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Compreender uma máscara

O que estão a ver não é nenhuma tendência de moda, cuidado para a pele do rosto, proposta de máscara para o carnaval de 2024. Então afinal é o quê? perguntam-se.


Pois bem. Vamos tentar compreender uma máscara. Isso mesmo, leu bem, compreender uma máscara! O porquê da sua existência e da sua utilização.


Já várias vezes leram aqui neste site sobre camuflagem ou mascaramento social. E apesar de muitas vezes esta designação vir associada ao sexo feminino, o certo é que também está presente nos homens, ainda que em menos percentagem. Um dos objectivos da utilização da camuflagem ou mascaramento social prende-se com a integração social.


Contudo, este comportamento também tem consequências negativas para a vida da pessoa. Uma delas prende-se com o atrasar do diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo. Ou seja, no caso das mulheres, que são aquelas que apresentam uma maior probabilidade de camuflarem socialmente os seus comportamentos, são precisamente prejudicadas no terem o seu diagnóstico no tempo útil. E porquê? Porque não são identificadas ou sinalizadas como apresentando comportamentos problemáticos ou suficientemente atípicos pelos familiares, amigos ou até mesmo por si próprias. E quando se dirigem a profissionais de saúde também são frequentemente observadas como funcionais, competentes do ponto de vista social e como tal não podem nunca ser alguém do espectro do autismo.


Mas também têm outras consequências negativas, nomeadamente o agravamento dos sintomas depressivos e de ansiedade. Ou seja, passam a sentir-se menos elas próprias por terem de fingir tão frequentemente alguém que não são. E sentem mais ansiedade pois tendo de desempenhar um papel social e ainda mais a que não estão assim tão habituadas e que não querem ter, leva a um aumento da ansiedade e da própria sensação de desgaste físico, para além do emocional. E também por isso, se têm verificado que quanto mais camuflagem social, mais ansiedade e depressão, mas também mais ideacção suicida e comportamentos suicidários.


Mas por que é que os profissionais de saúde não validam o diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo? Só porque as pessoas estão a camuflar socialmente? Mas elas não estão a apresentar igualmente sofrimento emocional? Sim, claro que estão. Mas a leitura da origem desse mesmo sofrimento é outro e com outro diagnóstico. Nomeadamente, Perturbação de Ansiedade Generalizada, Perturbação do Humor, Perturbação Bipolar, Perturbação da Personalidade Borderline, etc. Mas ainda assim, por que é que os profissionais de saúde não estão a conseguir olhar para além daquilo que é visível?


A questão é um pouco mais complexa do que aparenta. Há que pensar que o autismo continua ainda a ser visto como uma condição de rapazes. E como tal, as raparigas continuam a sofrer deste enviesamento. Além disso, e como apresentam alguns comportamentos sociais, tais como estabelecerem contacto ocular, sorriso social, interesses mais variados, capacidade de fazerem conversa circunstancial, relações de amizade ou amorosas, etc. Por tudo isso não são vistas como tendo condições para um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo. Ainda que tudo isto que acabou de ser escrito tenha sido aprendido e não seja feito de forma espontânea. Isso mesmo, a rapariga consegue apresentar uma maior competência de observar os comportamentos sociais e poder copiar os mesmo ao ponto de os usar. Mas isso continua a poder ser espectro do autismo? Sim, desde que essas e outras condições se possam verificar. Mas é preciso poder observar e compreender para lá daquilo que é imediatamente visto/ouvido.


O facto da pessoa poder aprender um comportamento, ainda que social, não é razão para não a considerar no espectro do autismo. isso seria o mesmo que dizer que uma pessoa autista não tem competência para aprender, coisa que não é verdade. E mesmo que se esteja a falar de aprender comportamentos sociais, é preciso poder sair do esterótipo clássico e errado de que as pessoas autistas não querem ter relações sociais, interpessoais ou românticas. Além de que é preciso poder não visar toldado na crença enviesada dos papéis sociais e de que no caso da mulher apresentar um guião social, isso é algo normativo e como tal não pode ser do espectro do autismo.


Adicionalmente, como a pessoa nestes casos apresenta um agravamento da sintomatologia depressiva e o ansiogénica, a conceptualização do caso acaba por ficar por ali como explicativa das dificuldades da pessoa. Contudo, a própria e não só verifica que essa explicação é superficial e não ajuda a enquadrar o todo da pessoa em si.


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