Aberto até de madrugada

As pessoas com autismo não sentem empatia!, ouvia-se na mesa do lado. À minha frente notava que Júlio começava a ficar mais impaciente. Acreditas numa coisa destas?, perguntou-me. Sim!, respondi-lhe entre uma garfada e outra. Achas que deva ir lá?, perguntou-me. Se sentes que te faz sentido, então deves ir!, devolvi-lhe. Júlio levantou-se e calmamente dirigiu-se à mesa do lado. Pediu licença por interromper. Desculpem interromper a vossa conversa mas não pude deixar de ouvir que disseram uma coisa altamente errada sobre as pessoas autistas. Eu sou autista e não tenho falta de empatia! Porventura se me faltasse não teria vindo aqui explicar algo que penso que vos parece faltar a vocês próprios. Se tiverem interesse em saber, essas e outras coisas sobre os autistas, procurem escutar algum com a devida atenção, disse-lhes esboçando um breve sorriso. Júlio e eu tínhamos ido almoçar. Fazíamos isso com alguma frequência. Fosse eu ou ele a marcar. Fomos aprendendo sobre o mundo de cada um ao longo das nossas conversas. A situação anteriormente descrita reflecte a visão estereotipada e negativa acerca do autismo e que ocorre em vários sectores da Sociedade, seja em leigos mas também em profissionais de saúde. E parte da sustentação destas mesmas crenças advém da investigação cientifica e da forma como as questões a investigar são colocadas, mas também os instrumentos de avaliação usados e a interpretação dos resultados obtidos. O deficit na empatia sobejamente reportado nos estudos no Espectro do Autismo podem ter outras leituras possíveis. Ainda que as mesmas possam ter resultados dispares e que não ajudem a corroborar as mesmas. Por exemplo, argumenta-se que embora as pessoas autistas sejam conhecidas como tendo diversos deficit, tal como na Teoria da mente, que irá provocar um impacto na identificação da emoção, atribuindo ao outro um estado emocional diferente, eles também experimentam um excesso de empatia que pode ser devido ao aumento da partilha de afectos. Como consequência, as pessoas autistas são mais susceptíveis a um aumento da activação empática, e que as leva a sentir uma maior angustia. Muito frequentemente e quando a pessoa autista se sente oprimido pelo estado afectivo do outro, fica muito mais incapacitado de desenvolver comportamentos empáticos apropriados. E que em parte parece levar as pessoas a reforçarem a a sua ideia de as pessoas autistas não serem empáticas. Um outro aspecto que precisa de ser tido em conta nesta questão da empatia no autismo, é a relação mais estreita e frequente entre a Alexitimia e o autismo. Esta maior dificuldade e até mesmo incapacidade de fazer uma leitura da expressão emocional do próprio e por conseguinte do outro compromete o comportamento de empatia. Não que a pessoa autista não esteja a sentir, porque o está. A dificuldade está na sua capacidade em nomear o que está a sentir. Embora a nossa capacidade de ser e ter empatia com os outros seja pensada como uma questão central de uma interação social de sucesso, os investigadores ainda não concordaram sobre o que é empatia, ou como medi-la. As definições existentes de empatia variam de processos indiscutivelmente mais simples, como reconhecimento de expressões faciais emocionais e contágio emocional, para formas mais complexas que exigem que a pessoa em questão reconheça que o seu estado afetivo é causado pelo estado emocional do outro. Além da questão de conceptualização do construto, a operacionalização metodológica do desenho experimental usado para testar a empatia nas pessoas também carece de mais reflexão. Por exemplo, o facto de continuarmos a contar com a utilização de questionário de auto-relato para avaliar se a pessoa apresenta comportamentos de empatia ou não, parece-nos uma falácia metodológica marcada. E isto principalmente quando usado neste grupo de pessoas autistas, especificamente. Alguns outros estudos que usam por exemplo a visualização de expressões faciais e o objectivo pedido aos participantes é de decidirem qual a emoção visualizada. Na verdade estão a pedir às pessoas que identifiquem emoções, quando na verdade os investigadores em questão estão a procurar extrapolar os resultados para falar da capacidade de empatia. Assim, ao invés de estar sistematicamente a testar se o estado da pessoa autista emparelha com o estado da pessoa não autista, e dai deduzir se a pessoa autista é empática ou não. Parece fundamental perceber para além dessa possibilidade de identificação da emoção, perceber se a pessoa autista partilha um estado emocional com a outra pessoa.



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