Chapéus há muitos!

Ele há de todos os feitios, cores e tamanhos. Servem propósitos diferentes - cobrir, proteger ou embelezar. É assim com os chapéus, mas também com os comportamentos de camuflagem no Autismo.

Há uns meses alinhamos com a comunidade cientifica internacional na tentativa de compreender os comportamentos de camuflagem na Perturbação do Espectro do Autismo (PEA). Como tal procuramos saber como seria a realidade nacional, ou uma amostra dela. Construimos um questionário de preenchimento online e que se encontra aqui - https://goo.gl/forms/cU7iPOPwY1XDmQVd2. Neste momento contamos com 290 participações. Sendo que 267 são de pessoas sem diagnóstico de Perturbação do Neurodesenvolvimento. As restantes 23 apresentam maioritariamente um diagnóstico de PEA. Contudo, é curioso verificar que 128 têm um familiar, normalmente um filho/a, com um diagnóstico de Perturbação do Neurodesenvolvimento (PEA, PHDA, etc.). Mas já volto a falar um pouco mais sobre algumas das respostas ao questionário.


Na altura em que o tema começou a ser abordado foram muitos os que se questionam sobre este tópico - camuflagem social. Mas os Autistas que aparentemente não manifestam interesse na interacção social pensam em se camuflar? e socialmente? Como é que isso poderia ser? Depois começaram a falar que esta questão da camuflagem poderia estar mais relacionada com as mulheres e mais especificamente com as mulheres Autistas. E houve até mesmo quem tenha dito que talvez seria uma das razões pelas quais se continuaria a pensar haver mais homens do que mulheres autistas. Ou seja, o facto das mulheres autistas poderem estar a usar mais frequentemente o comportamento de camuflagem social poderia estar a justificar o encobrimento e a dificuldade em diagnosticar em maior número as mulheres com PEA. Na altura também houve quem disse que caso as mulheres autistas estejam a usar mais frequentemente a camuflagem social então isso seria significado de estarem mais adaptadas socialmente e que isso seria um resultado positivo.


Há quem diga muita coisa. Um pouco como os chapéus - há muitos! Mas nem todos parecem servir o mesmo propósito ou a necessidade das pessoas.


Nesse caso, o que é isto da camuflagem social? Estamos a falar de comportamentos usados para mascarar ou esconder aspectos da própria pessoa em relação aos outros e que com isso consiga ir tendo uma participação nas situações sociais diversas. Assim, o que temos é que algumas pessoas Autistas, mais frequentemente mulheres Autistas e com um maior nível de funcionalidade e capacidade de aprendizagem de comportamentos sociais, usam estas suas competências para navegar no mundo "não autista". Mas será que isto tem apenas benefícios? E quais os custos associados?


Uma pessoa Autista que use estes comportamentos de camuflagem social têm consciência daquilo que são as suas características próprias do seu quadro clínico e de como elas poderão ter um determinado impacto negativo na sua vida pessoal, social e profissional. Esta tomada de consciência faz com que haja um sofrimento psicológico. Não só por esta tomada de consciência mas também pelo esforço que sentem que necessitam de fazer para por em prática este mesmo comportamento de camuflagem social.


Aquilo que verificamos na prática clinica é que as pessoas que apresentam uma maior prática do comportamento de camuflagem social são precisamente aqueles, e mais especificamente aquelas que apresentam um prejuizo na sua saúde mental. Já em sí fragilizada pelo facto de ter um diagnóstico de PEA e todo um percurso pautado de inúmeras dificuldades e incompreensão por parte de muitos. Mas também fragilizada por apresentarem outros diagnósticos psiquiátricos associados - Ansiedade, Depressão, Obsessivo-compulsivo, etc. O que vem agravar o sofrimento.


Curiosamente na nossa amostra de 290 participantes há uma percentagem significativa (50%) que tem sentido um aumento nos níveis de ansiedade e depressão nos últimos 6 meses. Se pensarmos que 84% dos respondentes são mulheres e cruzarmos com o facto de 45% ter um filho/a com diagnóstico de Perturbação do Neurodesenvolvimento e sabendo que nestas perturbações há uma participação de factores genéticos. Poderíamos supor que dos 267 respondentes e que na maioria são mulheres sem diagnóstico de Perturbação do Neurodesenvolvimento algumas delas poderão pertencer ao grupo de mulheres não identificadas com PEA em grande parte porque usam comportamentos de camuflagem social.

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