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Depois da tempestade vem a bonança

Na Perturbação do Espectro do Autismo (PEA) as pessoas têm dificuldades na interacção e comunicação social, e como tal, têm imensa dificuldade em estar em grupo ou em se exporem socialmente. Certamente muitos de vocês já ouviram dizer isto, certo? E alguns até acreditam nesta ideia! E de repente ouvimos um pai ou uma mãe de um jovem com PEA a dizer que a primeira vez que o seu filho ou filha entrou numa peça de teatro da escola ficaram estupefactos porque nunca os tinham visto de uma forma tão espontânea a interagir, a representar um papel sem se enganar, sem ansiedade de encarar o público. Se para Shakespeare a música tinha um poder transformador único. O que dizer das suas peças terem um poder igualmente transformador na vida de crianças, jovens e adultos com Perturbação do Espectro do Autismo!

Há quem diga que a Tempestade terá sido a última peça escrita por William Shakespeare. A peça retrata uma história de vingança, de amor, conspirações oportunistas, e que contrapõe a figura disforme, selvagem, pesada dos instintos animais que habitam o homem à figura etérea, incorpórea, espiritualizada de altas aspirações humanas, como o desejo de liberdade e a lealdade grata e servil. Nada a que Shakespeare a a inspiração nas tragicomédias já não nos tenha habituado. Uma peça que se passa numa Ilha que é habitada por Próspero, Duque de Milão, mago de amplos poderes, e sua filha Miranda, que para lá foram levados à força, num ato de traição política. Uma história replecta de dor e reconciliação. Um pouco diria eu como a vida das pessoas com Perturbação do Espectro do Autismo.


Ao contrário de muitas intervenções para intervir nas competências sociais, as intervenções baseadas no drama confia mais num modelo com características mais exploratórias, do tipo, “aprenda fazendo”, e que oferece uma abordagem estruturada e que tem a capacidade de motivar as crianças, jovens e adultos a participar de forma mais significativa nas interações sociais. As intervenções com pessoas com PEA a partir deste modelo de intervenção baseado no drama ainda está no seu inicio mas já existem alguns trabalhos e estudos piloto que têm demonstrado evidências de mudanças positivas em alguns dos comportamentos que se encontram comprometidos neste grupo. Seja a capacidade de fazer contacto ocular mas também as próprias capacidades de interacção e comunicação social ou de ultrapassar as sensações de desconforto e geradoras de ansiedade.


A utilização dos trabalhos de Shakespeare na reabilitação de pessoas pertencentes a determinados grupos com características específicas não é novidade. Já foi testado em grupos de reclusos, perturbações psiquiátricas como a esquizofrenia, demência, entre outros. A terapia, designada de Hunter Heartbeat Method, coloca temas e pontos da trama de The Tempest, de Shakespeare, em jogos de teatro que levam as crianças com PEA a praticar algumas das competências que a sua condição torna particularmente desafiador: criar contacto visual, reconhecer a emoção por trás das expressões faciais, revezando-se em falar e mantendo-se a uma distância adequada de outra pessoa.


Quantas vezes já ouvi dizer de clientes meus que as situações mais intensas nos filmes são aquelas que lhes despertam mais atenção no envolvimento no próprio filme. A escolha desta peça de Shakespeare prende-se um pouco com esta ideia tendo em conta o número de situações com uma expressão emocional mais intensa e que leva as pessoas com PEA a experimentarem situações duplamente desafiadoras mas também capazes de as fazerem descobrir competências mais difíceis de aceder e que este modelo acaba por facilitar.


Não estanho os resultados possíveis de obter com este modelo Recordo nos tempos da faculdade a disciplina de Psicodrama e as aulas em que colocávamos em cena situações mais dramáticas possíveis de serem vivenciadas por qualquer um de nós na vida real. Questões relacionadas com a vida e a morte, confiança, traição, saudade, entre tantas outras do próprio espectro de vivências de qualquer um. E verificar que situações mais difíceis de abordar num plano relacional através apenas da palavra passou a ser mais fácil de operar na dramatização do próprio papel. Podermos distanciar da situação vivida, normalmente traumática, ajuda a poder trazer à realidade as dificuldades sentidas e isso ajuda-nos a melhor lidar com elas. Se pensarmos em algumas das características das pessoas com PEA podemos imaginar que este tipo de modelo parece encaixar muito bem.

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