As fronteiras do invisível

O essencial é invisível aos olhos dizia o Principezinho. Invisível, será que quer apenas e simplesmente dizer que não vemos? E nós, vemos apenas com os olhos? E os que não vêm não sentem? No dia mundial da saúde mental lembramos o essencial. Se não conseguir ler porque eu não sei escrever em braille peça a alguém que lhe leia.

No dia de hoje são muitas as iniciativas para recordar, conscientizar, alertar a sociedade para as questões em torno da saúde mental. Muito gira em torno dos números na saúde mental. Nesse flagelo muitas vezes desconhecido do número de pessoas, homens e mulheres, crianças, jovens, adultos e idosos que vivem com uma doença mental. São cada vez mais e durante mais tempo e com pior qualidade de vida. Mas também os números dos seus cuidadores informais e formais que também precisam de ser cuidados na sua saúde mental. As famílias, e dentro delas principalmente as mulheres são quem cuida. Muitas vezes sem informação ou formação para melhor cuidar e se cuidar e que depois também adoece.


O giro é tão grande que também passa pela importância de olhar para os factores promotores e protectores de uma boa saúde mental. Ou seja, de tudo aquilo que nos envolve ao longo do ciclo de vida. Mas também dos factores que prejudicam e levam ao surgimento, agravamento e manutenção de uma má saúde mental, causadora de grande sofrimento psicológico.


E não esquecer a importância da conscientização para a saúde mental e as pessoas que mais sofrem devido a um saúde mental mais precária. Mas lembro que todos sofremos e em várias dimensões. Porque, a saúde mental é património de todos nós, seja uma boa ou má saúde mental. E mesmo tendo uma boa saúde mental podemos vir a deixar de a ter se não a cuidarmos ou se tivermos de cuidar de alguém que sofre psicologicamente, ou até mesmo ter impacto na nossa vida ao nível orçamental num nível micro e macroeconómico.


A saúde mental é tudo isto e mais. É o essencial. É o invisível aos olhos!


No dia 12, a CAPITI (www.capiti.pt) irá desenvolver um evento - "Capiti & the spot market" na Estufa Fria em Lisboa. No seguimento dos seus eventos anteriores "Dar luz a esta causa" a CAPITI convidou este ano um conjunto variado de artistas de renome e não só para intervir numa tela em branco com o tema da saúde mental na sua base. Estes "não só", à semelhança de como já aconteceu no passado, são jovens que têm uma perturbação do neurodesenvolvimento e que são acompanhados no PIN e na APSA. Estes jovens artistas projectaram nesta tela em branco aquilo que é a sua vivência da saúde mental. Da sua e de como a sentem no global.


A tela em branco e as fronteiras do invisível faz-me lembrar muito esta questão da saúde mental. Das condições invisíveis por que muitos homens, mulheres, crianças, jovens, adultos e idosos passam quando a sua saúde mental está mais fragilizada. A tela em branco nunca está vazia. Lembrem-se, o essencial é invisível aos olhos, dizia o Principezinho. A tela em branco tem algo que a pessoa que a vai intervencionar já tem em sua mente. Que sente ao olhar para a tela. Está lá muito disso tudo, ainda que não seja visível. Tal como as grandes obras de arte que todos nós vemos ao longo da vida e por esse mundo fora. Aquilo que dizemos, escrevemos ou sentimos nunca é a totalidade do que lá está nessa tela já com muitas outras coisas. É como se a tela nunca deixasse verdadeiramente de ser branca e ter sempre lá tudo. Tudo aquilo que qualquer um de nós que intervenciona sobre ela deseja. A intervenção não é apenas feita de pincel e tinta na mão. Também é intervencionada na palavra, no olhar e sentimento de quem a contempla. Tal como a saúde mental. Tem tudo dentro de sí e ainda assim nunca é apenas e simplesmente aquilo que se vê. É essencial.

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