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Borda d'Água

Para quem não conhece, o Borda D'Água é um almanaque Português de publicação anual e que existe desde 1929. Quem já o comprou ou pelo menos leu rapidamente, percebeu que este apresenta os prognósticos para o ano, conselhos práticos baseados na sabedoria popular, na ciência e astrologia, previsões meteorológicas e para a agricultura, época de sementeiras e outros trabalhos agrícolas, etc. Ou seja, ficamos com a ideia que a leitura e o cumprimento integral das indicações apresentadas dará resultado garantido para o agricultor. E por que é que eu me fui lembrar do Borda D'Água e colocar a fotografia de duas raparigas que parecem estar a servir de sementes para fazer crescer algo?


Nos últimos anos temos assistido a um aumento no número de diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo, seja em crianças mas também em jovens e adultos. Ao ponto de já se ter falado de uma epidemia de autismo! Apenas para vos dar um exemplo para enquadrar esta designação. Em 1998 no Reino Unido eram diagnosticadas cerca de 300o pessoas com Perturbação do Espectro do Autismo. E em 2018 eram cerca de 66000 pessoas. Alguns podem ficar com a ideia de que se trata mesmo de uma epidemia. Mas é preciso parar para pensar num conjunto de variáveis que levam a que estas mudanças ocorram. Por exemplo, já estou a ver uma noticia destas publicadas num jornal diário em Portugal e verificarmos nas caixas de comentários do Jornal e nas redes sociais de que agora todos pensam que são autistas ou que os profissionais de saúde não sabem o que andam a fazer e estão a seguir um qualquer lobby de um farmacêutica, etc.


Seja o facto de haver uma crescente campanha de sensibilização junto de todos na Sociedade e depois especificamente com os profissionais de saúde. Isto tem levado a melhor capacidade de reconhecimento desta condição por parte dos profissionais de saúde. E também das referenciações que vão sendo feitas por Educadores e Professores, pais e os próprios, no caso dos adultos. O facto de poder haver um maior e melhor acesso a uma informação mais esclarecedora leva a estas mudanças.


Mas também o facto de no manual de diagnóstico das perturbações mentais, DSM 5, em 2013 ter agrupado um conjunto de condições sob o chapéu de Perturbação do Espectro do Autismo levou a que houvesse também uma maior probabilidade de diagnósticos. Até porque anteriormente a esta data o diagnóstico de Síndrome de Asperger não permitia o critério de a pessoa poder apresentar um déficit cognitivo. E neste momento o diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo já contempla esta possibilidade.


Contudo, a investigação e por conseguinte a intervenção clínica no autismo vai continuar. Mas temos percebido, investigadores mas também clínicos, que a integração de um leque mais variado de situações dentro do chapéu do Espectro do Autismo pode dificultar o estudo e a compreensão do mesmo. Podendo inclusive ser importante repensar o estudo dos subtipos de autismo, investigação e conceptualização que na verdade nunca foi abandonada, ainda que tenha perdido o seu fulgor. Por exemplo, no campo da intervenção clínica é importante perceber que os modelos de intervenção habitualmente validados para a ansiedade e depressão, duas das condições mais encontradas na população em geral e também no autismo, é fundamental pensar na adaptação das metodologias, estrutura das sessões, etc., a usar com as pessoas autistas. Correndo o risco da utilização dos modelos standardizados poderem não estar a beneficiar com ganhos terapêuticos a pessoa autista com sintomatologia ansiosa e depressiva, por exemplo.


Além disso, este mesmo trabalho continuado de investigação e reflexão no autismo, tem demonstrado que a diferença entre o número de homens e mulheres diagnósticos com Perturbação do Espectro do Autismo é menor. E no caso do fenótipo comportamental na rapariga/mulher tem mostrado uma ainda maior variabilidade e heterogeneidade na expressão social e comunicativa, mas também ao nível das questões da sexualidade e identidade de género.


Além de estarmos cada vez mais e um número maior de nós a olhar para o autismo ao longo do ciclo de vida e como tal estamos a perceber mais e melhor o autismo na população sénior. E a verificar que as características encontradas no autismo vão elas próprias mudando ao longo da vida. E que algumas das características encontrada se verificam igualmente expressas na população geral.


São grandes os desafios para todos nós, independentemente do papel que assumimos. Sejamos profissionais de saúde, investigadores, professores, pais ou cidadãos autistas e não autistas, temos um papel fundamental a cumprir. Poder continuar a reflectir em conjunto. Mas poder continuar a capacitar mais e melhor os profissionais de saúde nas várias etapas do desenvolvimento para que o diagnóstico possa continuar a ser feito o mais precocemente possível. Mas que também possa ser possível diagnosticar as pessoas adultas e melhorar todo um conjunto de indicadores de saúde mental. E por conseguinte isso traduzir-se em protocolos de intervenção mais adaptados às necessidades reais das pessoas autistas. E sem deixar cair a sensibilização de todos para a inclusão e equidade na Sociedade.


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