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Cuidados primários

É fundamental termos um sistema de cuidados de saúde primários forte para a saúde em geral. Sendo que estes podem cobrir a maioria das necessidades de saúde de uma pessoa durante toda a vida, incluindo a prevenção, tratamento, a reabilitação e os cuidados paliativos. A designação Médico de Família não será por acaso.


Ainda que se possa dizer muitas coisas sobre o funcionamento dos Centros de Saúde e as Unidades de Saúde Familiar. Seja da falta de médico de família para uma determina percentagem da população ou a resposta fornecido ficar aquém do desejado. Penso que será importante também poder pensar no que é necessário fazer para que com os recursos humanos existentes se possa fornecer uma melhor resposta a alguns grupos de pessoas.


E não é de estranhar que eu vá escrever sobre a importância de melhorar a resposta fornecida pelos Centros de Saúde às pessoas autistas. E sim, há muito que este organismo poderá fazer para melhorar o bem estar e a qualidade de vida de muitas das pessoas autistas.


Até porque se pode ter uma ideia de que o autismo apenas pode ser atendido em contexto hospitalar e numa consulta especializada. E é preciso desconstruir essa ideia para que as próprias pessoas e respectivas famílias possam requerer junto destes serviços as respostas face às suas necessidades. Além dos próprios Centros de Saúde e o próprio Ministério da Saúde possam reflectir acerca das necessidades a suprir para que esta resposta seja efectiva.


Já deixou de ser uma novidade de que os números de pessoas autistas são bem maiores do que aqueles que se pensava. O facto de dizermos que na Europa se pensa existir cerca de 5 milhões de pessoas autistas poderá reflectir isso. Além do mais, a investigação e a própria experiência clinica têm procurado demonstrar que as pessoas autistas têm um conjunto de resultados de saúde mais baixos. Seja pelo facto de apresentarem um conjunto de outras perturbações psiquiátricas associadas. Mas também porque têm um conjunto de outros indicadores de saúde mais problemáticos. E como tal seria de esperar que as pessoas autistas pudessem procurar o sistema de saúde de forma semelhante à população em geral. No entanto, esse facto não se verifica. E importa poder perceber melhor o porquê.


Se pensarmos que o autismo é possível de diagnosticar numa fase muito precoce do desenvolvimento, podemos pensar que os médicos que mais frequentemente contactam com esta condição são os pediatras, pediatras do desenvolvimento e neuropediatras, certo? No entanto, precisamos de pensar que há todo um conjunto da população que não tendo uma condição económica para procurar essas respostas no sistema de saúde privado, vai procurar recorrer ao público. E aqui começam muitas das dificuldades. Seja porque a resposta no sistema de saúde público ao nível destas especialidades escasseia e a resposta acaba por ser tardia. Mas também porque as pessoas que recorrem aos Centros de Saúde podem não estar a obter uma resposta adequada face às suas necessidades dentro da área do autismo.


A questão aqui não se trata de dizer que estes ou aqueles profissionais de saúde não são competentes. Até porque o são e há muita e boa evidência disso. Contudo, há que procurar compreender o que é preciso de fazer para que a resposta ao autismo ao longo do ciclo de vida seja diferente.


Por exemplo, continuamos a verificar que apesar do diagnóstico de autismo poder ser feito a partir de idade bastante precoce. Ainda continuamos a ter muitos casos de crianças que são diagnosticadas a partir do período em que contactam com o sistema escolar. E tendo em conta que este começa em idade igualmente precoce há também que pensar na igual capacitação dos profissionais de educação que estão nestes contextos. Mas isso fica para uma outra altura. Além do mais continuamos a observar que ainda temos um conjunto significativo de jovens, jovens adultos e adultos que apenas são diagnosticados nestas fases. Ou seja, passaram por todo um conjunto de profissionais de saúde. Sejam pediatras ou médicos de clinica geral e familiar, mas vai sendo possível verificar que os números de diagnóstico de autismo conhecido em Portugal, associado ao facto de se continuar a fazer diagnósticos tardios na vida adulta. Leva-nos a pensar que é preciso melhorar a detecção destes casos.


Mas não é só de detecção de casos e de encaminhamento dos mesmos para as consultas hospitalares da especialidade que importa falar. Até porque sendo o autismo uma condição ao longo do ciclo de vida, é fundamental poder melhorar a resposta dos Centros de Saúde no acompanhamento das pessoas autistas adultas ao longo deste percurso. Até porque as necessidades de resposta ao nível de saúde são bastantes. Além do desafio colocado por parte das pessoas autistas junto de alguns dos profissionais de saúde que se possam sentir menos à vontade e preparados para intervir junto deste grupo.


Atendendo a que a resposta dos cuidados de saúde primários é de proximidade, poderíamos pensar que também para as pessoas autistas seria uma excelente resposta. Seja porque não necessitariam de fazer grandes deslocações, mas também porque mais facilmente se sentiriam enquadrados no contexto local e já conhecido por si.


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