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"Sair do armário" é uma metáfora conhecida das pessoas associada normalmente à comunidade LGBT, referente ao assumir da sua identidade de género ou orientação sexual. Mas na comunidade do Espectro do Autismo este conceito também é sobejamente conhecido e usado. São muitas as pessoas com um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo (PEA) que perguntam como podem assumir-se face aos seus familiares, amigos, colegas, chefias ou outros. Pode gerar espanto em muitas pessoas este facto. Da necessidade das pessoas sentirem que precisam de reflectir se e como haverão de dizer que são do Espectro do Autismo. Nos adultos é algo que ocorre com muita frequência. Até porque continua a haver muitas pessoas que apenas são diagnosticadas nesta altura. 

Após reflectir em conjunto com o seu terapeuta, Zé Carlos (nome fictício) decidiu quebrar o segredo e falar com os seus pais. A sua irmã já sabia. A conversa com ela sempre tinha sido mais fácil apesar das dificuldades relacionais que foram tendo ao longo dos anos. Naquele dia Zé Carlos encheu-se de coragem e procurou controlar o seus pensamentos negativos automáticos. Todo aquele conjunto de pensamentos que normalmente lhe invadem o cérebro sem pedir autorização e que lhe minam a sua leitura das situações. Normalmente, enviesam a sua posição sobre tudo. As coisas passam rapidamente a ser vistas como negativas e com um final catastrófico. E aquilo que hoje iria ser comunicado aos seus pais também já tinha sido pensado e sentido como aterrador e catastrófico. Muitas vezes o Zé Carlos pensou que os pais nunca o iriam compreender e/ou aceitar. "- O meu pai vai começar a dizer que são um conjunto de disparates da minha cabeça!", e a minha mãe vai ficar logo cheia de ansiedade. Este era o primeiro cenário imaginado pelo Zé Carlos quando recebeu o seu diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo (PEA) aos 29 anos.


O Zé Carlos sempre se tinha visto como uma pessoa diferente das outras e a vários níveis. A sua maneira de pensar e os assuntos em que normalmente pensava pareciam não ter nenhuma proximidade com os outros. Aos 8 anos pensava no impacto dos mercados de valores na economia global e nos intervalos fazia coleção de imagens de insectos. Na escola e durante todo esse período até à entrada na universidade passava o tempo livre dentro da biblioteca. Ao ponto de ter recebido desde cedo a alcunha de Rato da biblioteca. Coisa que o Zé Carlos apenas compreendeu bastante mais tarde. Até porque dizia ele, "Se a biblioteca tiver ratos a situação tem de ser denunciada e resolvida!". Na universidade começou cedo a destacar-se. Parecia já saber grande parte dos conteúdos. Apesar disso começou a ter mais dificuldades porque começou a deixar de ir às aulas. "- Aborrecia-me bastante.", dizia. E os trabalhos de grupo começaram a ficar para trás. Trabalhar com as regras dos outros nunca tinha sido o seu forte. Até que encontrou um professor que o ajudou a encaminhar para o trabalho no centro de investigação e o Zé Carlos passou a estar mais sobre a sua supervisão e assim fez a sua formação superior - licenciatura e passou logo para doutoramento.


Após terminada a sua formação continuou a trabalhar com bolsas de investigação no centro de investigação da universidade. Mas a proposta de começar a dar aulas foi sentida com difícil e inclusive assustadora no inicio. Não sabia com havia de responder ao seu superior hierárquico na Universidade. Na altura encontrou acidentalmente um site com alguma informação sobre Síndrome de Asperger. Como em muita coisa na vida as coisas acontecem "acidentalmente", ainda que Zé Carlos acreditasse que as coisas tinham todas um sentido, o seu sentido. Ao ler mais e mais sobre a Síndrome de Asperger começou a convencer-se de que haveria de ser algo muito semelhante ao que sentia acontecer consigo. E quanto à pergunta de como é que ele tinha escondido isto de toda a gente a resposta parecia ser muito simples - "Camuflar!". O Zé Carlos desce cedo que observava tudo o que as pessoas faziam e construiu verdadeiras bases de dados de registo do comportamento humano. Chegou mesmo a pensar em construir um algoritmo. E com essa informação toda passou a ter um repertório para poder fazer em determinadas situações tais como o seu próprio registo o ensinava a fazer.


Nas suas leituras o Zé Carlos percebeu que havia a hipótese de ser diagnosticado, de fazer uma avaliação. Ele que sempre pensara que estas coisas do Autismo eram de crianças. Pelo menos era o que muitas vezes encontrava na internet ou na televisão quando o assunto era abordado. Mas naquele site que encontrou o Zé Carlos percebeu que não era assim. Percebeu que havia essa possibilidade e que havia um profissional que o podia ajudar nisso. Hesitou inicialmente mas após alguns contactos primeiro por e-mail e depois presencialmente percebeu que aquele seria um espaço seguro. Principalmente um espaço onde não seria julgado e seria ajudado a compreender. E assim foi, agendou uma primeira consulta e propôs-se a fazer a avaliação. O resultado não foi nenhuma novidade - Perturbação do Espectro do Autismo (nível 1) e com uma Perturbação de Ansiedade em comorbilidade. O Zé Carlos já tinha lido muito acerca de tudo isto. Mas agora havia de querer saber o que fazer com tudo aquilo. Como iria arrumar todas aquelas ideias em si. E como iriam reagir os outros.


O Zé Carlos percebeu que o seu "Sair do armário" teria de ser algo desejado por si. E por mais que tivesse ajuda da parte do seu terapeuta iria ser ele a fazer esse percurso. É um caminho muito pessoal e deve ser totalmente respeitado. A pessoa não deve ser pressionada e a escolha do momento deve ser feito inteiramente por si.

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