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Autista não rima com terrorista


O medo está na base de todas as formas de exclusão, tal como a confiança está na génese de todas as formas de inclusão.

Jean Vanier


O João é autista. Não, o João não é um nome fictício. O João tem 18 anos. O João é aluno de Engenharia Informática da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. O João está neste momento em prisão preventiva indiciado pelo acto de terrorismo.


Aquilo que vou escrever estranhamente não é sobre o João. E não é porque eu não o conheço. E não, o facto de ter lido que o João é autista não faz de mim conhecedor sobre o João ou a vida dele. Mas também não tenho pretensão de desculpabilizar ou normalizar o comportamento do João tenha ele sido o que for. Para além de não me competir essa função, não creio que estivesse a fazer uma coisa adequada.


E também me parece fundamental dizer que, apesar do João ter sido referido como autista, isso não tem de corresponder necessariamente à verdade. Até porque a informação referida, e ainda mais nas noticias, carece de um certo enviesamento. Mesmo que refiram que essa informação foi obtida do próprio ou dos pais (e.g., "Os pais do João referiram que o João foi diagnosticado com Síndrome de Asperger."), nós não temos a certeza dessa mesma informação e da veracidade da mesma. Seja no autismo ou em outras perturbações mentais, há toda uma complexidade em relação ao processo de diagnóstico e ao diagnóstico em si.


Muitos de vocês já leram nos últimos dias coisas sobre o João. E não, eu não tenho informação nenhuma privilegiada sobre o João ou sobre o caso. Além de lerem, a informação a que as pessoas acendem, e neste caso, tal como em muitas outras situações, não corresponde aos factos ou à realidade. Ou então corresponde, mas o facto como a mesma está reportada e associada a determinados comportamentos, enviesa o leitor e a população em geral, a construir ideias perigosas e falsas sobre as coisas.


Não é de agora que se associa a doença mental, a loucura, as perturbações, o patológico, a psicopatologia ao comportamento violento, agressivo, psicopático, serial killer ou terrorista.


O estigma face às perturbações mentais leva a que as pessoas sintam receio, medo que a pessoa possa ser agressiva, imprevisível, violenta, incompetente ou até mesmo responsável pela sua situação clinica. E além de existirem todo um conjunto de campanhas e intervenções de especialistas para esclarecem a não relação entre a perturbação mental e os comportamentos agressivos e violentos (por exemplo, ver aqui a entrevista do Gustavo Jesus, psiquiatra, sobre o caso do João). Ainda assim, continua a existir toda uma desinformação ou associação enviesada da informação que leva a perpetuar este mesmo estigma.


Se ao menos soubéssemos que uma perturbação mental é uma adulteração do pensamento e das emoções produzida por desadequação ou deterioração do funcionamento psicossocial em dependência de factores biológicos, psicológicos e sociais. Talvez assim, deixassem de se dirigir à pessoa com uma perturbação mental de uma forma negativa, pejorativa e lesiva.


Além de lermos que o João tem um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo desde criança. Também é referido que joga FPS (First Person Shooter). Este é um género de jogo de computador e consola, centrado no combate com armas de fogo no qual se visualiza a partir do ponto de vista do protagonista, como se o jogador e personagem do jogo fossem o mesmo observador.


Também aqui, no caso de determinado tipo de videojogos, não é a primeira vez que se faz associação ao comportamento violento e agressivo. E o mesmo se poderia dizer em relação a determiandas redes sociais, tal como a Discord, aquela usada pelo João e por muitos outros utilizadores, principalmente jogadores de videojogos e não só. Nomeadamente, nos EUA e em outros países tem sido feito a referência a determinado tipo de ataques em escolas e outros locais a pessoas que jogavam este tipo de videojogos. A investigação cientifica e os especialistas na área têm há muito referido que não há razão para este tipo de associação. E que tal como a associação da perturbação mental ao comportamento agressivo e violento, é não só perigoso mas também lesivo para todos nós, sejam os utilizadores ou não de videojogos. Por exemplo, ainda ontem o meu colega João Faria, psicólogo clínico, dava mais uma entrevista para esclarecer este facto (ver aqui).


É fundamental continuar a não associar determinada informação nos títulos e no corpo das noticias, seja nestes ou em outros casos semelhantes. Referir que o João é autista não acrescenta nenhuma mais valia à noticia tal como se quer dar aos leitores. No entanto, esta mesma referência irá criar em grande parte dos mesmos uma crença, já pré existente ou não, de que as pessoas autistas são violentas, agressivas e capazes de cometer actos hediondos. Além do mais, os próprios leitores nestas situações vão recuperar de forma automática ou não, todo um conjunto de outros episódios anteriores em que pessoas autistas ou pessoas com outros diagnósticos de perturbação mental tiveram comportamentos semelhantes. Facto que vai consolidar estar sua crença de que as pessoas autistas ou com uma perturbação psiquiátrica são capazes de cometer actos horríveis. E o mesmo se pode dizer em relação à utilização de determinado género de videojogos ou de redes sociais.


Quando lemos ou ouvimos dizer que a pessoa em questão é autista, isso não deve querer dizer que já sabemos tudo sobre ela. Mesmo que nós possamos saber ou já ter lido em algum manual quais são os critérios de diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo, isso não nos autoriza a saber o que é o autismo. E muito menos quem é aquela pessoa autista.


