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Auto-documentário

Não sei como me fui lembrar de tal coisa, diz Rute (nome fictício), que também já se chamou Rui (nome fictício). Já me perguntaram se mudei o nome para Rute por causa de começar com R e ser mais fácil para me lembrar! diz. As pessoas perguntam coisas impensáveis quando alguma coisa sai fora da sua compreensão, continua. Rute era o nome da minha avó. Foi ela a primeira a saber. Porquê a ela? Simples. Porque sempre me respeitou, refere. Não sei que tipo de resposta estavam à espera, mas as coisas costumam ser bem mais simples. Nós é que tendencialmente as tornamos mais complexas, acrescenta. Até porque as queremos explicar, e principalmente usando a nossa forma de ver. E não procuramos descrever aquilo que simplesmente está a acontecer, continua. Forçamos uma explicação para tudo. Seja para o surgimento da vida na Terra e para as questões de género também, conclui.


Eu já estava habituada a estas questões! diz. As muitas perguntas acerca do porquê de fazer isto ou aquilo. De porque é que por vezes ficava mais parada e a tocar no tecido do meu casaco, refere. Ou porque ficava sem participar em certo tipo de conversas! Ou escolhia comer sozinha nos intervalos da escola quando podia fazê-lo com as minhas colegas até porque era convidada! continua. Eu nunca escondi o meu diagnóstico, diz. Desde que o médico me disse que eu era autista. explicou-me boa parte daquilo que nunca ninguém me havia dito. Nem mesmo as pessoas que já me conheciam, acrescenta. O médico nunca me tinha visto ou lido sobre mim. Parecia estar dentro da minha cabeça. Foi o que eu pensei, diz. Ele estava a traduzir aquilo que eu sempre desejei que as outras pessoas à minha volta soubessem, refere. Isso foi um alivio. Tinha na altura sete anos, mas já sabia o que era sentir alivio. Até porque nunca tinha sentido isso desde a última vez que os meus pais me tinha dado um abraço e não me terem sequer perguntado como tinha sido o dia na pré-escola, continua. Nesse dia senti um enorme alivio. Darem-me um abraço sem que me perguntassem nada. Darem-me um abraço sem querer saber se eu tinha feito ou não feito as coisas na escola. Ou de como eu me tinha comportado no recreio. E ainda por cima naquele dia tinha dado um pontapé na canela do Diogo Martins (nome fictício), porque ele andava atrás de mim a chamar-me Maria rapaz. Ao menos acerta no meu nome, disse-lhe. Chamo-me Rute, acrescentei.


Depois da minha avó Rute ter falecido achei que seria importante arranjar uma forma de tudo aquilo que vivia não se perder, refere. Na altura estava quase a fazer nove anos. Os meus pais perguntaram-me o que é que eu queria. Tinha visto que na escola alguns dos meus colegas usavam o smartphone para fotografar e enviar coisas uns aos outros. Eu nunca me tinha interessado muito por aquilo, diz. Normalmente gostava mais de outros assuntos. Mas pensei que seria uma boa forma de não perder aquilo que vivia. Fotografava-me, disse. Era a forma de poder perceber como é que eu ia estando no dia a dia. As fotografias haviam de contar a minha história. Já tinha percebido que não era uma invenção minha. A minha mãe gostava de fazer o mesmo com as fotografias que tinha da família. Ao domingo chamava-nos a todos para poder voltar a contar todas as mesmas histórias. Ninguém parecia gostar. Eu acho que era a única que parecia não se importar. E aquilo parecia ser importante para a minha mãe. Pensava muito nas minhas próprias coisas e no facto de também gostar muito de as fazer. E que com a minha mãe haveria de ser algo parecido, continua. Uma vez disse-lhe isso. Que disparate, disse ela. Achas que eu também sou autista? perguntou-me. E riu-se. Nunca mais tive vontade de estar a ouvir as histórias das fotografias. Mas isso também coincidiu com a depressão da minha mãe. Na altura passei a estar mais tempo com o meu pai. Ele parecia não se importar desde que eu não o chateasse muito com perguntas. Era mais calado. Assim como eu também na maior parte das vezes, conclui.


