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Corridas diárias

A caminho do dia 8 de março desdobram-se as iniciativas para a celebração do dia Internacional da Mulher. Sejam colóquios, seminários ou acções de esclarecimento para falar sobre os diversos indicadores que são usados para medir a Qualidade de Vida. Ou caso houvesse condições para tal, também se realizariam eventos desportivos para celebrar a importância de indicadores fundamentais na vida de todos, tais como a saúde física e mental. Na grande maioria destes eventos iremos poder ouvir todo um conjunto de desígnios que continuam a não ser cumpridos, desde o acesso ao mercado de trabalho e salário igual, passando por uma desigualdade nas áreas da educação e saúde. Ito não obstante frisarem que têm feito um caminho de melhorias. No que diz respeito à saúde e mais especificamente à saúde mental, são conhecidos vários desafios sentidos pelo população em geral, e alguns especificamente pelas mulheres. No caso especifico das mulheres no Espectro do Autismo, há muito que é referido as dificuldades que estas sentem num tratamento igual e reconhecimento relativamente aquilo que são as suas características comportamentais e à sua expressão fenotipica feminina distinta na Perturbação do Espectro do Autismo.


Pensem no exemplo da fotografia em que vêm quatro mulheres atletas profissionais a disputar uma prova de corrida de obstáculos. Apesar de sabermos que irá haver uma vencedora, também sabemos que todas elas se encontram em circunstância de igualdade na prova em si. Mesmo que possamos dizer que algumas delas possam ter melhores condições oferecidas pelo clube ou país que representam. No seguimento deste exercício continuem a imaginar que a atleta que não está na fotografia e que corre na 5ª pista é uma mulher que não sabia que ia disputar a prova em questão. Além de não saber o que constitui a prova ou como se deve comportar para alcançar o objectivo da mesma. Muitos de vocês vão pensar que é um exercício mental absurdo e que não faz qualquer sentido. No entanto, pensem que essa mulher que corre na 5ª pista, representa uma mulher que não sabe que as suas características comportamentais correspondem a uma Perturbação do Espectro do Autismo. Mas que no seu quotidiano e desde sempre sente um conjunto variado e intenso de dificuldades na relação com os Outros, consigo própria e com o Mundo. E que além disso sente que os outros no dia-a-dia lhe devolvem frequentemente informações negativas acerca da sua pessoa e de alguns dos seus comportamentos. Mas que ainda assim e apesar de tudo isto, esta mulher continua a querer disputar esta prova.


Normalmente, as mulheres são mais dificilmente diagnosticadas, e principalmente por haver quem digam que estas não atendem aos critérios de diagnóstico. E uma vez que os instrumentos padronizados actuais são baseados no mesmo critério, as avaliações podem levar a resultados falsos negativos. Em ambientes clínicos, estas mulheres têm uma apresentação, desafios e dificuldades distintas. Na prática clínica, as mulheres autistas são diagnosticados tarde na vida e muitas vezes lutam com resultados sociais e qualidade de vida com maior compromisso. Por norma têm um menor desempenho ocupacional e são excluídas socialmente. As mulheres autistas com um perfil de funcionamento mais elevado são diagnosticadas ainda mais tarde na vida, em comparação com os homens. Essas mulheres apresentam inicialmente sintomas comportamentais, afetivos e de ansiedade. Em muitos casos, elas têm múltiplos diagnósticos anteriores e não mostram progresso ou melhoria com várias intervenções baseadas em evidências. Contudo, estas mulheres não têm um perfil distinto de PEA e, portanto, apresentam desafios únicos para lidar com essa condição. Muitas vezes as próprias e os seus cuidadores têm dificuldade em aceitar explicações alternativas devido à falta de evidências robustas na prática clínica. Essas questões atrasam ainda mais o diagnóstico e a intervenção. Estas mulheres são um subgrupo sub-representado entre as pessoas com PEA com uma apresentação atípica. No entanto, nos últimos anos, tem havido maior número de estudos para identificar estas pessoas que têm dificuldade em cumprir o critério, embora tenham comprometimento significativo. A camuflagem social, por exemplo é uma das áreas estudadas. Esta é considerada uma construção ampla vista com mais frequência em mulheres e é descrita como mascaramento de sintomas de PEA com motivação para se integrar. A consequência da camuflagem é muito frequentemente a exaustão mental e, consequentemente, níveis de ansiedade elevada. A compensação é ligeiramente diferente da camuflagem e é descrita como tendências de aumento para compensar esses déficits.