Além da heterogeneidade existente no autismo, e como isso se transparece nos comportamentos diferentes que observamos nas pessoas autistas. Também precisamos de perceber que há todo um conjunto de outras perturbações psiquiátricas associadas. Sendo inclusive algumas destas outras perturbações que podem em algum momento levar a situações de maior desorganização na pessoa.


E também por isso deve ser dada a oportunidade às próprias pessoas autistas para falar sobre a sua condição. Para conhecer a realidade do grupo, é essencial “dar voz” aos verdadeiros protagonistas e ter a opinião das pessoas autistas, tornando-as participantes do processo de informação.


E no que diz respeito à informação que consta numa noticia, é fundamental lembrar que a informação contrastante é um dos princípios básicos do jornalismo. E como tal, antes de preparar uma história, o profissional verifica se a fonte é confiável, se os dados são precisos, se tem uma abordagem tendenciosa ... Ter os testemunhos de todos os actores envolvidos ajudará a evitar erros ou imprecisões futuras.


Sendo que neste caso especifico da noticia acerca do João, caso os órgãos de comunicação social tivessem contactado outras pessoas autistas para ouvir a sua posição, teriam ficado logo com a ideia mais esclarecida do que seria importante ou não referir na noticia ou até mesmo de como deveriam apresentar a ideia em questão.


No que diz respeito ao autismo, os jornalistas às vezes abordam as notícias de maneira tendenciosa e nem sempre contam com a participação de pessoas autistas, suas famílias ou organizações que as representam. Para conhecer a realidade do colectivo, é essencial “dar voz” aos verdadeiros protagonistas e opinar, tornando-os participantes do processo de informação. Também das organizações que os representam e dos profissionais que trabalham com eles todos os dias, uma vez que fornecem dados e informações em nível geral.


Sendo que no caso da noticia do João, e não tem sido caso único, os especialistas chamados a falar sobre a noticia parecem carecer eles próprios também de alguns esclarecimentos sobre o que dizem. Além de que muitos destes designados especialistas nem são eles próprios profissionais de saúde e estão a abordar uma questão já de si tão sensível de forma enviesada tendo em conta a sua perspectiva.


O autismo não deve ser o protagonista das notícias Uma pessoa autista é antes de tudo uma pessoa. O autismo é outra característica da pessoa, mas não a define. Portanto, quando uma notícia relacionada ao colectivo é produzida, e sempre que o autismo não é o eixo fundamental, o foco deve ser colocado na pessoa e não na sua deficiência. Nesse sentido, recomendamos especialmente evitar a menção expressa da condição na manchete, para não fazer do autismo (sem necessidade) o protagonista da notícia.


Além disso, afirmamos que as notícias relacionadas à deficiência em geral e ao autismo em particular, nem sempre são vistas da perspectiva das informações sociais e publicadas nas secções "Sociedade" ou "Saúde". Recomendamos focar no conteúdo da informação e não na pessoa envolvida, para que as notícias sejam incluídas no campo a que pertencem (emprego, cultura, desporto, etc.), contribuindo assim para a visibilidade e inclusão social dos colectivo.


A titulo de exemplo, nos seguintes excertos de noticias podemos perceber um pouco mais e de forma prática a questão referida.


Um homem foi preso pela morte de uma menina autista de 13 anos em...."


O facto de a criança supostamente assassinada ter autismo não é de todo relevante para ela fazer parte da manchete das notícias. O facto objetivo e digna de nota é a morte de uma menina. Se ele tinha ou não autismo, poderia ser incluído no corpo das notícias, mas não é algo que precise ser destacado no título.


Três pessoas investigadas por abuso de criança com autismo numa escola em...."


Como no caso anterior, a coisa realmente importante desta notícia é que houve um alegado caso de abuso de criança num centro educacional. É secundário que a criança tenha autismo ou qualquer outro tipo de deficiência.


Ainda não é possível determinar uma causa única que explique o autismo, nem por que esta condição se manifesta de maneira diferente em cada pessoa. Esta indefinição implica uma grande complexidade: cada caso é único e, como tal, deve ser tratado diferentemente, levando em consideração suas peculiaridades.


Mas também há todo um trabalho que necessita de continuar a ser feito. Seja na sensibilização da sociedade para o respeito e inclusão de todos. Mas também pela informação adequada face a estas e outras condições. Além do mais, é preciso não esquecer todo um conjunto de outros factores que aqui estão envolvidos e merecem a atenção de todos. É fundamental considerar que nestas e outras condições, as pessoas em questão estão frequentemente sujeitas a situações de bullying, cyberbullying, mal trato, humilhação e estigma social. E não, não é para justificar o que quer que seja, é para enquadrar. E para sabermos o que ainda precisamos de fazer. Além disso, e em Portugal especificamente, enquanto continuarmos a ter 1 psicólogo para cada 5000 alunos no Ensino Superior, será certamente difícil de poder fazer um melhor trabalhos aos milhares de jovens estudantes que chegam a esta etapa fundamental da sua vida com todo um conjunto de necessidades que já se arrastam há bastante tempo e que não tiveram resposta especializada ainda.



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