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Até o dia chegar

Eu sou o Antero Miranda de Jesus (nome fictício), filho da Za e do pai Ateneu. Alguns de vocês ficaram sensibilizados com a minha história publicada ontem - "O dia chegou". Outros zangados e a perguntar-se como é possível. Muitos angustiados e a pensarem em todas as vezes que já pensaram no assunto e naquelas que ainda lhes falta pensar. Há espaço para todos essas emoções. E é suposto. Afinal estamos a falar da vida. E com a vida também há a morte. E a vida dos meus pais foi longa.


Mas há muita coisa que gostava que tivesse sido diferente. E isso poderia fazer a diferença na forma como muitas coisas agora estão. Não no facto dos meus pais terem falecido. Gostava de ter conseguido abraçar o meu pai. Pelo menos uma vez que fosse. Ele nunca o tentou. Sei que me procurou respeitar nisso. Gostava de não ter mentido à minha mãe. Naquele dia em que vim da escola e não tinha mais nada na cabeça senão aquilo que o Rui (nome fictício) me tinha dito. A minha mãe perguntou-me se estava tudo bem. E eu disse-lhe que sim.


Também gostava que me tivessem dito logo em pequeno o que se passava comigo. E principalmente, que tivessem dito aos meus pais que eu era autista e o que isso significa. Os meus pais fizeram o que souberam. Como é que eu sei? Simples, perguntei-lhes. Devia ter sete anos e estava a chegar da escola , quando a minha mãe me disse para lhe contar o que tinha acontecido. Ninguém sabia de nada, e muito menos os meus pais. Mas eles sabiam. E eu perguntei-lhes como é que eles sabiam. E a minha mãe respondeu, os pais fazem sempre o que sabem! O meu pai não disse nada, mas o olhar dele disse tudo. Os meus não sabiam que eu era autista. mas sabiam que eu era o seu filho. Amaram-me, defenderam-me, ralharam-me sem razão algumas vezes, e o meu pai gritou-me uma, apenas uma vez. Foi uma aprendizagem para ambos. Eu não aguentei e fugi de casa nessa tarde. Estive dezoito horas a vaguear. Eles estiveram muito aflitos. A cara da minha mãe não mudou durante três dias. A cara do meu pai nunca mudara. Nesse dia deixou-me comer dois gelados seguidos. Acho que foi a maneira que ele conseguiu de me dizer que estava tudo bem. E era uma linguagem que eu entendia.


Mas apesar de a ingenuidade fazer parte da minha personalidade, não deixei de pensar que devíamos ter sido ajudados. Todos nós. Eu a ser uma criança mais confiante e um jovem mais resiliente, para que pudesse ser um adulto mais capaz para mim próprio, para a minha vida. E enquanto eles cá tiveram, para os meus pais. Mas também teria sido importante terem ensinado os meus pais a se compreenderem na forma como me compreendiam às vezes. Não era preciso ensinarem-nos a ser uma família, ou a eles pais. Mas havia coisas que fazia a diferença.


E da mesma forma que fez falta a mim, também o fez a todos os meus colegas e aos seus respectivos pais. Desde aqueles que me desrespeitaram, humilharam e magoaram. Mas também aqueles que gostaram de mim como quem gosta de uma pessoa inferior. Disseram-me muito mais tarde que era compreensível não ter tido amigos. que isso fazia parte da minha condição. Não fazem ideia da dificuldade que todos os outros meus colegas foram tendo de dificuldade para se aproximarem de mim. Eu devia ter tido treino de competências sociais. Muitos deles deviam ter tido treino de como lidar com o medo que as suas próprias crenças os foram fazendo crescer. como é que eu podia ser amigo de quem não o quis? Por isso teria sido importante que todos nós pudéssemos ter sido ajudadas. E isso acabava de vez com isso da educação especial ou inclusiva. Não sou nem mais ou menos especial que qualquer um dos meus colegas. Assim como todos nós merecemos e temos direito a ter uma educação plena e em respeito do nosso ser.


Se os meus pais podiam ter feito mais ou diferente? Sim, podiam. Mas fizeram o que puderam e souberam. E não são apenas eles que teriam de ter feito. Eu também deveria ter feito. Independentemente da minha condição, também eu deveria ter feito. E à minha maneira fui fazendo. E todas as pessoas com quem fui contactando também deveriam ter feito coisas diferentes. Poderia pensar que os meus pais poderiam ter-me ajudado mais a ser uma pessoa autónoma e independente. E independentemente da minha condição. Não interessa se sou autista ou não autista. É um direito de cada pessoa poder ser ajudada a ser autónoma e independente. E na vida adulta ser a pessoa a escolher como quer viver essa autonomia e independência. Seria importante que eu pudesse saber fazer mais e melhor determinadas coisas práticas na minha vida. Cozinhar, tratar da roupa e da casa, etc. Todas estas coisas são fundamentais e agora sinto que as vou ter de aprender com uma idade diferente. E será certamente mais complicado, mas não será impossível. E não, não foi culpa dos meus pais não me terem ensinado isso. Até porque quando o tentaram eu também não reagi da melhor forma e eles foram ajustando as coisas às expectativas deles próprios.


Toda esta minha experiência de vida servirá para alguma coisa, estou certo. Não sei se terei capacidade, disponibilidade, atenção ou até mesmo tempo para pensar em todas as coisas? Provavelmente não, tal como muito possivelmente ninguém terá. Faz-me muita diferença não ter os meus pais aqui em casa. E isso tem-me feito pensar em sair para a rua. No dia a seguir ao funeral não consegui ficar em casa. Não aguentava. E não tinha ninguém a quem recorrer. Foi sufocante. Peguei nas chaves e sai. Fui andar na rua. Devo ter estado quase tanto tempo quanto o tempo quando em adolescente fugi de casa. Pelo menos foi essa a percepção. Andei, andei, não pensei se estava perdido ou não. Não me interessava. Os meus pais tinham morrido. Curioso porque isso deu-me para pensar nas coisas de uma forma diferente. Parece horrível o que vou dizer, mas parece que ganhei outro espaço dentro de mim. Como se o vazio dos meus pais estivesse a ser preenchido por outras coisas. Fiquei com um nó na garganta de ter sentido isso. Mas estou certo que onde quer que estejam os meus pais devem ter ficado contentes. Tanto que eles queriam que eu pudesse sair e passear. Apenas isso, passear.


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