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Competências sociais para pessoas não autistas

Sim, é verdade. Vou falar de competências sociais para pessoas não autistas. Não, não houve nenhum engano. E não vou falar de competências sociais para pessoas autistas. Mesmo que grande parte dos meus dias sejam passados a trabalhar competências sociais com pessoas autistas. Competências sociais, soft skills e outras designações semelhantes, são conceitos que há muito tempo que são usados em determinados contextos, sejam clínicos, organizacionais e outros. Até no senso comum a designação costuma ser usada como forma de sinalizar o outro como uma pessoa não competente a esse nível - Por vezes parece que não tens competências sociais!, ouve-se por vezes dizer.


Contudo, quem trabalha na área clínica sabe que é uma ferramenta bastante utilizada em crianças, jovens e adultos que apresentam determinadas condições neuropsiquiátricas. Por exemplo, no Espectro do Autismo, é um conceito sobejamente conhecido. E existem inúmeros programas de intervenção desenvolvidos e validados para esta área. Nomeadamente, o PEERS da Professora Elizabeth Laugeson e que eu e um conjunto de colegas do PIN somos certificados para o implementar. E se formos fazer uma pesquisa bibliográfica com os termos social skills training e autism, iremos ver o número quase infinito de artigos publicados com todo um conjunto de mais valias apresentadas na capacitação das pessoas autistas para esta área. Mas eu prometi no inicio que não ia falar de pessoas autistas. Mas compreendam que é importante para enquadrar. E se continuarmos a fazer uma leitura mais aprofundada do treino de competências sociais, verificamos que é uma abordagem terapêutica, constituída por um conjunto de intervenções e métodos usados para ajudar a pessoa a compreender e a melhorar as suas competências sociais. Este treino pode ser realizado individualmente, mas por norma é feito em grupo. Até porque nesta modalidade há um potencial dos ganhos terapêuticos. Os modelos de base que sustentam esta intervenção costuma ser Comportamental e Cognitiva, mas não é exclusivo. E quando algum de nós vai ler a DSM 5 verifica que a totalidade das perturbações lá descritas apresenta mais ou menos compromisso na área das relações sociais e interpessoais. Nomeadamente, a Perturbação do Espectro do Autismo. E como tal parece que é uma abordagem desenhada em exclusivo para as pessoas que apresentam esta e outras condições. Seja para os ajudar a estabelecer um contacto ocular adequado na regulação da relação social. A serem recíprocos e a informar espontaneamente, dialogarem de forma alternada, iniciarem, manterem e terminarem conversas, fazerem pedidos, ser assertivo, namorar, etc.


Contudo, não deixa de ser curioso quando fazemos uma avaliação de todo um conjunto de fenómenos sociais, tais como os anteriormente referidos ou outros que directa ou indirectamente os envolvam. Percebemos que há muitas pessoas não autistas ou sem qualquer outro tipo de condição neuropsiquiátrica que beneficiariam e em muito deste tipo de treino. E não, não estou a falar das pessoas que se enquadram dentro das Perturbações da Personalidade. Estou mesmo a falar das pessoas com um desenvolvimento típico e sem qualquer tipo de diagnóstico. Por exemplo, quando procuramos analisar as situações sociais em que muitos dos meus clientes autistas se vêm envolvidos, as pessoas não autistas envolvidas parecem ter igual necessidade deste tipo de treino. Por exemplo, muitas das pessoas autistas são vitimas de bullying e cyberbullying. E não só os bullies mas todos aqueles que são observadores destas situações apresentam um desenvolvimento normativo. E no que diz respeito ao estabelecimento do contacto ocular, podemos observar que há cada vez mais pessoas com os olhos presos nos ecrãs enquanto conversam. E não estou apenas a falar de crianças e jovens. Ou se nos programas de treino de competências sociais também se procura ensinar como iniciar, manter e terminar uma conversa, talvez possa ser importante passar essa mensagem às pessoas não autistas. Até porque, se muitos dos meus clientes se queixam de ter algumas dificuldades a este nível. Também é certo que todas as outras pessoas parecem ter pouca tolerância e até mesmo iniciativa a este nível, para com as pessoas que podem ser percepcionadas como diferentes de si. E se formos ouvir muitas das queixas das pessoas não autistas em relação às relações interpessoais em diferentes contextos. Verificamos que muitas se queixam de terem sido comentadas negativamente pelos seus colegas e sem o seu conhecimento. E se perguntarem a uma pessoa autista se alguma vez faria coisa igual, rapidamente irão perceber quem é que pode necessitar de treino a este nível.


Não quero que fiquem com uma ideia errada, de que defendo que as pessoas autistas não possam beneficiar de treino de competências sociais. Até porque não é essa a minha posição. No entanto, pareceu-me importante sublinhar o facto de se passar a ideia de que apenas estas pessoas é que parecem precisar das mesmas por não as terem. Quando o mesmo não é verdade. E além disso, parece-me também importante que o treino de competências sociais possam enquadrar os seus diferentes módulos a desenvolver naquilo que é o próprio perfil das pessoas que vão beneficiar deles. Ou seja, as pessoas autistas apresentam elas próprias vontade e motivação próprias para o desenvolvimento de relações sociais e interpessoais. E estas devem ser tidas em conta e não negligenciadas para que sejam formatadas com competências sociais que não lhes faz sentido naquilo que é o seu desejo.


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