Helena (nome fictício) é estudante do 6º ano, tem 11 anos. Foi encaminhada pelo seu pediatra por alterações de humor, irritabilidade e teimosia. Os pais ficaram preocupados com a sua recusa à escola. A mãe reportou que se recusa a seguir as instruções e que esses sintomas estão a agravar. Ela tinha medo de visitar hospitais e, durante a visita inicial, teve dificuldade em se ligar e ter uma interacção mínima que fosse com os profissionais de saúde que a observaram e falaram com os pais. Durante a sua avaliação, a mãe reportou que nasceu de pré-termo aos oito meses de gestação. Helena não apresentou atrasos no desenvolvimento e a fala foi adquirida com um ano e três meses de idade. Helena tinha um profundo interesse em matemática, ciências e tecnologia, mas não gostava de ir à escola. Ela não gostava de interagir com as crianças da sua idade. No entanto lutou para fazer amigos, envolver-se em jogos recíprocos e ir para um novo lugar. Recusou-se a ir no transporte escolar com as outras crianças. Ela tinha um conhecimento profundo sobre cães e as suas raças. E gostava de brincar com blocos de construção e assistia à mesma série de TV várias vezes. Ela foi previamente diagnosticada com Perturbação Obsessivo-Compulsiva e Perturbação de Ansiedade e fez intervenção com dois terapeutas diferentes. Não havia histórico médico relevante. Durante a avaliação, ela era tímida e tentou fazer contacto visual, mas não conseguiu mantê-lo. Ela tinha problemas sensoriais, tais como sensibilidade a roupas de textura áspera, cheiro forte e aversão a ruídos altos. Ela não usava roupa interior até os três anos de idade e evitava cortar o cabelo. A avaliação de QI foi conduzida com alguma dificuldade, pois era desafiador desenvolver um relacionamento. Na avaliação cognitiva e intelectual realizada foi possível perceber a existência de um perfil heterogéneo mas considerado dentro da média. Na avaliação usada para avaliar as características do Espectro do Autismo o resultado obtido demonstrou existirem sintomas com alguma gravidade. A Helena iniciou tratamento com aripiprazol (2 mg) para as questões da da irritabilidade e iniciou intervenção psicológico com um regularidade semanal. Os pais beneficiaram de psicoeducação sobre o seu diagnóstico e estratégias de intervenção. Num follow-up ao fim de um mês a família reportou uma redução da irritabilidade e molhar no comportamento geral e no desempenho académico.


Rute (nome fictício) é uma mulher de 22 anos que foi encaminhada para consulta psiquiátrica pelo seu terapeuta devido aos sintomas de baixo humor, falta de motivação e anedonia. Ela relatou que esses sintomas estão presentes há um ano, mas têm piorado progressivamente. Ela começou a terapia há um mês, mas faltou a várias consultas. Ela também teve dificuldades no trabalho por não conseguir completar as suas tarefas. As suas queixas iniciais eram que ela não era capaz de se entender, frequentemente ficava entediada quando estava entre as pessoas e ao mesmo tempo com medo de ficar sozinha. Durante a avaliação, ela relatou um profundo interesse pela física quântica já desde o 2º ciclo. Rute foi uma aluna do quadro de honra ao longo do seu percurso académico e ganhou alguns prémios de Física a nível nacional. No entanto, ela lutou para manter amizades e também afirmou que em muitas ocasiões não sentiu necessidade de ter amigos. No ensino secundário foi vítima de bullying devido à forma como se vestia e não tinha relacionamentos românticos. Rute sofreu abuso emocional e sexual por parte de seu namorado aos 19 anos. Ela gostava de ler livros de ciências e aprender alemão como estratégia para lidar com situações stressantes. Ela também fez um ensaio anterior com medicação antidepressiva (sertralina 50 mg por dia) por dois meses sem nenhum benefício. Após a consulta, foi discutido a possibilidade de Perturbação do Espectro do Autismo e ela concordou com uma avaliação. O resultado da avaliação mostrou a existência de sintomas leves a moderados. Após a sessão de psicoeducação, ela solicitou mais material para ler sobre o autismo. Rute voltou à clínica depois de uma semana e relatou sentir-se aliviada e mais aceitante do seu diagnóstico clínico. Ela concordou em ter psicoterapia.


