Auto(s)compaixão

É um titulo confuso, certo? Talvez complexo de decifrar ou compreender!? Talvez o seja, tal como aquilo que vos tenho para falar. Ainda que seja algo simples na sua essência. Deixe-me explicar primeiro o titulo - Auto(s)compaixão. O termo autismo vem do grego autos, que significa por si mesmo, mas isso você já conhecia. Ao longo destes anos a trabalhar com pessoas adultas com Perturbação do Espectro do Autismo oiço muitas descrições de vivências complexas, traumáticas e em que a resiliência parece ser algo distante de alcançar. E por isso, nas minhas reflexões e na escuta atenta do que a minha colega Tânia Costa vai trazendo sobre a autocompaixão, senti que este seria o título mais adequado a dar - Auto(s)compaixão: Como melhorar a saúde mental e pessoas adultas com Perturbação do Espectro do Autismo. Percebemos que a vida da pessoa com Perturbação do Espectro do Autismo apresenta uma forma singular de processar a informação acerca do Self, do Outro, o Mundo e da relação entre si. Nas pessoas adultas com Perturbação do Espectro do Autismo, é comum colocarem-me e a si próprios também a questão - E agora o que é que eu faço com este meu diagnóstico? Não se trata apenas do diagnóstico, de um nome, mas sim de se saber o que fazer com esta identidade, de como a compreender! Nos adultos com Perturbação do Espectro do Autismo passa a ser sentido como mais importante o pensarem-se. E como tal, é importante que nos profissionais de saúde que os acompanham possa haver esta reflexão das formas de os poder orientar nesse sentido. De procurar uma outra forma de se pensarem, pensar o Outro e o Mundo. Mas e o porquê da autocompaixão? E o que é a autocompaixão? Relativamente a esta última questão convido-vos a falarem com a minha colega Tânia Costa que é certamente a pessoa mais indicada. Mas ainda assim, a autocompaixão, nas palavras de Neff (2003), representa uma atitude calorosa e de aceitação pelos aspectos negativos do self ou da vida. E a autocompaixão parece assim ser composta por três componentes básicos, a capacidade para ser amável e compreensível para consigo próprio, em vez de ser demasiado crítico e punitivo; poder entender as próprias experiências como parte de uma experiência humana maior; e a consciência equilibrada e aceitação dos próprios sentimentos e sentimentos dolorosos, sem uma excessiva sobre-identificação com os mesmos. Nas pessoas com Perturbação do Espectro do Autismo é comum encontrar uma visão marcadamente mais negativa e desvalorizada em relação a si próprio. O acumular de experiências negativas ao longo da vida, e muito daquilo que as pessoas lhes foram devolvendo, vai ajudando a construção uma representação do Self mais negativa. E também por isso a compreensão em relação a si próprio vai sendo cada vez menor. E muitas das vezes aquilo que encontramos é uma voz autocritica e punitiva em relação à sua pessoa e aos seus comportamentos. Além do mais, aquilo que as pessoas adultas com Perturbação do Espectro do Autismo vão sentido ao longo da vida sobre as suas próprias experiências é de estranheza. Nomeadamente, porque sente uma maior estranheza em relação ao porquê de muitos dos comportamentos do Outro com quem interagem. A visão de si próprio mais autocentrada leva a que possa existir uma visão da sua pessoa englobada numa experiência humana maior. E todas estas vivências levam a que muitos adultos do Espectro do Autismo experimentem uma saúde mental mais agravada. Se a investigação nos últimos anos e demonstrado consistentemente que o cultivar de autocompaixão é uma abordagem promissora para fortalecer a resiliência em adultos neurotipicos, nomeadamente ao nível dos sintomas de ansiedade e depressão. Talvez a autocompaixão possa ser treinável junto de pessoas adultas neurodivergentes com o objectivo de melhorar a sua saúde mental a partir dos aspectos anteriormente referidos. Vivemos todos de uma forma interdependente com o Outro, sendo que todos nós sentimos uma profunda necessidade de pertença e de ligação. E ao longo do processo evolutivo fomos desenvolvendo a necessidade básica de existirmos de uma forma positiva, valorizada e amada. E ainda que cada um de nós, neurotipicos ou neurodivergentes, tenhamos formas diferentes de o alcançar, isso não significa que não exista esta necessidade de existirmos de uma forma positiva, valorizada e amada.


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