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De onde vêm as coisas?

Mãe, de onde vêm os bebés? Pai, de onde vêm os pesadelos? Estas e infinitas outras perguntas vão sendo feitas e não apenas na infância. Pensem em todas as questões existenciais colocadas pelos adolescentes. Ou então no questionamento de um adulto em relação à proveniência da própria vida humana tal como a conhecemos! Quantos, independentemente das explicações que foram e continuam a ser fornecidas pela ciência e não só, não continuam ainda assim a perguntar - De onde vêm as coisas?


Se pensarmos bem, o próprio Descartes reforça o porquê deste mesmo questionamento - Eu penso, logo existo. Tudo o que experiencio deve existir de alguma forma, mesmo que seja simplesmente como as minhas experiências. E assim divido as minhas experiências em tipos de coisas que dependem de mim para a sua existência, e aquelas que não dependem. Se as primeiras são as minhas sensações, sentimentos e pensamentos. As ultimas constituem aquilo a que se chama o Mundo. Experiencio o Mundo como diferente e independente de mim, e concluo que a maioria das coisas externas que acredito existirem existem. Mas como é que existem? De que forma existem? Existo tanto quanto eu acredito que existem e com a ajuda da ciência. Como podemos constatar, estas e outras questões semelhantes são feitas há muito e por todos nós.


E tudo isto de onde vem as coisas porquê? Porque ainda continua a haver muitas pessoas que se perguntam de onde vem o autismo! Não no sentido de poderem questionar sobre as causas do mesmo, ainda que essa reflexão seja fundamental. Mas antes no sentido de pensarem que se anda a diagnosticar o autismo como se de uma moda se tratasse. Isso mesmo! Ainda há quem tenha a ideia de que as pessoas que recorrem a um centro para o neurodesenvolvimento venham de lá com um diagnóstico de autismo! Como se não se fizesse ou soubesse fazer mais do que isso - diagnosticar pessoas com autismo! Deixo algumas ideias para que possamos pensar. Não sei se responde à questão - De onde vem o autismo, mas pelo menos fica o contributo.


As perturbações do neurodesenvolvimento e mais especificamente o autismo não é apenas isso. Ou seja, quando estamos a fazer uma avaliação para despistar uma situação de autismo sabemos que vamos encontrar um conjunto infindável de outras situações, outras condições, comportamentos que podem ou não se enquadrar naquilo que as pessoas pensam saber do autismo. Além disso, e não apenas em Portugal, é sabido que o número real de diagnósticos de autismo não corresponde à realidade. Ou seja, a prevalência de autismo na população é de cerca de 1%. É sabido que 1 em cada 54 crianças apresenta este diagnóstico. Contudo, sabemos que o número de casos diagnosticados não corresponde a essa realidade. E não é apenas em crianças. O mesmo acontece em jovens e provavelmente ainda mais em adultos. Até porque nestes últimos, principalmente naqueles com trinta anos ou mais, aquilo que havia descrito nos manuais de diagnóstico e no próprio conhecimento clinico e cientifico sobre o autismo, ainda era escasso comparado com os dias de hoje. E como tal, há muitos adultos que estão hoje dia a descobrir cada vez mais o seu diagnóstico tardio. E sabendo que nestas e em outras condições é fundamental intervir o mais precocemente, torna-se ainda mais importante este trabalho.


Mas as coisas não ficam apenas por aqui. Por exemplo, pensando num exemplo de um jovem de 18 anos que está para concorrer ao Ensino Superior e que os pais estão preocupados em relação a alguns aspectos seus e o trazem à consulta. Aquilo que pode estar mais evidenciado na altura pode ser uma situação mais relacionada com a ansiedade do processo de transição para esta nova etapa da vida. E também alguma indecisão em relação à escolha do curso, universidade e projecto de vida de uma maneira geral. Até aqui nada de novo, certo? Quantos jovens com esta idade não se encaixam nesta descrição? No entanto, no próprio processo de avaliação percebemos que parecem existir outras questões e características que merecem um aprofundar do conhecimento. Por exemplo, percebemos que o jovem em questão tem um grupo restrito de amizades. E que não tem nenhum melhor amigo ou amiga. Talvez aqui muitos possam pensar que talvez essa descrição se possa enquadrar numa depressão ou ansiedade social, certo? E não deixa de ser possível. Mas não tem de necessariamente ser apenas isso. Até porque se sabe que em psicopatologia há uma maior dinâmica no próprio desenvolvimento das situações ao longo do ciclo de vida. E os diagnósticos não são estanques. Eles próprios evoluem, tal qual as próprias pessoas e a sua vida.


E quando procuramos saber acerca do jovem em questão de como é que ele foi procurando fazer amizades ao longo do tempo percebemos que parece haver algumas características mais idiossincráticas. Por exemplo, o jovem parece ter alguma facilidade em fazer amizades mas depois tem uma maior dificuldade em as manter. E porquê? Porque o jovem menciona que não sabe muito bem o que dizer nas conversas para as continuar e o mesmo se parece aplicar nas relações sociais de uma maneira geral. E não, não estamos a falar da presença de nenhum défice cognitivo ou outra situação semelhante que possa justificar esta situação. E em algumas situações este mesmo jovem até por apresentar um bom perfil cognitivo e intelectual e com bons resultados académicos. O que pode ainda mais lançar uma certa confusão, até porque continua a haver muitas pessoas que têm uma ideia de que o autismo não tem nada a ver com esta boa capacidade intelectual. E depois há um outro grupo de pessoas que pensa precisamente o contrário. De que as pessoas autistas são uns génios (perdoem-me a expressão). E depois temos a realidade. Ou seja, sabemos que aquilo que existe é que cerca de 2/3 das pessoas autistas apresentam algum tipo de compromisso cognitivo e os restantes um perfil cognitivo médio ou superior mas heterogéneo.


Há muito que precisa de continuar a ser investigado, reflectido e discutido em conjunto sobre o autismo. Temos todos para aprender neste processo sem dúvida. No entanto, continuar a criar condições que vão acabar por directa ou indirectamente gerar condições para que a pessoa não seja diagnosticada e por conseguinte não se compreenda a si, aos outros e ao Mundo, e não possa obter o acompanhamento devido, é estar a negar um direito fundamental da pessoa.


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