Passei a andar no psicólogo, diz. Foi quando entrei para o 5º ano. Tinha 11 anos. Tinha chumbado no 4º ano. Talvez a morte da minha avó me tenha afectado. No 5º ano alguém disse aos meus pais que eu tinha problemas e que precisava de ir ao psicólogo. Eu disse que não me importava, mas fiquei a pensar porque é que as outras pessoas que tinham problemas não iam ao psicólogo! refere. Foi a primeira pergunta que coloquei ao psicólogo, e ele respondeu-me que as pessoas só vão ao psicólogo se quiserem. Lembro-me na altura de me ter levantado e saído do gabinete, refere. A seguir bati à porta e perguntei se podia entrar. Ele riu-se. Eu também. E desde então nunca mais deixei de ir ao psicólogo. Algum tempo mais tarde ele falou-me de questões relacionadas com o género. E chamou a tudo aquilo que eu falava de disforia de género. Mais uma vez pensei que as pessoas gostam de complicar tudo com nomes complexos. Quando aquilo que eu sentia é que não estava confortável com o sexo com que tinha nascido. Ele compreendeu. A minha avó também compreendeu, referiu.


Muitas vezes diziam-me que estava sempre stressada, diz. Como não havia de estar? pergunta. Como? Alguém consegue imaginar crescer com algo em si que não lhe faz sentido? continua. Alguém consegue imaginar o que é acordar todos os dias com um pénis e não lhe fazer sentido? E não saber porque é que isso acontece? continua. E estarmos com medo de perguntar a quem quer que seja porque sentimos que ninguém nos vai compreender! Até porque já ouvimos histórias parecidas de pessoas que foram humilhadas, gozadas, batidas, tudo!? pergunta. Desde criança que ouvia os meus pais a gozarem com as matrafonas no Carnaval e a dizerem que se eles tivessem vergonha não faziam aquelas figuras, refere. Como é que eu havia de pensar em contar aos meus pais? volta a perguntar.


Houve muitos dias em que me senti presa no meu próprio corpo, partilha. Como é sentir isso? pergunta. Um inferno! Primeiro vem a estranheza. Depois a vergonha e a culpa, diz. A seguir a raiva, muita raiva. Uma raiva por nos sentirmos aprisionadas e ao mesmo tempo uma raiva por nos querermos esconder novamente naquele mesmo corpo para ninguém nos fazer mal, acrescenta. E a somar a tudo isto as dificuldades em compreender as emoções e ainda por cima todas estas emoções tão complexas, diz. Todo o meu corpo já tinha as mudanças próprias da entrada na puberdade. E além disso havia todas as mudanças a acontecer na minha cabeça. Era a tempestade perfeita, diz. E além de tudo a vida não parava. A escola não parava. As avaliações na escola não paravam. E os meus pais e os professores não paravam de dizer que eu tinha de ir à escola senão chumbava, acrescenta. E eu ainda por cima me sentia culpada por não estar a conseguir fazer todas aquelas coisas. Até porque sempre fui uma pessoa perfeccionista, partilha.


As fotografias ajudaram-me a renascer, diz. Como? pergunta. Porque para renascer temos primeiro de perceber quem somos. E depois morrer. E a seguir querer voltar. E reconstruirmo-nos. E para isso precisamos de nos perceber. E perceber o que vai dentro e fora de nós. E as pessoas à volta de nós, refere. E tantas vezes as pessoas em torno de nós parecem ser mais difíceis de compreender do que a nós próprios, acrescenta. Até porque as pessoas nós não controlamos, além de não as percebermos. Pelo menos a nós podemos controlar, mesmo que não nos consigamos perceber, diz. As fotografias ajudaram em tudo isso. As fotografias ajudaram a diminuir a velocidade com que pensava nas coisas. As fotografias têm esse dom de congelar os momentos. E assim eu podia voltar, uma e outra vez, àquele momento e poder pensar sobre ele. Percebem? pergunta retoricamente. As fotografias ajudaram nas memórias que por vezes se pareciam apagar, diz. Os momentos mais traumáticas têm esse condão, de apagar as memórias. Muitas vezes as consultas de psicologia serviam para andarmos a apanhar os cacos. Como se andássemos os dois, eu e o psicólogo no chão a apanhar os cacos. E depois colávamos. As fotos ajudaram a que ficasse mais fácil de saber o que poderia estar perdido. Fizemos um portfólio na consulta e passamos a colocar lá todas as fotos. Era um lugar seguro onde eu ficava, diz. Assim sabia sempre onde voltava! De onde nunca tinha saído. Até que um dia disse que ia embora. Ele percebeu perfeitamente. Até um destes dias Rute! disse-me.


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