Alexandra (nome fictício) é uma estudante de 24 anos que aspirava trabalhar com animais. Foi encaminhada para uma clínica psiquiátrica pela sua amiga. Ela queixou-se de alterações do humor e dificuldade em manter uma rotina. Ela tinha perda de apetite, maior necessidade de dormir e falta de motivação. Reportou que estava a faltar no escritório e, eventualmente, pediu demissão. Seu trabalho era exaustivo e, nos fins de semana dormia de 12 a 14 horas para recuperar o atraso. Durante os anos de faculdade, ela também teve dificuldade em frequentar as aulas e manter os relacionamentos era stressante. Sentiu que o seu espaço pessoal foi invadido e, portanto terminou o relacionamento com o namorado. Durante a avaliação, ela reportou um interesse restrito em animais. Descreveu diferentes animais de uma maneira pedante. Interessava-se por animais desde a infância. Ela não teve amigos na infância e interagiu principalmente com os amigos dos seus irmãos mais velhos. Sentia que lutava para manter as amizades e não interagia muito com as pessoas. Disse que se sentia diferente dos outros e, num grande grupo, muitas vezes lutava para interagir com os outros. Durante a avaliação, reportou que imita o sotaque, as expressões e a maneira de falar dos outros para se encaixar durante as interações sociais. Muitas vezes, acaba por aborrecer os outros, pois parece ser muito honesta. Ela gostava de passar mais tempo com os animais do que estar com os amigos e prefere instruções detalhadas para completar uma tarefa. Recorda que tinha aversão por jeans apertadas, camisolas de lã e meias molhadas. Ela consultou um psicólogo uma vez no passado e não tinha outro histórico médico relevante. A sua avaliação de despiste de Perturbação do Espectro do Autismo evidenciou sintomas leves a moderados. Ela foi receptiva ao diagnóstico de PEA e durante as sessões de psicoeducação fez muitas perguntas pertinentes à apresentação e ao diagnóstico. Foi-lhe recomendado sessões semanais de psicoterapia.


Catarina (nome fictício) é uma estudante universitária de 20 anos. Ela foi encaminhada para psiquiatria pelo seu psicólogo por alterações de humor, irritabilidade e ansiedade. Ela lutava para manter relacionamentos, tinha poucos amigos e a maioria deles estava nas redes sociais. Durante a avaliação, ela reportou preferência por um amplo círculo de conhecidos e seguidores das redes sociais. Ela tinha um relacionamento conflituoso com os seus pais e frequentemente culpava-os por seus problemas. Ela sentia que seu irmão era mais próximo de seus pais e muitas vezes sentia-se negligenciada. Ela lutava para manter uma rotina diária, frequentemente saltava as suas refeições e tomava banho em dias alternativos. Ela gostava de socializar, mas não tinha pragmática social e era frequentemente considerada rude, o que afectava os seus relacionamentos. No passado tinha sido diagnosticada com ansiedade pelo seu médico de família e fazia medicação para o efeito, mas sem quaisquer benefícios terapêuticos significativos. Também tinha um histórico de enxaquecas. Durante a avaliação ela era socialmente diferente, tinha excelente vocabulário com bom domínio da língua inglesa com uma fala monótona e prosódia mínima. Ela reportou que teve poucos amigos durante a infância e estava matriculada e a fazer um currículo adaptado para crianças sobredotadas. Ela tinha uma capacidade aumentada de recordar datas e memorizar tópicos de geografia. Ela tinha uma história de abuso sexual aos 18 anos por um colega de trabalho e relatou flashbacks, hipervigilância e ansiedade. Ela sentia que tinha Perturbação Borderline da Personalidade e conseguia relacionar alguns dos seus sintomas com o diagnóstico, como autoimagem instável, sensação de vazio e relacionamentos interpessoais intensos. Ela reportou sintomas sensoriais como sensibilidade a ruídos altos e textura áspera das roupas. Na avaliação de despiste de Perturbação do Espectro do Autismo evidenciou sintomas leves a moderados. Após algumas sessões de psicoeducação sobre o Espectro do Autismo sentia que conseguia perceber que a sua pessoa se encaixava melhor neste outro diagnóstico.


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