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Autismo branco mais branco não há

Sempre ouvi dizer - "Há noite todos os gatos são pardos". Mas ao que parece de dia também o são. Na Perturbação do Espectro do Autismo (PEA) a investigação realizada nesta área é realizada em países do Oeste e com altos níveis de desenvolvimento. No entanto, apenas 20% da população global vive nestes países. E os estudos realizados no autismo são feitos com amostras provenientes destes países. Poderíamos pensar que nestes países as amostras seleccionadas seriam representativas das minorias étnicas, certo? Mas errado, porque aquilo que se verifica é que as amostras são quase exclusivamente constituídas por participantes caucasianos. Esta questão poderia ser uma questão menor, mas não é. À semelhança do que nos temos vindo a aperceber sobre a diferença no fenótipo comportamental entre rapazes e raparigas no espectro do autismo, em grande parte devido à sobre representatividade dos participantes do sexo masculino nas investigações. Também aqui esperamos diferenças.

Desde há bastante que no PIN recebemos famílias provenientes do continente Africano. Para além da facilidade da língua, no caso dos países PALOP. Há o facto da resposta médica e psicológica especializada nestes países ser escassa. E como tal tem sido possível observar todo um conjunto de características que denotam algumas diferenças. Sejam as questões culturais próprias de cada pais e que têm um impacto na forma como os rapazes e raparigas interagem a nível social. Mas também a forma como algumas das suas características comportamentais são valorizadas pelos outros, sejam pais, educadores, profissionais de saúde ou outros.


Como resultado deste desequilibro global na representatividade das minorias étnicas na investigação no autismo, o nosso conhecimento da expressão dos sintomas, o rastreio e os instrumentos para avaliar e diagnosticas usados nesta área, assim como a intervenção desenvolvida para o espectro do autismo é muito provável de ser enviesada cultural e contextualmente.


Nos países em desenvolvimento uma larga percentagem de pessoas do espectro do autismo continuam sem ser diagnosticas e a grande maioria delas não acede a uma gama variada de intervenções baseadas na evidência cientifica. Para além do impacto causado nestes países e a nível global, subsiste o facto de que este conhecimento nos poderia ajudar nas minorias étnicas existentes nos países desenvolvidos e que também não estão a ter uma resposta adequada.


Até que ponto é que a expressão dos sintomas de PEA, conforme definido na DSM 5 e a CID 11 são uniformes entre culturas? Seguindo os critérios de diagnóstico do DSM 5 para PEA, existem três níveis nos quais os aspectos comportamentais da PEA podem diferir entre culturas: os domínios mais amplos (“deficits persistentes na comunicação social e interação social” e “padrões repetitivos restritos de comportamento, interesses ou actividades”); os subdomínios (por exemplo, "deficits na reciprocidade social - emocional "," hiper-reactividade ou hiporreatividade ao imput sensorial ”); ou os exemplos comportamentais menos frequentes e mais bizarros ou a indiferença à dor / temperatura. Os critérios da PEA na CID-11 segue a mesma estrutura de dois domínios, mas é menos prescritiva na distinção de subdomínios e exemplos de comportamento. Os sintomas da PEA podem variar de quatro formas: (a) diferenças qualitativas; (b) diferenças quantitativas; c) diferenças de até que ponto os sintomas resultam em comprometimento clínico no funcionamento diário; e (d) diferenças de como esses sintomas se agrupam em domínios mais amplos.


Enquanto os domínios mais amplos dos sintomas do autismo são universalmente observados, podem ocorrer diferenças na manifestação do comportamento de autismo. Investigações anteriores mostram que as manifestações específicas variam de acordo com a idade, competências e género dentro de uma população. Se o mesmo também é verdade para a cultura e contexto, ainda não foi estudado em profundidade.


Na cultura ocidental, a falta de contacto visual é um sintoma comum de deficits na comunicação não-verbal. No entanto, na cultura chinesa, o contacto directo dos olhos com os adultos é considerado indelicado para as crianças. Assim, no contexto cultural chinês, dificuldades de comunicação não-verbal características de autismo podem-se manifestar em contacto visual atípico, do que a falta de contacto visual. Um outro exemplo proveniente da Etiópia indicou que “cumprimentar bem os outros” é relatado pelos cuidadores como algo que seu filho autista faz bem, ao invés de ser um deficit. As saudações sociais são altamente ritualizados na Etiópia e têm grande significado social. Os cuidadores relatam isso como uma competência e não como uma dificuldade indicativa de comportamentos ritualizados ou deficits sociocomunicativos característicos do autismo.


Mesmo quando os tipos de sintomas expressos são do mesmo modo, pode haver diferenças culturais na frequência e gravidade de características ou sintomas do espectro do autismo. Em crianças africanas do espectro do autismo, Lotter já tem sido reportado uma menor frequência de flapping ou comportamentos estereotipados do corpo a baloiçar. Assim como as rotinas ou rituais não funcionais e as preocupação com partes de objectos parecem ser mais frequentemente reportados por crianças caucasianas.

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