem sabem para onde. Tapam os ouvidos, usam óculos com lentes escurecidas progressivas, lenços com fragâncias para ajudar a tolerar, mas apesar de tudo isto, continua a haver uma agitação psicomotora em muitas pessoas e que denota esta enorme impacto da estimulação sensorial, principalmente nas pessoas autistas. O que leva a que se verifique um aumento da activação fisiológica e por conseguinte dos níveis de ansiedade e de maior tensão muscular. No caso das pessoas autistas é um dos factores preponderantes para os episódios de desregulação comportamental e emocional em crianças, mas também jovens e adultos.


A descolonização sensorial, neste contexto, não é apenas uma metáfora crítica, mas uma proposta concreta de reorganização do mundo que habitamos. Implica repensar a forma como concebemos os espaços públicos e privados, questionando a normalização de níveis elevados de estimulação como se fossem inevitáveis ou até desejáveis. Obriga-nos a perguntar: para quem é este mundo confortável? Quem fica de fora quando tudo é desenhado para captar atenção, acelerar ritmos e maximizar consumo?


Se aceitarmos que a experiência sensorial não é universal, mas profundamente variável entre indivíduos, então torna-se evidente que os ambientes que construímos são, muitas vezes, excludentes. A acessibilidade não se limita a rampas ou elevadores; inclui também a criação de contextos sensorialmente habitáveis. Espaços com iluminação regulável, zonas de silêncio, materiais que não amplifiquem o som, intervalos de pausa em contextos altamente estimulantes. Pequenas mudanças que, cumulativamente, podem transformar radicalmente a experiência de estar no mundo.


Do ponto de vista clínico, torna-se essencial integrar esta leitura ecológica da experiência sensorial. Não se trata apenas de ajudar a pessoa autista a “adaptar-se” ao ambiente, mas também de intervir sobre o próprio ambiente. Esta inversão de paradigma é fundamental. A regulação não pode ser pensada exclusivamente como uma competência individual, desligada das condições que a tornam possível ou impossível. Intervenções que incluam treino de autorregulação, sim, mas também psicoeducação de famílias, escolas e contextos profissionais, promovendo uma maior sensibilidade para os limiares sensoriais individuais.


Há também um lugar importante para a criatividade e para a arte neste processo de descolonização. Através delas, torna-se possível tornar visível o invisível, traduzir experiências internas que, de outro modo, permanecem inacessíveis. Tal como aquele áudio do frigorífico, que por breves segundos me deslocou para dentro da experiência dela, criando uma ponte onde antes havia apenas incompreensão. Talvez a descolonização sensorial comece precisamente aí, nesse gesto de tentativa genuína de escuta.


Não se trata de silenciar o mundo, mas de o tornar habitável. Não se trata de eliminar estímulos, mas de os tornar escolhidos, reguláveis, humanos. Porque um mundo que esgota, que invade, que não permite descanso, é um mundo que adoece. E talvez as pessoas autistas, na sua relação mais intensa e por vezes dolorosa com os estímulos, não estejam a exagerar a realidade, mas a revelar algo que todos nós, em diferentes graus, já começamos a sentir.


Descolonizar os sentidos é, no fundo, recuperar a possibilidade de existir sem estar constantemente sob ataque. É devolver ao corpo o direito ao silêncio, à pausa, à previsibilidade. É reconhecer que a diversidade sensorial não é um problema a corrigir, mas uma realidade a respeitar. E, talvez, um convite a reconstruirmos um mundo que não precise de ser suportado, mas que possa, finalmente, ser vivido.


 
 
 

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